O clique da porta continuava ecoando na cabeça de Camila.
Ela se levantou tão depressa que a cadeira arranhou o piso.
«Eu preciso ir embora, senhor Duca.»
Matteo olhou para a porta, depois para ela.
«Ela fecha sozinha. Não está trancada.»
Camila atravessou o escritório, girou a maçaneta e abriu uma fresta.
Só então conseguiu respirar direito.
Matteo parecia sinceramente surpreso com a reação, o que a deixou ainda mais irritada.
«O senhor acabou de dizer que eu não voltaria para minha casa. E sabe de coisas sobre a minha mãe que nunca contei ao senhor.»
«Eu queria oferecer uma solução.»
«Parece mais uma ordem.»
O silêncio que se seguiu foi diferente daquele da sala.
Matteo, acostumado a dar instruções sem contestação, levou alguns segundos para responder.
«Você tem razão. Falei de maneira absurda.»
Ele recuou até a mesa, deixando livre a passagem.
Explicou que a empresa responsável pelas contratações enviara informações pessoais sobre os candidatos.
Depois de tantas trocas de funcionários, ele pedira verificações adicionais.
A referência à situação financeira da mãe de Camila viera de um relatório que ela jamais soubera existir.
«Eu não autorizei ninguém a discutir minhas dívidas com o senhor.»
«Vou exigir que o relatório seja apagado.»
«E quero uma cópia do que foi levantado.»
Matteo concordou sem negociar.
Camila não sabia se poderia confiar nele, mas percebeu que pela primeira vez alguém naquela cobertura escutava um não.
«Minha proposta era que você morasse aqui e cuidasse do Léo», disse ele.
«Eu fui contratada para limpar.»
«Eu sei. Posso pagar muito mais.»
«Dinheiro não transforma uma pessoa em babá da noite para o dia.»
Matteo baixou os olhos.
«O que aconteceu lá fora foi a primeira vez em meses que meu filho procurou alguém sem medo.»
Camila se lembrou do peso daquele corpo pequeno contra seu ombro.
Não parecia uma criança malcriada que precisava de um adulto mais severo.
Parecia um menino tentando descobrir se alguém suportaria sua tristeza.
«Uma tarde não prova que eu possa cuidar dele», respondeu.
«Ele precisa de acompanhamento, rotina e de um pai presente. Não de mais uma pessoa contratada para resolver tudo.»
As palavras atingiram Matteo com mais força do que ele demonstrou.
Ele caminhou até a janela e permaneceu ali por um instante.
«A mãe do Léo morreu há dez meses. Um acidente na estrada. Ele tinha acabado de completar dois anos.»
Camila sentiu a raiva ceder espaço à compaixão, mas não retirou o que dissera.
Matteo contou que Elisa costumava se despedir do filho junto à porta, mesmo quando saía por poucos minutos.
Na manhã do acidente, ele estava dormindo.
Ela não o acordara.
Depois vieram uma casa silenciosa, um pai que passava horas no trabalho e sucessivas mulheres que desapareciam da rotina antes que Léo aprendesse seus nomes.
«Eu achei que bastava encontrar a profissional certa», confessou Matteo.
«Talvez ele esteja cansado de perder pessoas.»
No corredor, passos apressados interromperam a conversa.
Uma funcionária avisou que Léo acordara chorando e não deixava ninguém entrar no quarto.
Matteo foi na frente.
Camila acompanhou os dois até a porta, mas permaneceu do lado de fora.
O menino estava sentado no tapete, com o rosto vermelho e o trenzinho de madeira ao lado.
«Camila!», gritou quando a viu.
Ela se agachou na entrada.
«Estou aqui agora, mas daqui a pouco vou para minha casa.»
A expressão de Léo se fechou imediatamente.
«Não! Você vai embora!»
«Vou. E posso voltar amanhã, se seu pai combinar comigo. Hoje eu vou me despedir olhando para você.»
Léo correu para a janela e bateu a mão no vidro.
Camila não fingiu que ficaria.
Matteo, que parecia prestes a prometer qualquer coisa para impedir o choro, ouviu-a pedir que ele se sentasse perto do filho.
«Diga a ele a verdade. E fique enquanto ele estiver triste.»
Matteo se sentou no tapete com a rigidez de quem entrava numa reunião desconhecida.
Léo o empurrou.
O pai não se levantou.
«Eu sei que você está com saudade da mamãe», disse Matteo, a voz falhando.
«Eu também estou. E vou ficar aqui com você hoje.»
O menino não abraçou o pai.
Mas parou de empurrá-lo.
Camila considerou aquilo suficiente para uma primeira tentativa.
Na saída, Matteo voltou a falar do emprego.
Desta vez perguntou, em vez de determinar.
Camila aceitou apenas quinze dias de experiência, durante o dia, mediante contrato com função e remuneração definidos, sem obrigação de morar ali.
Queria continuar visitando a mãe, ter o próprio telefone e poder encerrar o acordo.
Também pediu que ele consultasse uma profissional de desenvolvimento infantil para orientar a família.
«Não vou substituir a mãe dele», deixou claro.
«Não estou pedindo isso.»
«Então não diga a ele que eu nunca vou embora. Prometa só o que pode cumprir.»
Matteo anotou os horários numa folha, como se fossem condições de um negócio decisivo.
Antes de encerrar a conversa, Camila perguntou quem ficaria com Léo no restante do dia.
Matteo hesitou.
Era a pergunta mais simples, e ainda assim ele não sabia responder sem recorrer ao nome de alguma funcionária.
Camila esperou.
Por fim, ele cancelou dois compromissos e combinou que ele próprio prepararia o jantar com o menino, contando com a equipe para o necessário.
Aquela seria a primeira parte concreta do acordo.
Naquela noite, Camila pegou o ônibus de volta à Zona Leste com o ombro dolorido e uma cópia provisória da proposta na bolsa.
Contou à mãe apenas que surgira a possibilidade de um trabalho melhor.
Dona Teresa ouviu em silêncio antes de perguntar se a filha estava segura.
«Ainda estou descobrindo», respondeu Camila.
Na manhã seguinte, ela voltou ao prédio no horário combinado.
Léo estava junto ao elevador, segurando o trenzinho com as duas mãos.
Não correu para abraçá-la.
Primeiro examinou seu rosto, como se precisasse ter certeza de que era a mesma pessoa.
«Você voltou.»
«Eu disse que voltaria hoje.»
Ele assentiu e permitiu que ela caminhasse ao seu lado.
Na sala, enquanto Camila separava os brinquedos, o menino apontou para a porta e falou quase sem som.
«Ela disse que, se eu chorasse, todo mundo ia me deixar sozinho.»
Camila sentiu um frio no estômago.
Léo não estava apenas com medo das despedidas.
Alguém havia ensinado aquele medo a ter palavras.
Quem fizera aquela ameaça dentro da cobertura? Continue na Parte 3 para descobrir o que Camila encontrou ao procurar a origem daquela frase.













