— E não vai usar o meu nome para destruir alguém que trabalhou honestamente nesta casa — Luca completou.
Eu me sentei apenas na beirada da cadeira.
Não porque aquela mesa me assustasse mais do que as outras, mas porque ninguém parecia saber o que fazer com uma empregada sentada entre convidados de roupas caras.
Vanessa foi a primeira a reagir.
— Você vai acreditar nela? — perguntou, indicando meu avental com um movimento de cabeça. — Nem sabe quem é essa mulher fora daqui.
— Sei o que ela acabou de dizer diante de trinta e duas pessoas — Luca respondeu. — E sei que você ainda não mostrou um documento.
Uma senhora pousou discretamente o garfo.
Um dos sócios de Luca fingiu procurar uma mensagem no celular.
Eu desejava que todos voltassem a comer, mas entendi que aquele silêncio não era mais meu para interromper.
Marco abriu a pasta que trazia debaixo do braço.
Retirou uma cópia do contrato do buffet, assinado duas semanas antes, com a quantidade de trinta e dois convidados.
Havia uma tabela de custos e uma observação sobre alterações de última hora.
— O valor inicial era de trinta mil setecentos e vinte reais — explicou. — Novecentos e sessenta por pessoa.
Se cinquenta refeições foram preparadas, a fatura total chega a quarenta e oito mil.
Mas quarenta e oito mil não é o prejuízo causado pelas dezoito refeições extras.
Luca acompanhou os números com o dedo.
— A diferença seria de dezessete mil duzentos e oitenta — concluiu.
— Exatamente — Marco disse. — Não é pouco dinheiro, mas a acusação foi apresentada de outra maneira.
Vanessa cruzou os braços.
— É absurdo discutirmos matemática enquanto os convidados estão esperando a sobremesa.
— A sobremesa pode esperar — Luca respondeu.
Ele olhou ao redor e percebeu, talvez tarde demais, o constrangimento que havia criado.
Pediu desculpas aos presentes e esclareceu que ninguém seria impedido de ir embora.
A frase anterior, dita no calor da discussão, não lhe dava direito de manter pessoas naquela sala.
Alguns convidados se levantaram imediatamente; outros permaneceram, interessados demais para fingir indiferença.
Na cozinha, o telefone de serviço tocou duas vezes.
A cozinheira, dona Celeste, apareceu à porta e perguntou se podia recolher os pratos.
Luca assentiu e pediu que os funcionários terminassem o expediente normalmente.
Olhou para mim em seguida.
— Se preferir, pode conversar com a advogada da empresa amanhã, durante o seu horário, sem Vanessa presente.
— Prefiro responder agora ao que eu sei — falei. — Mas não quero que inventem o resto por mim.
Pela primeira vez naquela noite, vi uma expressão diferente no rosto de Marco.
Não era gratidão exuberante.
Era o alívio discreto de alguém que compreendia a diferença entre ser defendido e ser usado como exemplo.
Uma assistente chamada Rita, responsável pela organização do jantar, aproximou-se com o celular.
Ela mostrou a Luca a mensagem original de confirmação, enviada às onze da manhã: trinta e dois nomes e nenhuma reserva pendente.
Às dezesseis e doze, recebera a ordem verbal de Vanessa para aumentar a contagem para quarenta e oito.
Às dezesseis e trinta e dois, uma segunda ligação elevaria o número para cinquenta.
— Pedi que a mudança viesse por escrito — Rita explicou. — Disseram que não havia tempo.
— Quem disse? — Luca perguntou.
Rita hesitou antes de responder.
— Dona Vanessa.
Vanessa se voltou contra ela.
— Agora toda funcionária resolveu repetir a versão dessa menina?
Eu senti o impulso de me levantar.
Fiquei sentada, porque não havia motivo para eu me encolher outra vez.
Rita mostrou o registro das chamadas, mas deixou claro que aquilo provava os horários, não o conteúdo das conversas.
O cuidado com que ela distinguia uma coisa da outra me pareceu mais convincente do que qualquer discurso.
Luca recolheu os documentos numa pasta vazia.
Disse que a conferência seria feita por uma profissional de fora, com acesso aos pedidos, à cobrança do buffet e às propostas de fornecedores.
Não anunciaria uma demissão naquela noite nem decidiria quem tinha razão apenas porque alguém havia falado mais alto.
Quando os últimos convidados saíram, fui buscar meu casaco no vestiário.
Minhas mãos tremiam tanto que deixei cair as chaves do armário.
Pensei no financiamento do apartamento pequeno onde morava com meus pais, na conta da fisioterapia do meu pai e nos onze meses em que eu havia evitado qualquer conflito naquela casa.
Dona Celeste entrou atrás de mim.
— Você fez uma coisa difícil, menina.
— Não sei se fiz uma coisa inteligente.
Ela se abaixou para pegar as chaves antes de mim.
— Nem sempre as duas coisas chegam juntas.
No corredor, encontrei Luca esperando com Marco.
Ele me perguntou se alguém da equipe havia me orientado a prestar um depoimento diferente do que eu ouvira.
Neguei.
Pedi também que a análise não expusesse os funcionários a retaliações.
Luca disse que registraria esse pedido, mas eu ainda não sabia o que valiam suas promessas fora daquela sala.
Marco me contou, em voz baixa, que já havia preparado uma carta de demissão.
Não queria deixar os colegas sem explicação, mas temia que uma acusação pública chegasse aos outros restaurantes antes que ele conseguisse se defender.
Perguntei por que não procurara Luca diretamente depois das ameaças.
Ele apontou para a sala onde tínhamos jantado.
— Eu procurei. A resposta sempre vinha por Vanessa.
Rita, que ainda organizava os papéis, confirmou que as mensagens importantes passavam pela noiva antes de alcançar o proprietário.
Lembrei de quantas vezes dona Celeste pedira autorização para uma compra simples e recebera ordens diferentes no mesmo dia.
A confusão não começara com aquele buffet; apenas ficara impossível escondê-la.
Pedi a Marco que não rasgasse a carta de demissão, caso já estivesse pronta.
Poderia precisar dela para contar o que acontecera, mesmo que decidisse ficar.
Vanessa apareceu no topo da escada.
A maquiagem permanecia impecável, embora seu rosto estivesse rígido.
Trazia um envelope branco entre os dedos.
— Antes de ouvir essa funcionária mais uma vez, Luca, talvez você devesse perguntar quanto ela cobrou para contar essa história.
Ela desceu dois degraus e entregou o envelope a Marco, como se não suportasse tocar minha mão.
Meu nome completo estava impresso na frente.
Dentro havia um suposto comprovante de adiantamento salarial, com minha assinatura e uma quantia que eu jamais recebera.
Reconheci o formato da assinatura.
Aquela era, de fato, a curva das letras do meu nome.
Mas eu nunca havia visto aquela folha.
O que Vanessa pretendia provar com um documento que parecia ter sido assinado por mim?
Para entender como meu nome foi parar naquele envelope, continue na Parte 3.













