Na terça-feira, Laura chegou ao hospital com uma pasta fina e uma expressão que eu já conhecia.
Era a expressão que usava quando uma situação legalmente complicada se tornava moralmente pior.
Colocou os papéis numa mesa longe da minha cama e perguntou se eu aguentaria conversar durante vinte minutos.
O doutor Shah havia autorizado visitas breves, com a recomendação de interrompê-las ao primeiro sinal de exaustão.
— O cartório não registrou nenhuma procuração sua — começou ela.
Mas a secretaria da empresa mandou uma ata preliminar que menciona sua concordância verbal com o empréstimo.
Estendi a mão.
No documento, meu nome aparecia numa reunião ocorrida na quarta-feira, um dia antes de eu desmaiar.
A ata afirmava que eu apoiara uma operação emergencial para proteger os empregos da fábrica.
Não havia assinatura minha, mas a frase fora redigida como se todos os presentes tivessem ouvido minha autorização.
— Eu nunca disse isso.
— É exatamente o que precisamos registrar — respondeu Laura.
Sem concluir, por enquanto, quem escreveu a ata ou por quê.
Naquela quarta-feira, eu realmente estivera na Componentes Ferraz.
Passei uma hora com Otávio Brandão, diretor de operações, exigindo esclarecimentos sobre as entregas faturadas pela Rota Paulista Serviços.
Ele tinha me recebido numa sala de reuniões com uma bandeja de café e um sorriso profissional.
Negou irregularidades, atribuiu as diferenças a erros de classificação e prometeu procurar comprovantes físicos.
Eu me despedira sem aprovar empréstimo algum.
Lembrei-me também de um detalhe banal.
Naquela visita, deixei minha bolsa na sala enquanto acompanhei Otávio até uma área administrativa para consultar os registros de entrada de mercadorias.
Carregava no bolso interno uma pequena nécessaire com medicamentos de uso eventual, incluindo o que tomara na quinta-feira, depois de sair da Halcyon.
Não sabia se alguém tocara nela.
A lembrança merecia ser comunicada aos investigadores, não transformada numa certeza.
— Já avisei Helena sobre a nécessaire — expliquei.
Laura assentiu.
Pediu que eu relatasse a sequência por escrito, com horários aproximados, sem corrigir lembranças que parecessem incompletas.
Era possível que a exposição não tivesse relação com meus comprimidos.
Mas a perícia precisava saber que minha bolsa ficara fora do meu alcance naquele período.
Pouco depois, Tiago tentou me ligar por vídeo.
Recusei a imagem e aceitei somente a voz.
Ele começou dizendo que sentia muito pelo que me acontecera.
Em seguida perguntou se eu podia deixar as questões empresariais para depois e confiar nele por alguns meses.
— Você sabia que eu quase morri? — perguntei.
— Claro que sabia.
O pai disse que os médicos estavam cuidando de você.
— E por que não veio?
Tiago respirou fundo.
Disse que tinha ficado confuso, que a final de futebol fora um desastre e que nossa mãe entrara em pânico depois do jogo.
Não pareceu perceber como aquela explicação soava.
Eu esperei até ele terminar.
— Você poderia ter vindo no dia seguinte.
Ou no outro.
— Eu sei.
Mas não foi por isso que liguei.
A Rota Paulista vai cobrar uma dívida enorme se a assembleia não aprovar o financiamento.
Pela primeira vez, uma informação concreta surgiu sem que eu a pedisse.
Tiago não costumava falar de obrigações financeiras com precisão.
Perguntei quem lhe dissera que o empréstimo estava ligado àquela fornecedora.
— Otávio.
Ele acompanha tudo.
Não é como se a gente pudesse simplesmente fechar a fábrica.
— E o que você fez para ajudar a empresa a chegar a esse ponto?
Ele disse que apenas assinava pedidos encaminhados pela diretoria, porque nosso pai lhe dera essa atribuição.
A frase me deixou mais inquieta do que uma confissão dramática.
Era possível causar danos enormes quando se assinava o que não se entendia.
Depois da ligação, abri a antiga pasta de mensagens do meu avô.
Não havia ali pistas secretas, apenas os registros que guardara do período em que aprendi a acompanhar a administração.
Augusto repetia que o balanço de uma fábrica não se media somente pelo lucro: também se media pelo que se tinha coragem de registrar como prejuízo.
Tiago ria dessa frase quando éramos adolescentes.
Eu a anotara num caderno de capa preta.
No começo da tarde, Helena me explicou que investigadores estavam solicitando oficialmente registros de acesso e de movimentação relacionados à empresa e ao meu trajeto.
Não revelou diligências em andamento.
Disse apenas que minha nova lembrança seria incorporada ao depoimento quando eu estivesse clinicamente apta.
— Não transforme Tiago em culpado porque ele sabia da dívida — advertiu.
Saber de um problema e provocar sua intoxicação são coisas diferentes.
— Eu sei.
Mas não consigo esquecer que ele precisava do meu voto.
— Isso pode ser motivo para pressão financeira.
Não é, sozinho, prova de violência.
Na quarta-feira, a diretoria da Halcyon aceitou meu pedido formal de afastamento médico.
Diego enviou uma mensagem curta dizendo que meus relatórios estavam preservados nos sistemas da empresa, sob responsabilidade de quem tinha autorização para acessá-los.
Não fez perguntas sobre minha família.
A discrição dele foi um alívio.
Laura, por sua vez, notificou a Componentes Ferraz de que eu não havia dado anuência ao empréstimo nem emitido procuração de voto.
Também pediu que a companhia preservasse as atas, os e-mails de convocação e os arquivos originais relacionados à operação.
A notificação não anulava atos por encanto, mas impedia que minha oposição fosse tratada como surpresa futura.
Meu pai respondeu com um telefonema para Laura.
Chamou minha decisão de sabotagem e afirmou que a empresa não resistiria a mais uma semana.
Quando ela explicou que eu estava internada após uma cirurgia de emergência, ele retrucou que eu parecia suficientemente recuperada para contratar advogados.
Laura encerrou a conversa sem levantar a voz.
Mais tarde me contou o essencial, poupando-me os insultos.
Eu agradeci.
Não porque as palavras dele tivessem deixado de doer, mas porque não queria gastar meus primeiros dias de vida recuperada tentando convencê-lo de que eu merecia descanso.
Naquela noite, a enfermeira perguntou se eu desejava manter meu nome fora das informações fornecidas a visitantes.
Havia chegado à recepção uma pessoa que se apresentara como representante da fábrica e insistira em saber quando eu receberia alta.
A equipe não revelara nada.
Eu autorizei a restrição e pedi que o fato fosse registrado.
Não sabia se o visitante agira por curiosidade, por pressão ou por algo pior.
Antes de dormir, recebi de Laura uma cópia integral da ata contestada.
Na última página, alguém escrevera a lápis, junto ao espaço destinado à minha assinatura: “Confirmar pessoalmente na quinta”.
A quinta-feira da minha queda.
Se minha presença era tão necessária, por que alguém já havia preparado um texto afirmando que eu concordara?
A resposta começaria a aparecer na Parte 4.













