Abri a mochila da minha filha e encontrei duas passagens só de ida. A terceira não existia.
Uma estava no nome de Gustavo, meu marido. A outra, no de Nina, nossa filha de nove anos. Campinas para Curitiba. Sexta-feira, seis e quarenta da manhã.
Era quinta-feira, quase oito da noite. Nina havia deixado a mochila na mesa da cozinha e ido tomar banho. Eu só procurava a agenda da escola para conferir um recado da professora. Encontrei as passagens dobradas dentro de um envelope de papel pardo, ao lado do estojo.
Conferi as datas três vezes. Não havia viagem de volta. Também não havia passagem no meu nome.
— Mãe, você achou minha agenda? — Nina perguntou da porta, com os cabelos ainda molhados.
Segurei o envelope junto ao corpo.
— Achei outra coisa. Seu pai falou de alguma viagem?
Ela ficou olhando para as minhas mãos. Então baixou a cabeça.
— Ele disse que era surpresa.
— Que surpresa, filha?
— Que a gente vai morar perto do vovô Augusto. Mas eu não queria ir sem você.
Senti o chão da cozinha distante dos meus pés. Na semana anterior, Gustavo dissera que o pai, de sessenta e nove anos, havia sofrido uma queda em casa. Augusto morava sozinho em Curitiba desde que ficara viúvo. Era natural que o filho estivesse preocupado. Eu mesma sugerira que ele fosse visitá-lo naquele fim de semana.
Gustavo respondeu que ainda precisava organizar as coisas. Não mencionou Nina. Muito menos uma mudança.
— Seu pai disse quando vocês voltariam? — perguntei.
Nina balançou a cabeça.
— Ele falou que eu ia gostar da escola nova. Só pediu para eu não contar ainda, porque você ficaria triste.
Quis abraçá-la imediatamente, mas tive medo de mostrar em meu rosto o tamanho daquilo que eu acabara de ouvir. Nina havia passado a tarde escolhendo quais livros caberiam na mochila. Agora eu entendia por quê.
— Você não fez nada errado — falei. — Adultos não deveriam pedir esse tipo de segredo a uma criança.
Ela encostou a testa no meu ombro.
— Eu achei que você sabia.
Ouvi o portão eletrônico abrir. Gustavo chegara.
Deixei Nina na sala com seus lápis e fui até a cozinha, levando as passagens. Gustavo entrou com uma sacola de pão e me deu um beijo rápido no rosto. Só percebeu o envelope quando o coloquei sobre a mesa.
— O que é isso? — perguntou, embora reconhecesse imediatamente o papel.
— Duas passagens para Curitiba. Só de ida. Uma sua, outra da Nina.
Ele deixou a sacola devagar.
— Eu ia te contar hoje.
— Hoje à noite? O ônibus sai amanhã antes das sete.
— Meu pai precisa de mim, Juliana. Você sabe que ele caiu.
— Eu sei. Também sei que foi você quem me pediu para esperar antes de marcar uma visita. Por que nossa filha está indo? E por que ela acha que vai morar lá?
Gustavo puxou uma cadeira, mas não se sentou.
— Nina ouviu uma conversa pela metade.
— Foi você quem disse a ela que teria uma escola nova?
Ele desviou os olhos para a porta. Na sala, Nina desenhava em silêncio. Baixei a voz para que ela não tivesse de ouvir outra discussão.
— Não vou fazer nossa filha escolher entre nós — continuei. — Mas também não vou fingir que essas passagens são uma visita de fim de semana.
Gustavo apoiou as duas mãos na mesa.
— Eu achei que, se você soubesse antes, diria não.
— A quê? A ajudar seu pai? Eu mesma sugeri que você viajasse.
— A sair de Campinas. Você tem sua mãe aqui, sua vida inteira aqui. Eu precisava encontrar uma solução.
— Uma solução que exclui a mãe da Nina?
Ele não respondeu. Era a primeira vez em onze anos juntos que eu via meu marido tentar defender uma decisão tão grande sem conseguir dizer em voz alta o que tinha decidido.
Pensei na nossa rotina: Nina correndo até a padaria aos sábados comigo, o caminho conhecido até a escola, minha mãe Célia esperando a neta para o almoço de domingo. Nada disso tornava Curitiba um lugar ruim. Tornava cruel a ideia de retirar nossa filha daquela vida sem uma conversa sequer.
Voltei à sala. Nina estava sentada no tapete, com um desenho sobre os joelhos: três bonecos de mãos dadas diante de uma casa amarela. Reconheci eu e ela. O terceiro era Gustavo.
— É a nossa casa nova? — perguntei.
— É como o papai mostrou. Só que desenhei você também, mesmo ele dizendo que você ficaria aqui no começo.
Sentei ao lado dela.
— Nina, não tem nada decidido sobre você mudar de cidade. Eu e seu pai vamos conversar. E você não precisa guardar segredo nenhum de mim.
Ela respirou mais aliviada. Depois abriu o zíper menor da mochila.
— Então posso te mostrar o papel da escola?
Tirou uma folha impressa com o nome de uma escola particular de Curitiba. Havia um horário de visita para a família, uma lista de documentos necessários e, no canto superior, a data em que Gustavo tinha solicitado o agendamento.
Era de seis semanas antes.
Peguei a folha e me levantei. Gustavo continuava parado na entrada da cozinha. Mostrei a data a ele.
— Seu pai caiu na semana passada — eu disse. — Por que você estava procurando escola para a Nina um mês antes disso?
Gustavo olhou para o papel e, pela primeira vez naquela noite, não tentou dizer que eu havia entendido errado.
A queda do pai podia ser verdadeira. Mas a viagem que ele me apresentara como emergência já estava sendo preparada muito antes da queda.













