Camila não perguntou imediatamente quem era aquela mulher.
Percebeu que Léo já começara a apertar o trenzinho contra o peito, preparado para se defender.
«Deve ter sido assustador ouvir isso», disse apenas.
Ele baixou a cabeça.
«Eu chorei.»
«Crianças choram. Adultos também. Ninguém merece ser ameaçado por causa disso.»
Léo colocou o brinquedo no chão e foi buscar um livro.
Camila deixou o assunto descansar.
Sabia que tentar arrancar explicações de um menino de três anos só faria aumentar sua insegurança.
Mas, quando Matteo chegou para o almoço, ela relatou exatamente as palavras que ouvira, sem acrescentar interpretações.
«Ele disse ‘ela’?», perguntou Matteo.
«Disse. Não sei a quem se referia.»
O pai apertou o maxilar.
«Vou falar com as funcionárias.»
«Converse, mas não transforme isso num interrogatório na frente dele.»
Matteo ficou em silêncio antes de concordar.
Foi nesse momento que Beatriz Duca apareceu na sala.
Era irmã mais velha de Matteo e, desde a morte de Elisa, administrava contratos, turnos e pagamentos da casa.
Cumprimentou o irmão, olhou para Camila e depois para Léo.
O menino recolheu o livro e se escondeu atrás da poltrona.
«Então esta é a faxineira milagrosa», comentou Beatriz.
«Camila está em período de experiência para acompanhar o Léo», respondeu Matteo.
«Você sabe quantas mulheres tentaram? Esse menino precisa de firmeza, não de plateia para as birras.»
Camila esperou Matteo apresentar os termos do trabalho.
Ele fez isso, incluindo a decisão de procurar acompanhamento profissional.
Beatriz soltou uma risada curta.
«Uma psicóloga para ensinar uma criança a obedecer?»
«Para nos ajudar a entender o que está acontecendo», corrigiu Matteo.
Quando a irmã saiu, Camila percebeu que Léo havia molhado a frente da camiseta com água do copo.
Ele olhava a porta, não a roupa.
Ela pegou uma toalha limpa e falou sobre trocar a camiseta, sem recriminar o acidente.
Aos poucos, o menino voltou a brincar.
Naquela tarde, Camila telefonou à agência responsável por sua contratação.
Pediu informações sobre como registrar por escrito uma preocupação relativa ao cuidado infantil.
A atendente mencionou que duas antigas babás haviam solicitado mudanças de turno por discordâncias com a administração da cobertura.
Camila não recebeu seus contatos particulares, mas autorizou que a agência transmitisse o próprio número caso alguma quisesse falar.
Uma hora depois, chegou uma mensagem de Ana, a profissional que Camila encontrara chorando no elevador.
Ana pediu para conversar por telefone depois de sair do emprego atual.
À noite, contou que não pedira demissão por causa dos chutes de Léo.
«Ele me acertou uma vez. Isso eu sabia que podia acontecer com uma criança sofrendo», disse Ana.
«Saí porque me mandaram trancar a porta do quarto até ele parar de chamar pela mãe.»
Camila permaneceu imóvel na cozinha de sua casa.
«Quem mandou?»
«A irmã do patrão. Eu disse que não faria aquilo.»
Ana explicou que Beatriz insistia em chamar a prática de disciplina.
Uma outra funcionária acabara cedendo por medo de perder o salário.
Ana guardara a troca de mensagens em que avisara a administração de que não concordava e recebera ordem para não incomodar Matteo com ‘assuntos pequenos’.
Ela ofereceu encaminhar essas mensagens diretamente a ele, com data e contexto.
No dia seguinte, Matteo recebeu o material no próprio telefone.
Leu tudo duas vezes.
Não havia gravação da ameaça feita a Léo, mas as instruções escritas eram suficientemente claras: fechar a porta e ignorar seus pedidos até que parasse de chorar.
A assinatura das mensagens era de Beatriz.
«Eu não sabia», disse Matteo.
Camila não tentou consolá-lo.
«Agora sabe.»
Ele passou a mão pelo rosto.
«Deixei minha irmã cuidar da casa porque achei que ela conseguiria lidar com o que eu não conseguia.»
«O problema não foi precisar de ajuda. Foi não perguntar ao Léo como estava sendo ajudado.»
Matteo convocou Beatriz ao escritório naquela mesma tarde.
Camila permaneceu fora da conversa; não queria um confronto diante da criança.
A discussão foi longa o suficiente para que ela ouvisse vozes elevadas no corredor, embora não distinguisse as frases.
Depois, Matteo pediu que a irmã viesse até a sala sem se aproximar de Léo.
«Você disse ao meu filho que todos iam deixá-lo sozinho se chorasse?», perguntou ele.
Beatriz observou Camila, como se procurasse a origem da acusação.
«Eu disse que as pessoas não conseguem trabalhar com uma criança que faz escândalo o dia inteiro.»
«Para um menino de três anos, isso é a mesma coisa.»
«Eu estava tentando manter esta família de pé, Matteo!»
A voz de Beatriz tremeu.
Ela também perdera a cunhada, assumira responsabilidades e passara meses assistindo ao irmão desaparecer dentro do trabalho.
Mas sua exaustão não apagava o dano que causara.
Matteo retirou dela a autoridade sobre a equipe e estabeleceu que qualquer decisão relativa ao cuidado de Léo passaria por ele e por profissionais qualificados.
Também determinou a revisão dos procedimentos da casa com a agência.
Beatriz foi embora sem se despedir do sobrinho.
Na hora do banho, Léo perguntou por que a tia estava zangada.
Matteo sentou no pequeno banco do banheiro.
«A tia falou coisas que assustaram você. Não devia ter falado. Eu devia ter percebido antes.»
«Eu fui mau?»
«Não. Você ficou triste, e nós não ajudamos direito.»
Léo esfregou os olhos com a manga.
Não respondeu, mas aceitou que o pai lhe alcançasse a toalha.
Camila estava guardando a mochila quando seu celular tocou.
Era uma vizinha da mãe, falando depressa do corredor de uma unidade de pronto atendimento.
Dona Teresa sentira falta de ar, fora levada para avaliação e pedia pela filha.
Camila procurou Matteo.
«Preciso sair agora. Minha mãe está no hospital.»
Ele pegou a chave do carro, disposto a levá-la, quando Léo apareceu à porta.
O menino viu a bolsa de Camila e ouviu a palavra hospital.
Seu rosto perdeu a cor.
«A mamãe foi pro hospital e não voltou», murmurou.
Camila compreendeu que, daquela vez, uma despedida comum não seria suficiente.
E precisava sair sem repetir a mentira de que sempre estaria ali.
Como ela poderia ir ao encontro da mãe sem fazer Léo acreditar que estava sendo abandonado outra vez? Acompanhe a Parte 4.













