No domingo, tentei me sentar sozinha e precisei chamar a enfermagem antes de chegar à metade do movimento.
A cicatriz no abdômen parecia puxar minha pele por dentro.
Havia sobrevivido à cirurgia, mas ainda dependia de ajuda para alcançar um copo de água.
Era difícil conciliar aquela fragilidade com a urgência de pessoas que só queriam minha assinatura.
O doutor Shah entrou depois de verificar meus exames.
Perguntei se a substância encontrada no sangue tinha sido identificada.
Ele explicou que os resultados iniciais apontavam para um composto de uso industrial, mas que a origem da exposição ainda era desconhecida.
A equipe mantinha amostras e registros médicos, e qualquer conclusão sobre crime dependeria de uma investigação própria.
— Isso pode ter acontecido por acidente? — perguntei.
— Não posso descartar essa possibilidade.
O que sei é que houve uma exposição grave e uma emergência que exigiu cirurgia.
Uma coisa não prova automaticamente a outra.
Fiquei aliviada por sua cautela, embora uma parte de mim quisesse que ele apontasse um culpado ali mesmo.
Era mais fácil sentir raiva de um rosto conhecido do que aceitar uma pergunta sem resposta.
Dona Álvarez apareceu naquela tarde com um casaco de lã dobrado sobre o braço.
Disse que não gostava de hospitais, mas que detestava ainda mais a ideia de eu acordar sem uma visita.
Trazia também a cópia do boletim da portaria, que o síndico autorizara a entregar a mim.
O documento registrava o horário em que ela chamara o socorro e a entrada da ambulância.
— Eu devia ter olhado melhor antes — murmurou.
— A senhora me encontrou.
Não devia nada além disso.
Ela apertou meus dedos com cuidado.
Contou que, pouco antes de me ver caída, havia notado uma pessoa atravessando a garagem em direção ao elevador de serviço.
Não sabia dizer se era homem ou mulher, nem se tinha qualquer ligação comigo.
Eu pedi que repetisse apenas o que lembrava, sem tentar preencher as partes vazias.
Aquela distinção importava.
Trabalhava havia anos separando suspeitas de fatos e não pretendia abandonar esse hábito quando os fatos envolviam minha própria família.
Quando dona Álvarez foi embora, liguei para Laura Viana, advogada que me auxiliava desde o inventário do meu avô.
Não éramos amigas íntimas.
Ela tinha, porém, o raro costume de dizer quando uma notícia era ruim, em vez de embrulhá-la em palavras agradáveis.
— Recebi uma mensagem do Roberto Ferraz — contou, depois de ouvir meu relato.
Ele quer uma reunião extraordinária dos acionistas na próxima sexta-feira.
— Sobre o quê?
— Uma operação de crédito com garantia sobre o galpão principal da fábrica.
Pelos estatutos, esse tipo de decisão exige aprovação de pelo menos setenta e cinco por cento do capital votante.
Fiz as contas mentalmente.
Meus pais e Tiago reuniam cinquenta e dois por cento.
Sem meus trinta e oito por cento, não poderiam atingir o quórum necessário, mesmo se os investidores antigos concordassem.
E os investidores, pelo que eu sabia, já vinham questionando as contas.
— Meu pai me falou apenas de documentos de rotina — eu disse.
— Não são de rotina.
Há uma procuração preparada para permitir que Tiago vote por você nessa assembleia e nas seguintes, até que o mandato seja revogado.
O texto também autoriza ratificar atos anteriores da administração.
Pedi que Laura me enviasse uma cópia para leitura, sem encaminhar o arquivo a ninguém.
Mesmo debilitada, reconheci o perigo de uma autorização tão ampla.
Não era uma transferência das minhas ações, mas poderia entregar, na prática, o poder que meu avô fizera questão de reservar a mim.
Meu avô, Augusto Ferraz, tinha mãos ásperas e falava baixo.
Quando me deixou aquela participação, não fez nenhum discurso grandioso.
Disse apenas que, se algum dia uma decisão me parecesse errada, eu deveria ter condições de dizer não.
Durante anos, meu pai tratou a frase como uma ofensa pessoal.
Agora ela parecia a única proteção que Augusto ainda podia me oferecer.
Na segunda-feira cedo, o celular vibrou com uma mensagem de meu colega Diego Nascimento.
Ele trabalhava na equipe de auditoria da Halcyon e era uma das nove pessoas que tinham tentado me localizar.
Escreveu que não acessaria documentos particulares sem minha autorização, mas que havia uma reunião interna para discutir minha ausência e preservar meus projetos.
Respondi apenas que estava viva e em recuperação.
Pedi que não comentasse minha condição com a Componentes Ferraz.
Depois enviei a Helena uma relação dos relatórios de transações que eu já havia apresentado à investigação antes de ficar doente.
Havia pagamentos repetidos para uma fornecedora chamada Rota Paulista Serviços, embora os comprovantes de entrega fossem vagos ou duplicados.
O dinheiro passara por contratos ligados a fornecimentos para órgãos federais, razão pela qual Helena acompanhava o caso com investigadores competentes.
Eu não podia provar que todo pagamento era fraudulento.
Podia provar que as perguntas feitas aos administradores nunca tinham recebido respostas satisfatórias.
Helena me telefonou por um canal reservado.
— Você tem que deixar a coleta de provas com a equipe — disse.
Não procure câmeras por conta própria, nem peça a alguém para entrar nos sistemas da empresa.
— Não quero atrapalhar a investigação.
Só quero saber por que minha família está com tanta pressa.
— Então documente as mensagens que recebeu e deixe Laura cuidar da parte societária.
Sobre a substância, vamos solicitar as perícias pelos procedimentos legais.
Concordei, apesar da impaciência.
Não seria possível recuperar a saúde ou a verdade pela força da vontade.
Naquela noite, meu pai ligou.
Foi a primeira vez desde o acidente que ouvi sua voz dirigida a mim.
Ele perguntou se eu estava lúcida o bastante para entender a proposta da fábrica.
Não perguntou se eu sentia dor, se conseguia dormir ou se havia recebido notícias sobre a intoxicação.
— Estou lúcida, pai.
Por isso não vou assinar sem uma análise independente.
— Você sempre dificulta tudo.
O Tiago precisa de uma oportunidade para demonstrar serviço.
— Uma oportunidade não exige que eu entregue meu voto.
Houve um silêncio curto.
Em seguida ele disse que, se a fábrica afundasse, a responsabilidade seria minha.
Desligou antes que eu respondesse.
Mais tarde, Laura me chamou para apontar uma cláusula que não percebêramos na primeira leitura.
A minuta da procuração trazia uma referência a entendimentos estabelecidos na manhã da quinta-feira em que eu desmaiara.
Segundo ela, isso podia ser apenas linguagem de um rascunho anterior, sem qualquer valor de prova sobre o que ocorrera depois.
Mesmo assim, confirmei que nunca participara de reunião alguma naquela manhã.
Pela primeira vez, tive de considerar duas perguntas separadas.
Quem havia colocado minha vida em risco?
E quem já estava organizando maneiras de usar minha ausência?
Para descobrir por que a quinta-feira aparecia naquele documento, acompanhe a Parte 3.













