Sofia leu a mensagem de Bianca três vezes antes de responder.
Não queria repetir o erro de Lucas, que tratava uma suspeita como se fosse uma verdade estabelecida.
“Se há documentos, encaminhe-os à comissão. Não apague nem altere nada”, escreveu.
Bianca demorou alguns minutos.
“Você pode me encontrar amanhã? Quero explicar antes de prestar meu depoimento.”
Sofia pensou na risada da outra mulher, naquela mesma noite, diante de pessoas que nem conheciam sua história.
Não lhe devia confiança.
Mas a possibilidade de preservar provas dizia respeito também aos moradores que esperavam pelo Quintal Aberto.
Ela sugeriu uma reunião na sede do instituto, com Teresa presente e horário registrado.
Bianca aceitou.
Na manhã seguinte, Sofia saiu cedo.
Mateo ofereceu acompanhá-la até a porta, mas não entrar na reunião.
— Não quero que digam que você está conduzindo a apuração — ela explicou.
— Também não quero — respondeu ele. — A única coisa que posso fazer é cumprir meu afastamento dessa avaliação.
A frase pareceu simples.
No entanto, Sofia lembrava de um tempo em que precisar estabelecer limites dentro de um relacionamento sempre terminava numa discussão.
Com Mateo, os limites não se tornavam provas de desamor.
Teresa recebeu as duas numa sala pequena, onde havia uma mesa, três cadeiras e um gravador usado apenas com autorização dos presentes.
Bianca recusou a gravação, mas concordou em fazer uma declaração escrita, assinada e datada.
— Eu fui responsável pela diagramação do material do Lucas — começou, esfregando os dedos. — Quando vi a planta antiga, perguntei de quem era. Ele disse que tinham feito juntos.
Sofia permaneceu em silêncio.
— Mais tarde, vi um arquivo com o nome de vocês dois. Na versão que ele me pediu para enviar, o seu nome já tinha sumido.
— Você perguntou por quê? — Sofia quis saber.
— Perguntei. Ele disse que a autoria estava regularizada por contrato.
Bianca abriu o computador e mostrou um histórico de mensagens de trabalho.
O texto mais antigo dizia que a exposição universitária autorizava o uso das imagens.
Outro, enviado semanas depois, ordenava que o rodapé dos desenhos fosse substituído pelo logotipo do escritório de Lucas.
Teresa pediu que Bianca exportasse os registros completos, com datas e remetentes, para os canais oficiais.
Nada seria decidido com base em capturas recortadas.
Então Bianca encontrou uma mensagem posterior.
“Usa a assinatura do formulário da mostra. O termo novo precisa ir junto com o projeto antes de sexta.”
Sofia sentiu a garganta fechar.
Não era uma perícia, nem uma sentença.
Mas as palavras correspondiam exatamente à dúvida que a levara a procurar o documento antigo.
— Você fez isso? — perguntou.
Bianca baixou a cabeça.
— Eu recortei a imagem. Achei que ele fosse mandar o texto para você aprovar. Depois ele disse que não precisava mais.
— E você enviou o documento assim mesmo?
— Enviei.
A resposta doeu mais do que Sofia esperava.
Bianca não era uma pessoa obrigada a obedecer a Lucas em qualquer circunstância.
Havia tomado decisões próprias, e uma delas podia ter colocado o nome de Sofia num contrato que ela nunca vira.
— Não vou dizer que está tudo bem — Sofia respondeu. — Mas agradeço por entregar os arquivos agora.
Bianca assentiu, chorando em silêncio.
Teresa interrompeu a conversa para explicar que aquela declaração seria analisada junto aos originais enviados pela organização e, se necessário, encaminhada às autoridades competentes.
Não prometeu punições nem antecipou conclusões.
Ao sair, Sofia encontrou uma chamada perdida de Lucas.
Havia também uma mensagem curta: “Podemos resolver isso entre nós.”
Ela não respondeu imediatamente.
Consultou uma advogada indicada pelo conselho profissional, explicou o que havia ocorrido e recebeu a orientação de manter a comunicação por escrito.
Era possível buscar reconhecimento de autoria e contestar o uso da assinatura, mas o procedimento exigiria tempo e documentação.
Lucas voltou a escrever durante a tarde.
Dessa vez, propôs retirar as plantas contestadas do próprio material se Sofia concordasse em comunicar à comissão que tudo fora um mal-entendido.
Sofia leu a proposta com Mateo sentado do outro lado da mesa.
— O que você pensa? — ele perguntou.
— Que ele está oferecendo parar de usar algo que não podia usar, desde que eu pare de dizer como conseguiu.
Mateo não respondeu por ela.
Esperou enquanto Sofia redigia uma mensagem informando que trataria do assunto apenas por meio da advogada e da comissão.
No dia seguinte, uma conversa atravessada surgiu entre alguns participantes da mostra.
Alguém dizia que Sofia só conseguira expor porque era casada com um diretor do instituto.
Outro repetia que o projeto em disputa havia sido desenvolvido pelo ex-noivo.
Nenhuma das versões mencionava o cadastro transparente que ela preenchera ou os arquivos antigos que apresentara.
Durante alguns minutos, Sofia se viu novamente no salão da gala.
A mesma vergonha que não lhe pertencia parecia voltar, agora sem Lucas precisar estar presente.
Dona Celina ligou naquela tarde, perguntando quando sairia o resultado do concurso.
Sofia explicou que a avaliação estava suspensa por uma questão de autoria e que não sabia quando terminaria.
— Então a senhora não vai mais fazer o quintal? — a moradora perguntou.
Sofia observou as plantas espalhadas pela mesa.
— O projeto continua existindo. Só não sei ainda de onde virá o apoio.
— Eu guardei os papéis da reunião do bairro — disse dona Celina. — Se precisar mostrar que a gente participou, estão aqui.
A oferta fez Sofia se sentar.
Uma pasta de reuniões, guardada por uma senhora que caminhava com andador, talvez não resolvesse o conflito jurídico.
Mas lembrava à arquiteta por que todo aquele trabalho merecia ser defendido.
Na sexta-feira, Teresa enviou um comunicado às duas equipes.
A comissão teria uma audiência documental na semana seguinte; cada parte poderia apresentar sua versão, acompanhada de advogado, e indicar provas.
O instituto manteria Mateo afastado de qualquer discussão ou decisão envolvendo os projetos.
Anexo ao comunicado havia um pedido formulado pela defesa de Lucas.
Ele queria que o Quintal Aberto fosse excluído, alegando uso indevido de uma proposta conjunta e conflito de interesses decorrente do casamento de Sofia.
Sofia pousou o papel sobre a mesa.
Pela primeira vez, compreendeu que Lucas não tentava apenas conservar o projeto dele.
Pretendia impedir que o dela tivesse uma chance.
A resposta exigiria mais que provar de quem era uma assinatura: Sofia teria de defender, diante de uma comissão inteira, seu direito de estar naquela sala.
Para acompanhar a decisão de Sofia e o desfecho da audiência, continue na Parte 5.













