Marcos não repetiu a acusação.
Em vez disso, voltou a se ajoelhar diante da cadeira de rodas e esperou que o pai encontrasse fôlego.
— Pai, o senhor está dizendo que Helena tem cuidado do senhor sozinha?
O idoso, Augusto Valença, fechou os olhos por um instante.
Depois fez um movimento curto com a cabeça.
— Ela… fica — conseguiu dizer.
Regina soltou o braço da empregada como se só então percebesse que ainda o segurava.
— Augusto está cansado, Marcos.
Ele se confunde quando precisa falar diante de muita gente.
A menina aproveita essas situações para parecer indispensável.
Helena sentiu o rosto queimar.
Não era a primeira vez que ouvia esse comentário, mas nunca havia sido acusada diante do próprio filho da família.
— Meu pai não precisa falar depressa para ser ouvido — respondeu Marcos.
— Precisa que alguém tenha paciência.
Ele pediu que a mãe se afastasse da cadeira.
Regina não se moveu imediatamente.
Só recuou quando Augusto puxou a manga de Marcos com os dedos enfraquecidos.
— Água — murmurou o pai.
Helena apanhou o copo que já estava sobre a mesa.
Aproximou-o com cuidado, esperando que ele ajeitasse a cabeça antes de beber.
Marcos percebeu que ela sabia exatamente de que lado oferecer o copo e quando fazer uma pausa.
— Quem ensinou você a fazer isso? — perguntou.
— A enfermeira que vinha aqui, no começo.
Depois eu fui aprendendo com seu pai.
Quando ele fica cansado, engole mais devagar.
— Que enfermeira?
Regina interrompeu:
— Nós temos uma equipe excelente, Marcos.
Você recebe todos os relatórios.
— Recebo mensagens dizendo que está tudo bem.
Não é a mesma coisa.
Helena abaixou os olhos.
Ela tinha ouvido conversas parecidas outras vezes, sempre pelo telefone, quando Marcos ligava para saber da recuperação do pai.
Quase sempre Regina atendia primeiro.
O almoço esfriava na bandeja.
Augusto apontou para ela, fazendo um esforço que pareceu irritá-lo consigo mesmo.
— Quer terminar de comer, pai? — perguntou Marcos.
O velho assentiu.
Marcos puxou uma cadeira e ficou ao lado dos dois enquanto Helena voltava a ajudá-lo.
A cada colherada, Augusto respirava com calma.
Ninguém apressou o movimento de sua boca nem corrigiu a forma como segurava o guardanapo.
Quando acabou, tocou levemente a mão da jovem.
Era um agradecimento pequeno, mas Marcos viu quanto custara.
— Obrigado — disse ele a Helena.
— Eu deveria ter vindo mais vezes.
Regina cruzou os braços.
— Seu pai sempre foi muito orgulhoso.
Não gosta que eu fique perto quando está assim.
Augusto levantou a cabeça.
— Não… é isso.
A frase saiu entrecortada.
Marcos esperou.
O pai tentou continuar, mas as palavras não vieram.
Helena apontou discretamente para uma pequena prancheta colocada junto à poltrona.
— Ele às vezes prefere escrever — explicou.
— Com letras grandes, quando a mão permite.
Marcos ofereceu a prancheta e um lápis grosso.
Augusto demorou quase um minuto para formar três palavras tortas: “Não me perguntam”.
Marcos leu em voz alta, mas não perguntou ao pai se havia escrito corretamente até receber um sinal de confirmação.
A frase fez mais estrago do que uma discussão.
Naquela tarde, Marcos dispensou os convidados que esperavam por ele na varanda e pediu para conversar com Helena na copa.
Deixou Augusto descansando com a porta aberta, conforme o próprio pai pediu.
Regina insistiu em acompanhar a conversa.
— Não — respondeu o filho.
— Primeiro quero ouvir Helena sem ninguém falando por ela.
A jovem segurou as mãos sobre a barriga.
Estava no sexto mês de gestação e sentia o bebê se mexer sempre que ficava nervosa.
Pensou no aluguel do quarto onde morava, nas contas da consulta pré-natal e na possibilidade de voltar para casa sem emprego.
— Não quero causar problema à família — começou.
— O problema já existia — respondeu Marcos.
— Quero entender o que aconteceu.
Helena contou que Augusto tivera um AVC cinco meses antes.
Quando voltara para casa, recebia visitas regulares de uma equipe de cuidados e fazia exercícios indicados pelos profissionais de saúde.
Depois, sem explicação clara, as visitas diminuíram.
— Dona Regina disse que o senhor Augusto não queria mais estranhos circulando pela casa.
Só que ele continuava perguntando quando a moça dos exercícios voltaria.
— E você ficou responsável por tudo?
— Eu continuava fazendo a limpeza e preparando as coisas do quarto.
Quando via que ele precisava de ajuda para comer, eu ajudava.
Não sou enfermeira e nunca fingi ser.
Marcos ouviu sem interromper.
— Você contou isso a alguém?
— Tentei falar com Dona Regina.
Ela disse que eu estava confundindo carinho com intromissão.
Depois falou que, se eu insistisse, teria de procurar outro emprego.
Helena puxou da bolsa um caderno azul de capa amassada.
Não era um prontuário.
Era onde anotava, para não esquecer, as vezes em que Augusto pedira água, não conseguira terminar o almoço ou perguntara pela fisioterapeuta.
Havia datas e pequenos comentários, escritos depois do expediente.
— Comecei porque achei que estava fazendo alguma coisa errada — confessou.
— Queria lembrar o que tinha acontecido, caso alguém perguntasse.
Marcos passou algumas páginas sem tirar o caderno das mãos dela.
Uma anotação o fez parar: “Quarta-feira: pediu para telefonar ao filho; disseram que Marcos estava ocupado”.
— Eu não recebi nenhuma ligação naquela quarta-feira — murmurou.
Helena não respondeu.
Não tinha como saber o que se passava entre mãe e filho.
Antes que Marcos pudesse perguntar mais, alguém bateu à porta.
Era Júlio, o administrador da casa, com a pasta das despesas mensais.
Tinha ouvido que Marcos queria os documentos referentes aos cuidados do pai.
— Separei os pagamentos da equipe domiciliar, senhor.
Estão todos aqui, inclusive os recibos da última semana.
Marcos abriu a pasta.
Havia uma cobrança por uma visita de enfermagem realizada na manhã anterior.
Helena olhou a data e perdeu a cor.
— Ontem não veio ninguém — disse, quase num sussurro.
— Eu fiquei com seu pai a manhã inteira.
Marcos tornou a olhar para a folha.
No campo reservado à confirmação da visita, havia um nome e uma assinatura digital.
Júlio explicou que as notas eram aprovadas automaticamente depois da confirmação enviada por quem coordenava a casa.
Até então, ninguém conferia a presença física de cada profissional.
Marcos percebeu que a própria maneira como a família se organizara havia permitido aquele vazio.
Ele não sabia ainda se houvera um erro, uma cobrança indevida ou uma mentira deliberada.
Sabia apenas que a palavra de seu pai precisava fazer parte da verificação.
Quem havia registrado um cuidado que Augusto não recebera?
Para descobrir o que realmente aconteceu naquela manhã, acompanhe a Parte 3.












