Na manhã seguinte, Vitória abriu uma gaveta que não tocava havia anos.
Não voltou à mansão que dividia com Conrado; buscou suas coisas essenciais acompanhada por uma equipe orientada pela polícia e passou a noite num hotel discreto.
Dentro da bolsa levava a fotografia encontrada com Lucas, a cópia do bilhete e uma pergunta que não conseguia formular em voz alta.
Se Elena estivera viva o tempo todo, por que deixara a irmã sofrer por sete anos?
A gaveta pertencia a uma pequena cômoda guardada na antiga casa da mãe das gêmeas.
Vitória recebera as chaves após a morte dela, pouco antes do desaparecimento de Elena.
Havia álbuns, cartas e uma pasta com documentos de dois imóveis herdados pelas irmãs.
Conrado sempre se oferecera para cuidar dos papéis.
Dizia que Vitória já tinha problemas demais para pensar em contratos, taxas e assinaturas.
Ela interpretara aquilo como carinho.
Agora lembrava de Elena discordando dele numa tarde distante.
— Eu quero entender o que estou assinando, Conrado.
— Não estamos na escola, Elena. Eu sei como isso funciona.
Vitória não participara da discussão.
Na época, achara que o cunhado apenas tinha pouca paciência.
Folheou a pasta com cuidado.
Entre os comprovantes, encontrou uma cópia de autorização que lhe permitia administrar aluguéis de um dos imóveis.
O documento tinha a assinatura dela, reconhecível pelo modo como desenhava o V.
O outro papel estava preso por um clipe.
Trazia o nome de Elena, uma autorização muito mais ampla e uma assinatura que parecia hesitante.
Na margem, a irmã escrevera a lápis: «Não assinei isto».
Vitória sentiu o mesmo frio do momento em que vira a presilha na mão do menino.
O bilhete era pequeno, mas a letra inclinada de Elena era inconfundível.
Fotografou os documentos e telefonou para Renata.
A policial pediu que não riscasse, separasse ou destruísse as folhas, pois precisariam ser examinadas com a origem dos registros e com os documentos oficiais.
— Não temos prova de que essa autorização foi usada, avisou Renata.
— Então vamos descobrir.
Pela primeira vez desde que Lucas aparecera, Vitória percebeu que podia fazer alguma coisa além de correr atrás da irmã.
Procurou uma advogada independente, apresentou as cópias e pediu uma verificação dos registros dos imóveis e das operações realizadas em nome das duas.
A advogada, Marina, não prometeu uma solução imediata.
Explicou que precisaria conferir matrículas, autorizações e eventuais procurações antes de concluir quem havia assinado cada papel.
Vitória agradeceu por encontrar alguém disposto a dizer «ainda não sei».
Enquanto isso, Renata investigava o trajeto de Elena depois da cafeteria.
As câmeras de uma farmácia mostraram a mulher de creme entrando no corredor e trocando o casaco por uma jaqueta escura entregue por outra mulher.
As duas saíram separadas, em direções diferentes.
Não parecia um sequestro naquele instante.
Parecia uma fuga preparada às pressas.
Um vendedor de jornais identificou a segunda mulher como Rosa, voluntária numa rede de acolhimento que atendia famílias ameaçadas.
Renata contatou a organização pelo canal oficial, sem revelar a Vitória os endereços de suas casas de apoio.
A proteção daquele endereço, explicou, podia ser justamente o que mantinha Elena viva.
Lucas permanecia sob acompanhamento de uma equipe especializada.
Vitória pôde visitá-lo numa sala onde havia livros infantis e lápis de cor, depois que a profissional responsável verificou que o encontro não o colocaria em risco.
O menino desenhava um pássaro em cima de uma casa de telhado vermelho.
— Sua mãe gosta de desenhar? — perguntou Vitória.
— Não muito. Ela desenha casas para eu lembrar que um dia vamos ter uma só nossa.
Ele lhe mostrou o papel.
Havia duas janelas, uma árvore e três pessoas de mãos dadas.
— Quem é essa terceira pessoa?
— Não sei. Mamãe disse que eu podia deixar espaço.
Vitória sentiu os olhos arderem.
Queria prometer a Lucas que Elena voltaria naquele mesmo dia.
Não o fez.
— Você fez bem em trazer a presilha, disse apenas. Foi corajoso contar o que sabia.
— Eu achei que você ia ficar brava porque toquei no seu cabelo.
— Eu fiquei assustada, não brava com você.
O menino continuou pintando, mas apoiou o braço um pouco mais perto do dela.
Vitória entendeu que a confiança podia começar assim: sem uma promessa impossível, com alguém que permanecia sentado.
À tarde, Marina ligou com uma notícia preocupante.
Constava nos registros uma tentativa recente de oferecer um dos imóveis herdados como garantia de uma dívida ligada a uma empresa na qual Conrado participava.
O procedimento havia sido questionado porque a documentação apresentada não estava completa.
— Isso prova uma irregularidade? — perguntou Vitória.
— Prova que houve a tentativa e que o registro não foi concluído daquela forma. Precisamos conferir quem a autorizou e por quê.
— Elena descobriu algo parecido antes de desaparecer.
— Então as datas importam muito.
Vitória refez a linha do tempo com os papéis diante de si.
A autorização suspeita fora emitida poucos dias antes do acidente.
Um pedido relacionado ao imóvel aparecera no mês seguinte, quando todos ainda procuravam Elena no rio.
Conrado não mencionara nada disso durante os sete anos seguintes.
Na manhã do desaparecimento, ele dissera que Elena saíra sozinha, angustiada, e que não sabia para onde ia.
Agora, para Vitória, aquelas palavras deixavam de ser apenas lembranças.
Eram uma versão dos fatos que precisava ser confrontada com outras.
Na noite seguinte, Renata recebeu uma ligação da rede de acolhimento.
Rosa confirmara que uma mulher usando o nome de Elena queria falar com a polícia, mas temia ser localizada por Conrado.
Ela estava viva e não havia sido capturada na rua, informou a voluntária.
Depois de reconhecer um dos homens que a procuravam, trocara de roupa e procurara abrigo em outro local.
Vitória apertou o telefone com as duas mãos.
— Posso falar com ela?
— Estamos organizando um encontro seguro. Sua irmã precisa decidir quando e como.
Minutos depois, a policial voltou a ligar.
Elena aceitara prestar depoimento e pedira que Vitória recebesse, antes disso, uma cópia de uma antiga carta que nunca chegara ao seu destino.
A carta começava com uma frase simples: «Vitória, se um dia eu não voltar, não entregue a Conrado os documentos da mamãe».
Na última linha, Elena mencionava um homem chamado Raul e uma noite na estrada do rio.
Vitória ficou olhando para aquele nome.
Lembrava-se dele: era o motorista contratado por Conrado pouco antes do acidente.
Por que um motorista esquecido aparecia numa carta escrita pela irmã na véspera de desaparecer?
Para conhecer a origem da carta e o que Raul sabia daquela estrada, acompanhe a Parte 4.













