«Sai daqui! Eu não quero você!»
O trenzinho de madeira atingiu o ombro de Camila com tanta força que ela deu um passo para trás.
Antes que pudesse reagir, o menino de três anos chutou sua perna e ergueu o punho para bater novamente.
Do outro lado da sala, Matteo Duca observava tudo em silêncio.
Ele já sabia o que aconteceria.
A jovem gritaria. Reclamaria. Talvez pegasse suas coisas e fosse embora.
Era sempre assim.
Mas, naquela tarde, algo completamente diferente aconteceu.
Camila Nogueira tinha vinte e três anos quando entrou pela primeira vez na cobertura da família Duca, na Vila Nova Conceição, em São Paulo.
O elevador de serviço se abriu para um corredor silencioso, com paredes de mármore e portas tão altas que pareciam pertencer a um hotel.
Ela segurou a alça da bolsa e conferiu mais uma vez o endereço no celular.
Não podia perder aquele emprego.
Havia contas atrasadas, despesas do tratamento médico da mãe e uma cobrança que venceria na semana seguinte. Camila já tinha vendido quase tudo o que podia para manter os pagamentos em dia.
Naquela manhã, saíra de casa na Zona Leste antes do sol nascer. Pegara dois transportes e passara boa parte do caminho calculando quanto conseguiria pagar com o primeiro salário.
Sua função era simples: limpar a cobertura.
Ninguém havia mencionado crianças.
Muito menos um menino capaz de fazer quatorze babás pedirem demissão.
Quando Camila chegou ao corredor principal, encontrou uma mulher de uniforme saindo às pressas, enxugando as lágrimas.
Era a décima quarta babá de Léo Duca.
«Você é a próxima?», perguntou a mulher.
«Não. Vim para a limpeza.»
A babá soltou um suspiro de alívio.
«Então fique longe do quarto do menino.»
Antes que Camila perguntasse o motivo, a mulher entrou no elevador.
A porta se fechou.
Poucos segundos depois, um grito infantil atravessou a cobertura.
«NÃO!»
Camila parou.
Outro barulho veio da sala. Algo pesado bateu contra o chão.
Ela respirou fundo e continuou andando.
Precisava trabalhar.
Matteo Duca estava junto à janela quando viu o filho arremessar um brinquedo contra a parede.
Naquele ambiente, praticamente tudo custava uma fortuna: os móveis, os quadros, os lustres e até os objetos decorativos.
Mas nada daquilo parecia fazer diferença para Léo.
Aos três anos, ele tinha o rosto delicado, cabelos castanhos ondulados e olhos grandes que frequentemente se enchiam de lágrimas antes de uma explosão de raiva.
Ele gritava, mordia, chutava e empurrava qualquer adulto que tentasse se aproximar.
Matteo já havia contratado profissionais experientes. Oferecera salários muito acima do mercado e tentara diferentes abordagens.
Nenhuma babá permanecera por muito tempo.
O homem que conseguia intimidar empresários com um telefonema não sabia mais o que fazer quando o próprio filho começava a chorar.
E aquilo o deixava furioso consigo mesmo.
«Léo, chega», disse ele.
O menino apertou um trenzinho de madeira entre as mãos.
«Não!»
Foi então que Camila entrou na sala carregando um pano e um pequeno balde com produtos de limpeza.
Ela não percebeu o brinquedo até ser tarde demais.
Léo virou o corpo e lançou o trenzinho em sua direção.
O objeto atingiu seu ombro.
«Ai!»
Camila levou a mão ao lugar da pancada.
O menino correu até ela e chutou sua perna.
Depois ergueu novamente o punho.
Matteo se endireitou.
«Léo!»
Mas não conseguiu dizer mais nada.
Camila havia feito algo que ele não esperava.
Em vez de agarrar o menino ou gritar com ele, ela afastou os produtos de limpeza, respirou devagar e se agachou, mantendo uma distância segura.
Agora seus olhos estavam na mesma altura.
Léo continuava com o punho erguido.
«Você está com uma raiva muito grande, né?», perguntou Camila suavemente.
O menino franziu a testa.
«Sai!»
«É muita coisa para alguém tão pequenininho sentir de uma vez.»
Léo pareceu confuso.
Ninguém estava brigando com ele.
Ninguém o ameaçava com castigo.
Camila manteve a voz calma.
«Você pode ficar bravo. Mas não pode me machucar.»
O punho do menino permaneceu suspenso.
«Eu não vou bater em você, Léo. E não vou simplesmente sair correndo porque você está bravo.»
Matteo observava sem se mover.
Durante meses, ele vira profissionais tentarem controlar o filho com ordens, distrações e promessas.
Camila não estava tentando convencê-lo a obedecer.
Estava tentando entendê-lo.
«Tá tudo bem chorar», continuou ela. «Eu estou aqui.»
Foi então que o rosto de Léo mudou.
Seu lábio inferior começou a tremer.
Os dedos que estavam fechados se abriram lentamente.
Ele baixou o braço.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Camila permaneceu agachada.
«Pronto. Estou te ouvindo.»
Léo deu um pequeno passo.
Depois outro.
Camila não tentou puxá-lo para perto.
O menino se aproximou por vontade própria.
E, diante dos olhos incrédulos de Matteo, encostou os lábios na bochecha da jovem.
Um beijo pequeno.
Quase tímido.
Camila ficou surpresa, mas sorriu de leve.
Então Léo começou a chorar.
Não eram os gritos de raiva que costumavam assustar os funcionários.
Era um choro profundo, entrecortado, de quem parecia ter segurado algo doloroso por muito tempo.
O menino estendeu os braços.
Camila o acolheu, permitindo que ele se aninhasse contra seu ombro.
«Calma, meu pequeno», sussurrou. «Pode chorar.»
Léo agarrou a blusa dela com as duas mãos.
E chorou ainda mais.
Do outro lado da sala, Matteo continuava imóvel.
Havia semanas que tentava descobrir como ajudar o filho. Tinha dinheiro para contratar os melhores profissionais e acesso a tudo o que imaginava ser necessário.
Mas acabara de presenciar uma jovem faxineira fazer, em poucos minutos, o que quatorze babás não tinham conseguido.
Léo tinha parado de lutar contra o mundo.
Pelo menos naquele instante.
O copo de cristal escorregou dos dedos de Matteo.
O som da queda ecoou pelo chão de mármore.
Camila levantou o rosto imediatamente.
«Meu Deus, senhor! Me desculpe. Eu não deveria ter…»
«Não.»
A voz de Matteo saiu baixa.
Ele olhava para o filho adormecendo aos poucos contra o ombro dela.
«Não peça desculpas.»
Camila não sabia o que dizer.
Seu ombro ainda doía, e ela tinha acabado de perceber que estava segurando o filho do homem mais temido daquela casa.
«Eu só tentei acalmá-lo», explicou.
Matteo não respondeu.
Continuou observando os dedos pequenos de Léo agarrados ao uniforme simples da faxineira.
Havia algo em sua expressão que Camila não conseguia interpretar.
Gratidão?
Surpresa?
Ou alguma decisão que ele ainda não havia revelado?
Trinta minutos depois, Camila estava sentada no escritório particular de Matteo.
O cômodo era amplo, silencioso e decorado com madeira escura. Pela janela, os prédios de São Paulo pareciam pequenos.
Ela mantinha as mãos juntas sobre o colo.
Não entendia por que havia sido chamada.
Talvez Matteo estivesse irritado porque ela tinha tocado no filho.
Talvez considerasse sua atitude uma invasão de responsabilidade.
Camila precisava daquele salário mais do que nunca.
«Senhor Duca, se eu fiz alguma coisa errada…»
«Você não fez nada errado.»
Matteo estava de pé, diante da mesa.
«Então posso voltar ao trabalho?»
Ele a observou por alguns segundos.
«Você mora na Zona Leste, certo?»
Camila hesitou.
«Moro.»
«E está cheia de dívidas por causa do tratamento da sua mãe.»
O coração dela acelerou.
«Como o senhor sabe disso?»
Matteo não respondeu à pergunta.
Apenas se aproximou.
«Você não vai voltar para a Zona Leste.»
Camila ficou imóvel.
«Como assim?»
«Nem para as dívidas. Nem para aquela vida que você estava levando.»
Um arrepio percorreu suas costas.
«Senhor Duca, eu não estou entendendo.»
Atrás dela, a porta do escritório se fechou com um clique seco.
Camila se virou instintivamente.
Quando tornou a olhar para Matteo, percebeu que ele não estava fazendo uma proposta comum de trabalho.
Mas ainda não sabia o que ele pretendia.
E, pela primeira vez desde que entrara naquela cobertura, ela sentiu medo do homem que acabara de ver deixar um copo cair por causa do próprio filho.













