Luca segurou a folha com sua rubrica por tanto tempo que Helena precisou pedir que ele a colocasse sobre a mesa para fotografar o documento.
Eu esperava vê-lo irritado com Marco, como acontecia com homens acostumados a serem obedecidos.
Em vez disso, ele perguntou quando recebera aquele aviso.
— Há vinte e três dias — Marco respondeu. — Entreguei pessoalmente à sua assistente e recebi a cópia com a anotação dois dias depois.
— Eu li apenas o resumo que Vanessa preparou — Luca admitiu. — Achei que fosse uma divergência comercial já resolvida.
— Não estava resolvida — Marco disse. — Eu estava pedindo que alguém verificasse o conflito de interesses.
A expressão conflito de interesses não tinha a dramaticidade da acusação feita durante o jantar.
Mas, naquela manhã, entendi que podia explicar melhor o problema: alguém com acesso à confiança de Luca tentava favorecer a própria família e afastar quem questionava o preço.
Isso não exigia adivinhar sentimentos.
Exigia olhar para decisões, mensagens e documentos.
Luca pediu a Helena que orientasse uma suspensão temporária de qualquer negociação com o primo de Vanessa, Rafael Bellini.
A decisão seria comunicada por escrito aos responsáveis pelas compras dos restaurantes.
Também determinou que futuras reclamações sobre fornecedores fossem enviadas diretamente a um canal administrado fora da equipe subordinada a Vanessa.
— Isso deveria existir antes de ontem — Marco observou.
— Deveria — Luca reconheceu.
Fiquei surpresa com a ausência de discussão.
Não significava que a confiança estivesse restaurada.
Apenas que Marco finalmente podia dizer uma coisa desagradável sem receber outra ameaça em troca.
Helena pediu depoimentos separados.
Contei o que ouvi em italiano, repetindo as palavras de Vanessa sem acrescentar frases de que não tinha certeza.
Rita descreveu as ligações e explicou que ninguém anotara a alteração na lista de convidados antes de o buffet ser avisado.
Marco apresentou as propostas de fornecimento usadas pelos restaurantes nos últimos seis meses.
A empresa de Rafael oferecia produtos semelhantes aos do fornecedor antigo, mas cobrava, em média, quarenta por cento a mais.
Não havia demonstração de melhora na qualidade, no transporte ou no prazo de entrega.
O orçamento estava acompanhado de uma mensagem de Vanessa: “Depois que Marco sair, podemos começar sem resistência”.
— Isso mostra a intenção dela — Helena disse. — Ainda precisamos saber se houve contrato firmado ou pagamento indevido.
Ninguém fingiu que a mensagem resolvia todas as perguntas.
Talvez por isso a sala me parecesse menos ameaçadora do que a mesa do jantar.
Eu começava a distinguir o medo de falar do trabalho necessário para provar o que fora dito.
Antes de encerrarmos a reunião da manhã, pedi que os funcionários tivessem acesso ao resultado da apuração sobre o próprio trabalho.
Marco precisava de uma resposta por escrito, não apenas da satisfação de ver Vanessa contrariada.
Rita queria a garantia de que suas próximas confirmações de evento não seriam tratadas como desobediência.
Helena anotou os dois pedidos.
— Quem prestar esclarecimentos não deve depender da boa vontade de quem foi questionado — afirmou.
Eu não sabia se todas aquelas medidas funcionariam na prática.
Sabia, porém, que precisavam existir para quem viesse depois de nós.
Pensava em quantas cozinheiras, motoristas e auxiliares tinham visto alterações estranhas e preferido não perguntar, por receio de perder o salário.
Ao meio-dia, meu celular vibrou com uma mensagem de dona Celeste.
Alguém havia publicado um vídeo de poucos segundos mostrando Luca me oferecendo a cadeira enquanto Vanessa permanecia de pé.
A legenda dizia que uma empregada tinha armado um escândalo para se aproximar do patrão.
Não havia uma única imagem da discussão sobre os contratos.
Abri os comentários por impulso.
Pessoas que não conheciam meu nome me chamavam de oportunista.
Outras faziam piadas com meu uniforme.
Fiquei olhando para a tela até que Rita percebeu minha respiração curta e me convidou a sair da sala por alguns minutos.
— Foi Vanessa? — perguntei.
— Não sabemos — Rita respondeu. — Não precisamos adivinhar para pedir que parem de espalhar isso.
Mostrei o vídeo a Helena, que orientou guardar o link, a data e as capturas das publicações.
Ela explicou que eu poderia pedir orientação jurídica independente e que a empresa precisava apurar se alguém usara imagens internas para me expor.
Pedi que não mencionassem minha família em nenhuma nota pública.
Naquela tarde voltei ao Bixiga.
Minha mãe havia guardado as últimas mesas da cantina quando encerrou o negócio, três anos antes.
Uma delas permanecia na cozinha do apartamento onde morávamos.
Sentei ali com meu pai enquanto ele fazia os exercícios de mobilidade recomendados pela fisioterapeuta.
— Você pode perder o emprego? — ele perguntou.
— Posso — respondi. — Mas, se disser que não ouvi nada, vou perder uma coisa que não consigo recuperar com salário.
Ele me olhou sem oferecer uma frase bonita para encerrar o assunto.
Apenas perguntou se o financiamento estava em dia.
Fizemos as contas juntos.
Conseguíamos pagar o mês seguinte, mas não muitos meses sem meu rendimento.
Foi uma conversa mais útil do que qualquer promessa de que tudo terminaria bem.
À noite, Luca telefonou para perguntar sobre o vídeo.
Disse que não pretendia publicar uma defesa usando meu nome sem meu consentimento.
Eu agradeci, mas não queria que uma fotografia minha se tornasse a solução publicitária de uma crise criada por outras pessoas.
— Quero que o senhor diga a verdade sobre o que aconteceu na sua empresa — respondi. — O resto não é uma história para vender a ninguém.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você tem razão.
No dia seguinte, Helena descobriu outro documento arquivado no setor administrativo: uma autorização de representação assinada por Luca, permitindo que Vanessa negociasse determinadas condições comerciais em seu nome, embora exigisse aprovação final para contratos novos.
O texto não lhe dava direito de dispensar Marco nem de falsificar informações, mas explicava por que os funcionários acreditavam que contrariá-la seria contrariar o próprio dono.
Luca leu a autorização diante de nós e percebeu que não bastava afastar Vanessa de uma sala de reuniões.
Precisava revogar formalmente poderes que ele mesmo havia entregado.
Antes de fazê-lo, porém, Helena recebeu a confirmação de que uma proposta do primo de Vanessa já tinha avançado além da simples cotação.
Que compromisso havia sido criado em nome de Luca sem que Marco soubesse?
A resposta começa na Parte 5.













