Vitória ainda segurava a fotografia quando uma buzina soou atrás dela.
O menino se encolheu, e ela compreendeu que não podia continuar no meio da calçada exigindo respostas de uma criança assustada.
— Vamos voltar para perto das pessoas, Lucas.
— Você vai me entregar para ele?
A pergunta atingiu Vitória com mais força do que a acusação sobre Conrado.
Ela se agachou, mantendo as mãos à vista, sem tentar abraçá-lo.
— Não vou levar você para o meu marido. Primeiro, precisamos descobrir se sua mãe está segura.
Lucas assentiu com relutância.
Na cafeteria, uma funcionária ofereceu água ao garoto e ajudou Vitória a encontrar um lugar afastado da rua, mas ainda visível para os clientes.
Vitória fotografou o guardanapo e a imagem de Conrado antes de guardá-los num envelope de papel que pediu ao caixa.
Depois anotou a hora aproximada da passagem da SUV preta e o ponto onde vira Elena pela última vez.
A mulher de creme não podia ter surgido do nada.
Também não podia ter atravessado uma parede.
Atrás do muro havia um corredor estreito, parcialmente encoberto por uma banca de revistas fechada.
Vitória quis correr até lá.
Lucas agarrou sua manga.
— Mamãe falou para eu ficar onde tivesse gente.
Ela olhou para a mão pequena prendendo seu casaco.
Durante sete anos imaginara a irmã sozinha dentro de um carro afundando.
Agora precisava aceitar que Elena talvez tivesse sobrevivido e aprendido a ter medo de tudo, inclusive de pedir ajuda.
— Então vamos ficar onde há gente, prometo.
Um homem da cafeteria confirmou que existia uma câmera apontada para o outro lado da rua, mas explicou que as imagens só poderiam ser entregues às autoridades.
Vitória não discutiu.
Ligou para a polícia, relatou uma possível pessoa desaparecida e a presença de uma criança desacompanhada, e pediu orientação imediata.
Enquanto aguardavam, Lucas comeu um pão de queijo devagar.
Não parecia faminto; parecia preocupado com a possibilidade de não guardar metade para a mãe.
— Ela vai saber onde me procurar?
— Vou fazer tudo o que puder para que saiba.
— Ela disse que você usava essa presilha até para dormir.
Vitória levou a mão ao cabelo.
Desde os dezoito anos, aquela pequena joia fora uma maneira de levar Elena consigo.
Era uma lembrança tão íntima que poucos a conheciam.
— Sua mãe contou mais alguma coisa sobre nós?
— Que vocês brigavam pelo lado da janela no quarto. E que você tinha medo de trovão, mas fingia que não.
Vitória sentiu a garganta apertar.
Não era prova suficiente de parentesco, mas aquelas lembranças não apareciam em fotografias nem em notícias antigas.
O celular vibrou sobre a mesa.
Uma mensagem de Conrado iluminou a tela: «Você ainda está no café? Seu telefone parou de compartilhar a localização.»
Vitória olhou para o aparelho.
Ela não se lembrava de ter autorizado o compartilhamento contínuo, embora o marido sempre dissesse que era uma medida de segurança.
Outra mensagem apareceu.
«Vitória, me responde. O que aconteceu aí?»
Pela primeira vez, ela percebeu que não sabia quanto da própria rotina Conrado acompanhava.
Desativou o compartilhamento, guardou o celular e decidiu não responder antes de conversar com um agente.
A equipe que chegou ouviu Lucas sem pressioná-lo a repetir toda a história.
Uma policial chamada Renata pediu a Vitória que explicasse o vínculo familiar possível e registrou que Elena havia sido dada como desaparecida sete anos antes.
— A senhora pode reconhecer a irmã, mas precisamos verificar os fatos e proteger o menino, esclareceu Renata.
— Eu entendo. Só não quero que Conrado tenha acesso a ele.
Renata examinou a fotografia e o guardanapo.
Não chamou Conrado de culpado, nem tratou o bilhete como uma ordem judicial.
Informou, porém, que relataria a ameaça e buscaria apoio da rede de proteção à criança enquanto tentavam localizar Elena.
Lucas ficou inquieto ao ouvir a palavra abrigo.
— A gente já saiu de muitos. Minha mãe disse que era só por uns dias.
— Ninguém está pedindo que você conte tudo agora, disse Renata. Vamos explicar cada passo antes de fazer qualquer mudança.
Na delegacia, Vitória reconheceu a fotografia da irmã no cadastro do antigo desaparecimento.
A descrição do acidente mencionava uma curva, chuva intensa e o carro localizado no rio.
Não havia registro de identificação de corpo.
— Meu marido reconheceu uma presilha encontrada no veículo, disse Vitória.
Renata ergueu os olhos.
— Existe laudo sobre a peça?
— Não sei. Durante anos achei que reconhecer bastasse.
A policial fez a pergunta com cuidado:
— E a presilha que o menino carrega, a senhora acredita ser a original?
Vitória observou a joia colocada sobre um pano limpo.
Na parte interna havia um arranhão minúsculo em forma de meia-lua.
Ela mesma o fizera ao esbarrar na irmã durante uma festa de família.
— Eu me lembro dessa marca. Mas quero que um especialista confirme.
Renata concordou e registrou a informação sem tirar conclusões.
Pediu que Lucas permanecesse acompanhado por uma profissional da proteção infantil e explicou a Vitória como continuar em contato com a equipe.
Ao anoitecer, a cafeteria enviou às autoridades uma cópia das imagens solicitadas.
Vitória pôde assistir a um trecho ao lado de Renata.
Elena realmente aparecia junto ao muro.
Quando a SUV atravessou a imagem, ela recuou para dentro do corredor, como alguém que reconhecera uma ameaça.
Não havia sinal de que tivesse sido colocada à força no veículo.
— Ela fugiu por conta própria, murmurou Vitória.
— Nesse trecho, sim, respondeu Renata. Ainda não sabemos para onde foi.
Um segundo ângulo mostrava duas pessoas saindo de uma caminhonete estacionada adiante.
Uma delas apontou para a passagem onde Elena desaparecera.
A outra levou o telefone ao ouvido.
A imagem estava longe demais para identificar rostos.
Mesmo assim, Vitória sentiu o medo de Lucas ganhar contornos reais.
O próprio celular, mantido desligado durante a conversa, foi religado apenas para que Renata registrasse as mensagens recebidas.
Havia mais uma, enviada por Conrado minutos antes.
«Quem é esse menino que está com você?»
Vitória não havia contado a ninguém, além da polícia, que encontrara Lucas.
Não sabia quem observava a cafeteria nem como Conrado recebera a informação tão depressa.
Quando Renata perguntou se ela se sentia segura voltando para casa, Vitória finalmente respondeu sem hesitar.
— Não. E acho que minha irmã sabia que eu demoraria sete anos para dizer isso.
Se Conrado soubera de Lucas antes mesmo de ela mencionar seu nome, quantas outras coisas ele acompanhara em silêncio?
Para descobrir quem vigiava a cafeteria e como encontrar Elena, continue na Parte 3.













