O primeiro a se mover foi o homem da funerária.
Ele deu um passo na direção de Ricardo, mas parou quando viu a expressão do empresário.
«Senhor Almeida, precisamos respeitar os procedimentos», disse, quase sem voz.
«Então chame a polícia e uma equipe médica», respondeu Ricardo. «Mas ninguém vai baixar esse caixão à terra.»
Um dos seguranças soltou o menino.
O outro, constrangido, ajudou-o a sair da lama.
Ricardo nem percebeu que continuava com os punhos cerrados.
«Qual é o seu nome?», perguntou ao garoto.
«Tiago. Tiago Santos.»
«Como você sabe alguma coisa sobre minha filha?»
«Minha mãe trabalha no hospital onde ela ficou. Eu vi uma coisa que não devia.»
Ricardo procurou o rosto de Vanessa entre os guarda-chuvas.
Ela já caminhava em direção ao portão lateral, acompanhada pelo motorista da família.
«Vanessa, fique», chamou ele.
«Ricardo, você está sofrendo», respondeu ela, sem se virar. «Esse menino está se aproveitando da sua dor.»
«Se ele estiver mentindo, isso será esclarecido. Se estiver dizendo a verdade, cada minuto importa.»
O tom de Ricardo não deixou espaço para discussão.
Vanessa voltou, mas manteve distância do caixão.
O padre pediu aos convidados que se afastassem.
Um funcionário da funerária trouxe as ferramentas usadas para remover o fechamento da tampa.
Ricardo ouviu o primeiro estalo da madeira como se fosse o som de alguma coisa se partindo dentro dele.
Pensara que jamais desejaria ver aquele caixão aberto.
Agora temia ainda mais a possibilidade de continuar fechado.
Quando a tampa se ergueu, ninguém compreendeu de imediato o que estava vendo.
Havia um cobertor infantil, um vestido claro e uma pequena almofada acomodada de maneira a criar volume sob o tecido.
Não havia uma criança.
Ricardo segurou a borda do caixão para não cair.
«Onde está a minha filha?»
Sua voz saiu baixa, quase irreconhecível.
O agente funerário recuou, levando a mão à boca.
Gilberto, o encarregado da cerimônia, tentou explicar que recebera o caixão lacrado de uma empresa de transporte contratada pela família.
«Quem contratou?», Ricardo perguntou.
O homem folheou nervosamente uma pasta protegida da chuva.
«A documentação veio do escritório da senhora Vanessa. Disseram que a família não queria reconhecimento do corpo.»
«Eu nunca autorizei isso», disse Ricardo.
Vanessa abriu a boca, fechou-a e olhou ao redor.
«Eu só tentei poupar você de mais sofrimento. Foi o hospital que entregou tudo assim.»
Tiago apontou para o cobertor.
«Esse não é o cobertor dela. A menina tinha um azul, com uma estrela costurada.»
«Você esteve no quarto dela?», perguntou Ricardo.
«Fui buscar minha mãe depois do turno. Vi quando passaram com a maca pela porta de serviço.»
Ricardo sentiu que o chão se inclinava.
O menino conhecia um detalhe que nenhum dos convidados havia mencionado.
Ainda assim, detalhes não bastavam.
Ele precisava de fatos verificáveis, e precisava deles depressa.
Uma convidada já havia chamado a polícia.
Ricardo ligou para o serviço de emergência e explicou, com frases interrompidas, que uma criança dada como morta poderia estar viva e desaparecida.
O atendente pediu informações do hospital e comunicou o caso às equipes competentes.
Pouco depois, uma viatura chegou ao cemitério.
A delegada Helena Nascimento, acionada diante da gravidade da denúncia, assumiu o registro inicial e determinou que ninguém mexesse mais no caixão nem nos documentos.
«O senhor precisa entender uma coisa», disse a Ricardo. «O que encontramos aqui indica uma fraude grave. Não prova, por si só, onde sua filha está ou em que condição. Vamos trabalhar com o que conseguirmos confirmar.»
«Faça o que for necessário», ele respondeu. «Só não perca tempo me protegendo da verdade.»
Helena pediu os nomes de todos os responsáveis pela retirada do corpo e pelo transporte funerário.
Também solicitou a preservação das imagens das câmeras do hospital e das vias de acesso.
Vanessa tentou se afastar outra vez.
«Tenho direito de falar com meu advogado.»
«Tem», respondeu Helena. «E também podemos pedir formalmente seu depoimento. Por enquanto, não toque em nenhum registro da sua casa ou do seu escritório.»
A mulher sustentou o olhar por dois segundos e depois desviou os olhos.
Ricardo não sabia mais se a reconhecia.
Tiago tremia tanto que seus dentes batiam.
Um policial ofereceu-lhe uma manta térmica, enquanto outra agente procurava contato com a mãe dele.
O menino segurou o tecido sem tirar os olhos de Ricardo.
«Ela mandou eu ficar em casa», disse de repente. «Minha mãe falou que tinha visto a Emília respirar, mesmo depois de colocarem no prontuário que ela tinha morrido.»
Ricardo se abaixou, ficando à altura dele.
«Onde sua mãe está agora?»
«Eu não sei. Ela me ligou ontem à noite. Disse que ia denunciar o que fizeram. Depois ouvi um homem dizendo para ela entregar o telefone. A ligação caiu.»
«Por que você não procurou a polícia?»
«Eu tentei ligar. Fiquei com medo de não saber explicar. Quando ouvi no rádio do mercado que o enterro seria hoje, vim correndo.»
Ricardo baixou a cabeça por um momento.
Aquele garoto enfrentara o que adultos ao redor dele não tinham enfrentado.
«Você fez certo em contar», disse, escolhendo as palavras. «Agora os adultos vão assumir. Você não precisa procurar mais ninguém sozinho.»
Helena se aproximou para ouvir a última parte.
Perguntou o nome da mãe de Tiago, o setor em que trabalhava e o número do telefone que usara.
«Marlene Santos. Técnica de enfermagem», respondeu ele. «Ela disse uma coisa estranha antes de desligar.»
«O quê?»
«Disse: se perguntarem pela menina, procurem a transferência das duas e dez. Não o atestado.»
Helena repetiu a informação para um investigador e pediu que verificassem os registros de ambulâncias e as autorizações de saída naquele horário.
O rádio do policial chiou com uma resposta de outra equipe, já no hospital.
A declaração de óbito apresentada à funerária tinha o número de registro de um médico que negava tê-la assinado.
E, no sistema de transportes, havia uma saída às duas e dez da madrugada, registrada em nome de uma clínica particular de Cotia.
O nome do paciente fora apagado do campo principal.
Mas uma anotação de enfermagem, ainda preservada no histórico, continha duas palavras.
Emília Almeida.
Ricardo ergueu os olhos para Helena.
Pela primeira vez desde o funeral, tinha uma direção concreta.
Só não sabia se chegariam antes de quem havia levado a menina.
Para descobrir quem autorizou a transferência de Emília e por que a testemunha desapareceu, continue na Parte 3.













