O detalhe estava ao lado da assinatura: uma pequena mancha azul, semelhante à ponta de uma folha.
Sofia a reconheceu antes mesmo de conseguir organizar os pensamentos.
Dois anos antes, ainda durante o noivado, ela autorizara Lucas a levar alguns desenhos de estudo a uma exposição universitária.
O documento verdadeiro permitia apenas reproduzir imagens para aquela apresentação, com o nome da autora indicado.
Na tarde em que o assinara, a caneta falhara e deixara uma marca na margem inferior.
Sofia fizera uma fotografia para guardar o registro antes de entregar a folha a Lucas.
— Posso ampliar essa parte? — perguntou a Teresa.
A responsável ajustou a imagem.
A mancha permanecia ali, exatamente na mesma posição em relação às letras do sobrenome.
— Reconhece alguma coisa? — Teresa perguntou.
— Reconheço a origem. Não este termo.
Sofia explicou o que lembrava, sem concluir que a semelhança bastava para provar a adulteração.
Teresa anotou a informação e pediu que qualquer registro fosse encaminhado ao endereço oficial da organização.
— Precisamos preservar os arquivos originais e ouvir os envolvidos — esclareceu. — Ninguém será acusado formalmente com base apenas numa impressão visual.
Sofia assentiu.
A cautela da mulher, em vez de ofendê-la, lhe trouxe algum alívio.
Pela primeira vez naquela noite, alguém tratava uma questão envolvendo seu nome como algo que merecia apuração, não como pretexto para espetáculo.
— Posso continuar na mostra? — perguntou.
— A apresentação pode ocorrer, mas as propostas relacionadas não receberão decisão hoje. A comissão independente precisará examinar os documentos.
Sofia respirou devagar.
A notícia doía.
Ela havia economizado durante meses para produzir maquetes, pagar impressões e reservar tempo de trabalho para aquela oportunidade.
Agora teria de suportar uma espera provocada por uma alegação que nunca autorizara.
— Quero registrar minha contestação por escrito — disse.
Teresa lhe ofereceu acesso ao formulário.
Sofia escreveu que não reconhecia o termo de cessão, que mantinha arquivos anteriores e que solicitava a preservação dos materiais submetidos por ambas as equipes.
Não citou o cargo de Mateo.
Não precisou.
Quando saiu, encontrou Lucas no corredor, próximo a uma máquina de café.
Bianca permanecia a alguns passos, com o celular nas mãos.
— Está tentando me prejudicar? — Lucas perguntou, sem cumprimentá-la.
— Estou tentando entender por que um documento traz a minha assinatura sem minha autorização.
Ele olhou para a porta atrás dela.
— Você lembra de tudo do jeito que mais lhe convém.
— Eu lembro de uma exposição na faculdade. Não de ter cedido meu trabalho para sua empresa.
Lucas cruzou os braços.
— A ideia era nossa.
— Algumas conversas foram nossas. Os desenhos, as medições e as revisões que você apresentou tinham uma autora.
Bianca levantou os olhos do telefone.
— Lucas, você disse que ela tinha concordado.
Ele se virou bruscamente.
— E concordou. Só não quer admitir agora.
Sofia observou a expressão de Bianca.
Naquele instante, teve a impressão de que a risada no salão havia escondido uma insegurança que nenhuma das duas queria mostrar.
Mas não podia transformar uma impressão em certeza.
— Se você tem autorização, entregue o original — pediu Sofia. — Isso resolve a dúvida muito melhor do que gritar comigo.
Lucas chegou mais perto, sem tocá-la.
— Cuidado. Se começarem a investigar conflitos de interesse, também podem perguntar por que a mulher do diretor de um patrocinador está concorrendo.
— Eu declarei meu casamento na inscrição.
Pela primeira vez, Lucas pareceu surpreendido.
— Declarou?
— Antes de enviar as plantas. É o que se faz quando não se quer esconder nada.
Ela saiu antes que ele encontrasse outra maneira de humilhá-la.
No fim do corredor, Mateo a esperava junto à porta do terraço, sem tentar interromper a conversa que acabara de ouvir.
— Teresa pediu documentos? — perguntou.
— Pediu. E eu vou procurar os meus.
Mateo assentiu.
— Se quiser, posso chamar um carro para você ir para casa.
Sofia olhou para a pasta que ainda segurava.
— Não. Tenho uma apresentação daqui a vinte minutos. Os moradores que me ajudaram merecem que eu a faça.
Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.
— Então vou me sentar no fundo e escutar.
— Sem falar com jurados.
— Sem falar com jurados — concordou.
A apresentação não foi a noite triunfal que Sofia imaginara.
O coração batia rápido demais, e ela percebeu dois lugares vazios na primeira fila onde esperara encontrar potenciais apoiadores.
Mesmo assim, abriu as plantas, explicou a inclinação da rampa, mostrou o cálculo de drenagem e contou por que preservara as árvores no centro do terreno.
Uma senhora da plateia perguntou se o projeto teria manutenção acessível ao bairro.
Sofia respondeu com um plano de custos dividido em etapas, preparado com a associação de moradores.
Outra pessoa quis saber se a iluminação seria suficiente para quem voltasse do trabalho à noite.
Ela mostrou a revisão feita após uma caminhada com os vizinhos.
Quando terminou, os aplausos foram contidos, mas sinceros.
Sofia não procurou Mateo imediatamente.
Preferiu responder a mais duas perguntas técnicas.
Era exatamente para isso que havia ido.
Mais tarde, já em casa, abriu uma pasta antiga de armazenamento, onde guardava trabalhos de faculdade e contratos encerrados.
Mateo deixou uma xícara de chá na mesa e foi para outro cômodo.
Ele sabia que ela não precisava de alguém examinando cada arquivo por cima de seu ombro.
Depois de quase uma hora, Sofia encontrou a fotografia.
A marca azul estava lá.
Acima dela, o título verdadeiro: Autorização para Reprodução em Mostra Acadêmica.
A data era anterior ao rompimento do noivado.
Havia também uma mensagem enviada à professora Helena Duarte, com o documento anexado e uma descrição dos desenhos expostos.
Sofia separou os arquivos originais e anotou os locais em que estavam armazenados.
Enviou tudo a Teresa com uma explicação breve, pedindo verificação técnica da semelhança.
Às onze e quarenta, chegou uma resposta automática confirmando o recebimento.
Minutos depois, outra mensagem apareceu, desta vez de um número desconhecido.
“Você não sabe tudo o que Lucas mandou colocar no projeto. Preciso falar com você antes que ele apague alguma coisa.”
A mensagem não tinha assinatura.
Mas uma segunda linha revelou quem a enviara.
“Sou eu, Bianca.”
O que Bianca havia ajudado a preparar? Sofia precisava descobrir antes que os registros desaparecessem.
Para saber o que Bianca decidiu revelar, acompanhe a Parte 4.













