O encontro aconteceu dois dias depois, numa sala reservada de um serviço de atendimento a vítimas.
Vitória chegou antes do horário, mas não pediu que apressassem Elena.
Sabia que a irmã passara anos fugindo de homens que sempre exigiam respostas imediatas.
Quando a porta se abriu, ela quase não conseguiu se levantar.
O rosto era o mesmo que vira do outro lado da rua, embora mais magro e marcado pelo cansaço.
Elena parou na entrada, segurando uma bolsa gasta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Oi, Vi.
Ninguém a chamava assim desde o desaparecimento.
Vitória deu um passo e depois parou, à espera de um sinal.
Elena abriu os braços.
O abraço demorou mais do que as duas esperavam.
Nenhuma delas conseguiu transformar aqueles sete anos numa frase.
Vitória sentiu a irmã tremer e percebeu que havia imaginado esse momento errado durante todo o tempo: não houve música, explicação brilhante nem alívio completo.
Houve apenas duas mulheres tentando acreditar que podiam se tocar.
— Eu vi seu nome numa placa de homenagem, sussurrou Vitória. Eu levei flores lá todos os anos.
— Eu sei. Um dia vi uma fotografia que publicaram. Não tive coragem de me aproximar.
Vitória se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela.
— Por quê, Elena? Eu teria procurado você em qualquer lugar.
Elena baixou a cabeça.
Renata, presente para ouvir o depoimento com autorização das duas, lembrou que elas poderiam interromper a conversa a qualquer momento.
A história começou antes da noite do rio.
Elena encontrara uma autorização com sua assinatura num conjunto de documentos ligados aos imóveis que herdara com Vitória.
A assinatura era parecida com a sua, mas ela jamais assinara aquele papel.
Ao confrontar Conrado, ouvira que precisava confiar nele.
Quando insistira em consultar outra pessoa, recebeu ameaças veladas sobre a irmã e o bebê que esperava.
— Eu não achei que ele fosse capaz de me perseguir, contou. Pensei que bastaria ir à polícia com os documentos.
Na noite do acidente, dirigia para encontrar uma conhecida que a ajudaria a guardar as cópias.
Uma SUV a acompanhou por vários quilômetros.
Reconheceu Raul, motorista que Conrado contratara naquela época, no banco da frente quando os veículos se aproximaram num cruzamento.
Ela acelerou, tomou a estrada do rio e perdeu o controle numa curva molhada.
O carro atravessou a proteção da ponte e caiu na água.
— Não sei como consegui abrir a janela, disse Elena. Bati a cabeça, machuquei a perna e achei que ia morrer ali.
Foi arrastada pela correnteza até uma margem coberta de vegetação.
Ainda conseguia ouvir vozes na estrada, homens chamando seu nome.
Em vez de responder, escondeu-se entre as árvores, convencida de que tinham provocado a perseguição.
Uma mulher que passava cedo pela margem a ajudou a chegar a um posto de atendimento.
Elena usou apenas o primeiro nome, temendo que a localizassem antes de conseguir avisar Vitória.
No dia seguinte, viu a notícia do carro encontrado.
Seu corpo não fora localizado.
Poucas horas depois, alguém deixou no local onde recebia cuidados um bilhete mencionando o bebê e exigindo que não procurasse a família.
— Eu devia ter denunciado tudo, admitiu Elena. Mas estava machucada, grávida e acreditava que ele sabia onde eu estava.
Vitória ouviu sem interromper.
Também queria perguntar por que a irmã não confiara nela.
Esperou que Elena encontrasse coragem para explicar.
— Escrevi para você duas vezes, continuou. Nunca recebi resposta. Depois chegou uma mensagem do seu número dizendo que Conrado tinha lido minhas cartas e que eu precisava parar.
— Eu nunca mandei isso.
— Hoje eu acredito. Na época, não sabia o que ele podia ver no seu telefone.
Elena viveu em quartos cedidos temporariamente, trabalhou quando conseguiu e mudou de endereço várias vezes.
Lucas nasceu seis meses depois do acidente, numa maternidade pública, enquanto Elena ainda tentava esconder o nome completo.
— Ele tinha direito a uma vida melhor do que essa, disse Elena.
— E você também, respondeu Vitória.
A irmã não tentou justificar cada ano.
Disse que a vergonha aumentara com o tempo, porque cada mês de silêncio tornava mais difícil imaginar o reencontro.
No último ano, um homem aparecera perto de dois endereços onde ela morara.
Nos meses recentes, passara a usar abrigos, sem permanecer muito tempo em nenhum.
— Então por que decidiu me procurar agora? — perguntou Vitória.
— Porque deixei de acreditar que fugir protegeria Lucas. Ele começou a reconhecer os carros antes de reconhecer os lugares.
Elena soubera por uma conhecida que Vitória ainda frequentava a mesma cafeteria em certas tardes.
Escolheu o local por ser movimentado e pediu a Lucas que mostrasse a presilha enquanto ela permanecia do outro lado, pronta para se aproximar se fosse seguro.
— Eu errei ao mandar meu filho primeiro, confessou. Achei que assim Conrado não me veria antes de você acreditar. Mas coloquei Lucas no meio de algo que ele não devia carregar.
Vitória apertou sua mão.
— Agora ele não vai carregar sozinho.
A irmã explicou que nunca se desfizera da presilha original.
Ela estava em seu cabelo na noite do acidente e permanecera presa quando chegara à margem.
A peça reconhecida por Conrado no carro, portanto, precisava ser examinada novamente.
— Eu nem sabia que tinham encontrado outra, disse Elena. Foi assim que você acreditou na minha morte?
— Foi. Ele a apontou diante de todos como se não houvesse dúvida.
Renata anotou a informação.
Um objeto semelhante não provava, por si só, quem o colocara no veículo; seria necessário buscar a cadeia de custódia e a origem daquela peça.
Vitória perguntou por Lucas.
Elena foi informada de que o filho estava protegido e de que os profissionais organizavam um reencontro adequado à situação.
Ela levou a mão à boca e chorou em silêncio.
Antes de terminar, entregou a Renata os registros recentes das ameaças recebidas no telefone da rede de apoio.
Havia ligações, mensagens e um áudio em que um homem exigia que ela entregasse qualquer documento antigo da família.
— É a voz de Raul, afirmou Elena. Tenho certeza de que é ele.
Renata explicou que o material precisaria de verificação independente.
Não haveria prisão baseada apenas no reconhecimento de uma voz.
Quando Vitória saía, a policial recebeu uma informação da equipe que examinara as câmeras perto da cafeteria.
Um dos homens vistos junto à caminhonete tinha sido identificado provisoriamente por outras imagens mais nítidas.
Era Raul.
E havia algo ainda mais grave: imagens da portaria do condomínio mostravam Raul entrando no prédio de Conrado na manhã anterior ao encontro de Lucas com Vitória.
Se os dois continuavam se reunindo, o desaparecimento de Elena não era apenas uma mentira antiga.
Podia haver um plano em andamento, justamente quando ela tentava voltar à vida.
O que Raul faria quando soubesse que Elena já havia prestado depoimento? Descubra na Parte 5.













