Meu cachorro estava dormindo no chão da oficina quando um homem que eu nunca tinha visto entrou pela porta. Trovão levantou tão rápido que, por um segundo, achei que algum barulho na rua tivesse assustado ele.
Mas não.
Ele foi direto para o desconhecido.
Meu nome é Rafael Almeida, tenho 36 anos e trabalho como mecânico em Belo Horizonte. Trovão passa quase todos os dias comigo na oficina. Ele está acostumado com cliente entrando, entregador chegando, ferramenta caindo e motor roncando a poucos metros dele. Normalmente, nem levanta a cabeça.
Naquela tarde, levantou.
O homem usava uma jaqueta de couro marrom já bem gasta. Assim que ele entrou, Trovão correu até ele e puxou de leve a manga da jaqueta.
— Trovão!
O homem recuou.
— Nunca estive aqui.
Eu segurei Trovão pelo colar e puxei para perto.
— Estranho. Ele nunca chega assim nos clientes.
— Talvez tenha sentido algum cheiro — respondeu o homem. — Vim só perguntar do meu carro.
Ele se chamava Eduardo Nogueira.
Eu estava prestes a levar Trovão para o fundo da oficina quando Eduardo tentou passar por nós.
Foi aí que aconteceu.
Sem dizer nada, ele baixou a mão ao lado da perna e apontou dois dedos para o chão.
Trovão parou imediatamente.
Não latiu.
Não puxou.
Apenas ficou olhando para aquela mão.
Meu estômago apertou.
Eu conhecia aquele gesto.
Eduardo percebeu que eu estava encarando e recolheu a mão.
— Faz esse sinal de novo — eu disse.
— Que sinal?
— O que você acabou de fazer.
Por alguns segundos, nenhum de nós se mexeu. Só dava para ouvir uma chave pneumática trabalhando no outro lado da oficina.
Então Eduardo repetiu o gesto.
Dois dedos para baixo, ao lado da coxa.
Trovão deitou no mesmo instante.
Depois avançou alguns centímetros e colocou o queixo sobre o sapato de Eduardo.
Exatamente como tinha sido ensinado.
Eduardo ficou imóvel.
Eu também.
Porque aquele não era um comando qualquer.
Anos atrás, eu tinha visto uma única pessoa usar aquele sinal daquela maneira com Trovão.
Meu irmão.
Olhei para Eduardo.
— Quem te ensinou o sinal que meu irmão usava com ele?
A mão dele desceu lentamente.
E a expressão no rosto dele mudou.
Do lado de fora, um ônibus passou espirrando água de uma poça deixada pela chuva da manhã. Eu ouvi meu funcionário, Davi, perguntar se precisava buscar alguma peça. Fiz que não com a cabeça. Não conseguiria explicar a ele por que um simples movimento de dedos tinha tirado o chão debaixo dos meus pés.
Meu irmão se chamava Tiago. Era seis anos mais velho e tinha sido ele quem me ensinara a distinguir o barulho de uma correia frouxa do de um rolamento prestes a quebrar. Quando éramos meninos, eu o seguia pelo quintal da casa da nossa mãe carregando chaves maiores do que minhas mãos. Ele reclamava, mas sempre acabava me deixando ajudar.
Também tinha sido Tiago quem encontrou Trovão, ainda filhote, perto de um posto na saída para Contagem. O cachorro estava magro, com uma pata machucada e uma coragem desproporcional ao tamanho. Tiago cuidou dele, ensinou comandos comuns e inventou aquele gesto silencioso para os momentos em que o barulho dos motores impedia qualquer palavra de ser ouvida.
O gesto nunca apareceu em curso de adestramento. Pelo menos, não daquele jeito, com o queixo apoiado sobre um sapato. Era uma brincadeira dos dois que virou hábito. Eu até tentara repetir algumas vezes, depois que Tiago sumiu. Trovão me obedecia, mas demorava; às vezes só me olhava, como quem esperava outra pessoa terminar a ordem.
Cinco anos e meio haviam passado desde o desaparecimento do meu irmão. Na época, disseram que ele fugira depois de assinar uma revisão de freios que terminou em acidente. Outros garantiram que tinha levado dinheiro da transportadora. Eu nunca vi prova do roubo, mas também nunca recebi um telefonema dele. A ausência foi se transformando numa espécie de resposta que eu não queria aceitar.
Eduardo olhou para a porta, depois para o cachorro. Seus olhos estavam úmidos, embora a voz saísse seca.
— Eu não vim falar de carro — ele admitiu.
Senti raiva antes mesmo de entender.
— Então veio fazer o quê? Me dizer que viu meu irmão em algum lugar? Tem muita gente que apareceu com história assim quando ele desapareceu.
Eduardo não tentou me acalmar. Tirou devagar a jaqueta, como se o calor da oficina o incomodasse, e mostrou uma pequena cicatriz no pulso esquerdo.
— Seu irmão me ensinou esse sinal numa noite em que o Trovão precisava ficar quieto. Eu devia ter procurado você naquela época.
— Naquela época quando?
Ele engoliu em seco.
— Na última noite em que eu vi o Tiago.
Não perguntei por que ele tinha demorado tanto. Ainda não. O nome do meu irmão, dito por alguém que conhecia o modo exato de fazer Trovão se deitar, já era mais do que eu conseguia suportar.
Peguei uma cadeira da sala de espera e a coloquei entre nós. Eduardo não se sentou. Trovão permaneceu encostado no seu sapato, respirando com uma calma que fazia contraste com a minha.
— Você vai começar pelo seu nome verdadeiro — falei. — E depois vai me contar tudo o que sabe.
Eduardo tirou do bolso uma fotografia dobrada em quatro. Antes de abri-la, olhou outra vez para Trovão.
— Eu trouxe isso porque cansei de repetir uma mentira — disse. — Só não sei se você vai me perdoar quando ouvir a parte que eu tive nela.













