Conrado telefonou dezessete vezes naquela manhã.
Vitória não atendeu nenhuma delas.
Em vez disso, acompanhada pela advogada Marina, pediu que suas contas e documentos deixassem de ser administrados pelo marido e solicitou orientação para preservar os registros digitais sem apagá-los.
Era estranho descobrir quanto da própria vida entregara a outra pessoa por acreditar que aquilo era confiança.
Conrado conhecia senhas antigas, tinha acesso ao endereço de correspondência e recebera autorização para resolver assuntos dos imóveis da família.
Marina explicou que revogar permissões não faria as irregularidades desaparecerem.
Mas impediria que novas decisões fossem tomadas sem que Vitória soubesse.
— E se ele tiver usado minha assinatura para prejudicar Elena? — perguntou Vitória.
— Vamos investigar o que você efetivamente assinou e o que foi feito além dessa autorização, respondeu Marina. Não invente culpa antes de conhecer os documentos.
Naquela tarde, Elena reencontrou Lucas numa sala preparada pela equipe que acompanhava o menino.
Ele entrou devagar, como se tivesse medo de que a mãe desaparecesse ao menor movimento.
— Você voltou de verdade? — perguntou.
Elena se ajoelhou.
— Voltei. Sinto muito por ter deixado você esperando.
Lucas deu dois passos e se atirou nos braços dela.
Os adultos ficaram em silêncio enquanto ele contava que havia desenhado uma casa com um lugar para outra pessoa.
— Eu sei quem é, mamãe. É a tia Vitória.
Elena beijou os cabelos do filho.
Vitória desviou o rosto por um instante.
Não queria que Lucas confundisse suas lágrimas com o medo de que algo ruim fosse acontecer de novo.
O reencontro não resolveu a situação jurídica e social da família.
Elena ainda precisava regularizar documentos pessoais, comprovar sua identidade em diferentes registros e trabalhar com a equipe de proteção para garantir uma moradia segura para ela e o filho.
Vitória ofereceu ajuda, mas não decidiu nada em seu lugar.
— Você pode ficar comigo pelo tempo que quiser, disse.
— Talvez, um dia. Agora preciso aprender a escolher onde estou sem ouvir o motor de um carro e pensar em fugir, respondeu Elena.
Enquanto as irmãs conversavam, Renata recebia os primeiros resultados da análise documental.
A presilha danificada guardada como vestígio do acidente não tinha a mesma composição das duas peças originais.
No lugar da safira, havia um vidro azul de aparência semelhante; as pequenas pedras eram imitações.
A conclusão não identificava quem colocara o objeto no carro.
Mas mostrava que a peça reconhecida por Conrado não era uma das joias feitas para as gêmeas.
Uma fotografia da encomenda original, guardada pela família, ajudou a comparação.
O joalheiro que fabricara as presilhas confirmou o desenho, o fecho e uma marca interna que inserira nas duas peças.
A presilha de Elena e a de Vitória tinham a marca.
A peça dos destroços, não.
Vitória releu o laudo duas vezes.
Sete anos antes, aceitara uma identificação errada porque a fizera o homem com quem dormia todas as noites.
— Isso quer dizer que ele sabia que Elena estava viva? — perguntou.
— Não podemos afirmar só com esse resultado, respondeu Renata. Podemos afirmar que a identificação feita por ele era falsa em relação à origem da peça.
A polícia também identificou Raul nas imagens recentes.
O antigo motorista, localizado por meio de endereços e registros atuais, compareceu para prestar esclarecimentos acompanhado de advogado.
Inicialmente negou qualquer ameaça, mas não conseguiu explicar por que aparecia perto dos abrigos onde Elena e Lucas haviam vivido.
As mensagens preservadas pela rede de acolhimento foram examinadas.
Nelas, um homem cobrava a entrega de uma pasta antiga e mencionava o risco de uma criança perder a mãe.
Outros dados ainda precisariam relacionar a voz e os aparelhos a pessoas específicas.
Raul admitiu então que seguira Elena na noite do acidente por ordem de Conrado.
Afirmou que deveria impedir que ela entregasse documentos a terceiros e recuperá-los, não provocar a morte dela.
— Eu vi o carro cair, disse. Achei que ela tinha morrido. Depois ele mandou parar de procurar o corpo por conta própria.
Renata registrou a declaração sem tomá-la como verdade definitiva.
Raul tinha motivos para diminuir a própria responsabilidade e sua versão precisaria ser confrontada com os vestígios e com os registros de chamadas daquela noite.
Quando perguntaram sobre a presilha falsa, ele hesitou.
Disse que Conrado já tinha uma peça parecida guardada havia algum tempo, mas não sabia quando fora colocada no veículo.
Vitória ouviu o resumo do depoimento e sentiu a raiva tomar o lugar da incredulidade.
Conrado sabia da joia original, sabia que Elena desconfiava dos documentos e escolhera reconhecer uma imitação como prova da morte dela.
À noite, Marina recebeu uma mensagem no endereço profissional do escritório, enviado pelo representante de Conrado.
O advogado dizia que o cliente queria resolver tudo em particular, longe das autoridades.
«O senhor Conrado solicita uma conversa amigável, sem presença policial, para esclarecer mal-entendidos familiares.»
Vitória encaminhou o texto à advogada.
A resposta foi curta: qualquer comunicação deveria ocorrer pelos canais formais.
Conrado apareceu no dia seguinte numa audiência previamente agendada sobre o acesso aos documentos patrimoniais.
Não era um julgamento criminal e ninguém ali poderia decidir, naquela manhã, tudo o que acontecera no rio.
Ele estava impecavelmente vestido.
Quando viu Vitória, tentou sorrir como fazia depois das discussões domésticas.
— Você está acabando com nosso casamento por causa de uma história que nem sabe se é verdade.
Ela não se aproximou.
— Não é a história que está acabando com ele, Conrado. São as coisas que você escondeu de mim.
— Eu só tentei proteger você dos problemas da sua irmã.
— Foi você quem me disse que aquela presilha era dela.
Conrado olhou para a porta antes de responder.
— Eu reconheci o que me mostraram.
— O laudo diz que não era a peça original.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
Por um segundo, Vitória enxergou não um homem poderoso, mas alguém calculando quanto ela já sabia.
A advogada encerrou a conversa antes que ele tentasse conduzi-la para um corredor vazio.
Do lado de fora, Vitória respirou fundo e percebeu que já não precisava de uma confissão dele para confiar na própria memória.
Na mesma tarde, Marina trouxe uma última descoberta.
Uma autorização assinada por Vitória anos antes, aparentemente limitada à administração dos aluguéis, havia sido apresentada por Conrado junto de outros documentos como se permitisse operações muito mais amplas.
— Preciso que você conte exatamente como assinou, disse a advogada. Mesmo que seja constrangedor. Se ocultarmos essa parte, a versão dele poderá parecer mais forte.
Vitória olhou para a data.
Recordou a cozinha da mãe, a pressa de Conrado e a irmã dizendo para lerem tudo antes.
Ela ignorara Elena naquele dia.
Agora a polícia precisava ouvir também o que Vitória preferia não lembrar.
E ela teria de escolher entre proteger a própria imagem ou ajudar a reconstruir a verdade inteira.
Para acompanhar a decisão de Vitória e as consequências para Conrado, continue na Parte 6.













