Lucas recuou meio passo, como se a distância pudesse desfazer o que acabara de acontecer.
— Senhor Valença? — perguntou, quase num sussurro.
Sofia conhecia aquele tom.
Era a voz que Lucas usava quando precisava agradar alguém importante, a mesma que raramente reservava às pessoas com quem convivia.
— Boa noite, Lucas — respondeu Mateo. — A pergunta era sobre mim, não era?
Bianca pousou a taça sobre uma mesa, tomando cuidado para não fazer barulho.
— Vocês se conhecem? — Sofia perguntou ao marido.
— Tivemos uma reunião no Instituto Travessia, há três semanas. Ele apresentou uma proposta para captar recursos.
Sofia olhou novamente para Lucas.
Durante o noivado, ele criticava qualquer projeto que ela desenvolvesse para espaços comunitários.
Dizia que bancos, árvores e acessibilidade não pagavam contas.
Agora procurava dinheiro justamente com uma instituição conhecida por apoiar intervenções urbanas de interesse social.
— Você trabalha com o instituto? — Bianca perguntou.
— Sou diretor de projetos — respondeu Mateo. — Mas esta noite estou aqui como convidado. E, antes que alguém tire uma conclusão errada, não participo da avaliação da proposta da Sofia.
Sofia já sabia disso.
Ao inscrever seu projeto na mostra, informara por escrito que era casada com um dos diretores de uma instituição patrocinadora.
A organização havia confirmado que sua avaliação seria feita por jurados independentes.
Ela queria que seu trabalho fosse examinado sem favores e sem suspeitas.
— Que coincidência interessante — murmurou Lucas, procurando recuperar o sorriso. — Você se casou muito bem, Sofia.
A frase pareceu sujar o ar entre eles.
— Eu me casei com alguém que me respeita — Sofia respondeu. — Isso não explica o meu trabalho, nem autoriza você a falar assim comigo.
Mateo afrouxou delicadamente a mão dela, deixando que escolhesse se queria permanecer ali.
Sofia não se afastou.
— Lucas — disse Mateo —, depois da reunião, sua equipe recebeu um pedido de esclarecimento sobre os materiais apresentados. A resposta ainda não chegou.
— Os documentos estão sendo organizados.
— Então responda pelos canais indicados. Não precisamos discutir isso diante dos convidados.
Lucas olhou de Mateo para Sofia.
— Você contou alguma coisa a ele sobre mim?
— Quase nada — respondeu ela. — E nada que diga respeito à sua proposta.
Por alguns segundos, a música do salão voltou a ser audível.
O pequeno grupo de curiosos começou a se dispersar, decepcionado com a ausência de um escândalo maior.
Mas Sofia reparou em algo que não conseguia ignorar: Lucas mantinha a pasta de couro apertada contra a perna, com força suficiente para marcar o material.
— Tenho uma apresentação daqui a pouco — disse ela. — Vou trabalhar.
— Sofia, espere — Lucas chamou. — Acho melhor conversarmos antes.
Ela se virou.
— Você acabou de passar vários minutos perguntando sobre a minha vida. Agora quer conversar sobre o quê?
Lucas lançou um olhar rápido para Mateo.
— Sobre arquitetura. Sobre umas ideias antigas.
Antes que ela respondesse, uma mulher de cabelos curtos, usando um crachá da organização, aproximou-se.
— Sofia Andrade? Sou Teresa Paiva, responsável pela integridade das inscrições. Precisamos confirmar um detalhe do seu cadastro.
Sofia sentiu o estômago se contrair.
Aquela era a noite em que apresentaria o Quintal Aberto, seu projeto para transformar um terreno abandonado em espaço de convivência com acesso para idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida.
Ela havia trabalhado com moradores da região para entender o que realmente precisavam, em vez de começar por uma imagem bonita para investidores.
Na primeira visita ao terreno, uma moradora chamada dona Celina apontara a calçada estreita e perguntara como atravessaria aquele trecho quando estivesse com o andador.
Sofia voltara para casa e redesenhara a entrada três vezes.
Guardava ainda as fotografias das medições, os comentários de uma associação de bairro e as versões descartadas, porque cada escolha tinha uma razão concreta.
O Quintal Aberto não era apenas uma ideia de concurso.
Tinha surgido de conversas, obstáculos e pequenas correções que não apareciam nas perspectivas finais.
A possibilidade de alguém reduzi-lo a uma disputa pessoal lhe pareceu mais injusta do que as risadas de Lucas.
Enquanto seguia Teresa, pensou na promessa feita aos moradores: mesmo que nenhum investidor se interessasse, ela voltaria para explicar o resultado com honestidade.
— Aconteceu alguma coisa com o meu projeto? — perguntou.
— Ainda não há nenhuma decisão. Gostaria apenas que verificasse uma informação, em uma sala reservada.
Mateo observou o crachá de Teresa.
— Se for um assunto de inscrição, é melhor eu não acompanhar.
Teresa concordou.
— É exatamente o procedimento que recomendamos.
Sofia agradeceu a Mateo com um olhar e seguiu a funcionária pelo corredor.
Não precisou olhar para trás para perceber que Lucas queria alcançá-la.
Ouviu seus passos, apressados, e a voz de Bianca pedindo que esperasse.
Na sala de apoio, Teresa fechou a porta, mas deixou a persiana de vidro aberta.
Sobre uma mesa havia um computador e uma lista das propostas inscritas naquela edição.
— Recebemos duas apresentações com elementos que parecem relacionados — explicou. — Isso acontece quando profissionais colaboram. O problema é que a documentação conta histórias diferentes.
Sofia franziu a testa.
— Que apresentações?
Teresa abriu primeiro o Quintal Aberto.
Sofia reconheceu suas plantas, a curva de uma rampa contornando duas árvores existentes e o espaço reservado para uma pequena horta coletiva.
A versão mostrada na tela era a que ela enviara oficialmente, com seu nome e suas revisões.
Em seguida, Teresa abriu outro arquivo.
O título era Pátio das Mangueiras.
O nome do responsável: Lucas Martins.
Sofia sentiu um frio repentino.
Na segunda tela apareceu uma planta muito parecida com a primeira versão do projeto que ela desenhara anos antes, quando ainda estava noiva.
Havia diferenças nos acabamentos, na posição dos bancos e na iluminação.
Mas o traçado principal, incluindo a solução improvisada para preservar as árvores, era reconhecível.
— Isso saiu do meu caderno — disse ela.
Teresa não confirmou nem negou.
— Precisamos ouvir as duas partes. Lucas declarou que a concepção original foi desenvolvida em colaboração e que recebeu autorização para utilizá-la.
— Eu nunca dei essa autorização.
— Ele anexou um documento assinado.
Teresa girou o monitor na direção de Sofia.
Era um termo de cessão de uso dos desenhos, datado de quase dois anos antes.
No rodapé, abaixo do nome completo de Sofia, aparecia uma assinatura inclinada que ela conhecia muito bem.
A própria assinatura.
Só que Sofia tinha certeza de uma coisa: jamais assinara aquele termo.
E, olhando melhor para a imagem, percebeu um detalhe no canto inferior da página que lhe trouxe uma lembrança ainda mais inquietante.
Se Lucas tinha usado aquele documento, talvez fosse possível descobrir exatamente de onde o havia tirado.
Para entender por que aquela assinatura aparecia ali, continue na Parte 3.













