A palavra noiva ficou suspensa entre nós.
Olhei para Felipe e esperei que ele dissesse que aquilo era um mal-entendido.
Ele não disse.
Pediu apenas que Marcos desligasse o telefone antes que novas mensagens chegassem.
— Não desliga — falei. — Quero entender por que alguém está esperando minha assinatura num lugar aonde eu nunca concordei em ir.
Felipe passou a mão pelo cabelo, desalinhando o penteado que havia arrumado para as fotografias.
— Eu precisava resolver uma pendência. Se você me ouvisse sem sua irmã aqui, entenderia.
— Então resolva na frente dela.
Meu pai se levantou.
A sala parecia menor a cada minuto, mas pela primeira vez ninguém interrompeu minha pergunta.
— Quanto você deve? — perguntei.
Felipe hesitou.
— Não é tão simples.
— Quanto?
— Cento e oitenta mil reais, contando juros e encargos.
Senti as pernas enfraquecerem.
Havíamos planejado uma lua de mel modesta porque ele dizia que precisávamos começar a vida sem dívidas.
Nas últimas semanas, insistira para que eu vendesse minha moto e juntasse minhas economias às dele, num investimento que daria entrada num apartamento.
Eu recusara, preferindo esperar até o fim do ano.
Ele parecera magoado.
Agora eu entendia o motivo da insistência.
— Você queria que eu assumisse a sua dívida? — perguntei.
— Queria que você me ajudasse a negociar um prazo.
Marcos olhou para mim.
— O senhor Felipe disse ao Sérgio que a senhora iria assinar como garantidora. Eu ouvi quando eles falaram do encontro.
— Isso não estava no nosso combinado — Felipe retrucou.
— O desvio também não estava no meu — respondi.
Marcos abriu a conversa que mantinha com Felipe e mostrou outra mensagem.
Ele escrevera ao motorista que eu estaria feliz demais depois da cerimônia para discutir um documento.
A frase fora enviada na noite anterior.
Havia um horário, anterior a qualquer coisa que acontecera na porta da igreja.
Não dava para alegar que tudo havia sido pensado às pressas.
— O que você pretendia me dizer quando chegássemos ao galpão? — perguntei.
Felipe respondeu com uma calma ensaiada.
— Que um problema antigo precisava de nós dois. Você me ama, Camila. Eu achei que poderíamos atravessar isso juntos.
— Amar alguém não significa assinar uma dívida que a pessoa escondeu — falei.
Ele ficou vermelho.
Meu pai pediu para ver a mensagem de Sérgio novamente.
Marcos mostrou a tela, sem entregar o aparelho.
No histórico havia uma fotografia de um recibo de compra e venda do Opala.
A assinatura atribuída a Antônio estava no rodapé, embora ele jamais tivesse encontrado aquele homem ou autorizado a negociação.
— É uma imitação — meu pai disse, aproximando o rosto. — Até o meu segundo sobrenome está errado.
Felipe tentou minimizar.
— Isso era só uma garantia informal. Ninguém ia transferir o carro de verdade.
— Você mostrou um documento com minha assinatura falsificada — Antônio respondeu. — Não importa o nome que dê a isso.
Foi Marina quem sugeriu que parássemos de discutir e preservássemos os arquivos.
Ela pediu a Marcos que encaminhasse a conversa original e o endereço do galpão para o próprio advogado, sem apagar as mensagens.
Meu pai fotografou os dados que o motorista concordou em mostrar e anotou os nomes dos presentes.
Não se tratava de decidir uma condenação ali, numa sala de igreja.
Precisávamos registrar o que cada um havia visto, para que a apuração não dependesse das nossas lembranças.
Lúcia perguntou se seria melhor chamar a polícia.
Meu pai disse que faria um boletim de ocorrência e não deixaria o Opala circular.
Felipe respondeu que nós estávamos transformando uma dívida civil em crime.
— Quem vai decidir isso não é você nem eu — meu pai retrucou. — Mas o carro continua comigo.
Eu ainda segurava o buquê.
As flores estavam amassadas de tanto que meus dedos as apertavam.
Lúcia tentou pegá-las, e eu pedi mais um minuto.
Não queria que tirassem de mim nem aquele pequeno peso sem que eu escolhesse soltá-lo.
Voltei para Felipe.
— E o dinheiro da oficina?
Ele fechou os olhos.
— Eu ia devolver.
A resposta saiu antes que ele pudesse pensar numa versão mais conveniente.
Marina levou a mão à boca.
Meu pai ficou imóvel.
— Então foi você — falei.
— Fiz uma transferência porque o negócio estava num momento ruim. Eu precisava cobrir uma perda e ia repor tudo. Quando o Antônio percebeu, eu entrei em pânico.
— E culpou minha irmã.
— Você não sabe a pressão que eu estava sofrendo.
Aquela era a primeira vez que eu o ouvia admitir qualquer participação.
Não resolvia todas as perguntas, e nenhuma palavra dele dispensaria uma verificação dos registros.
Mas explicava o esforço para nos manter afastadas.
Enquanto minha irmã fosse a culpada, ninguém procuraria outra pessoa.
— Você viu Marina perder a própria família — falei. — E deixou acontecer.
Felipe abriu a boca, depois desistiu de responder.
Não houve pedido de desculpas.
Talvez ele soubesse que, naquele instante, pedir perdão teria parecido apenas mais uma negociação.
Meu pai se aproximou de Marina.
— Eu deveria ter conferido os extratos. Eu deveria ter ouvido você.
Ela enxugou o rosto com as costas da mão.
— Eu pedi tantas vezes, pai.
— Eu sei.
Eu não quis interromper.
Aquele reencontro não me pertencia sozinha.
No corredor, ouvi passos e um murmúrio de vozes.
Uma parente queria saber se a festa começaria no horário.
A gerente do espaço de recepção já ligava para Lúcia, perguntando quando os noivos chegariam.
Os músicos estavam prontos, a comida seria servida, e havia pessoas viajadas de outras cidades esperando por nós.
Felipe se aproximou de mim, mais baixo.
— Camila, não precisamos expor isso. Podemos ir à festa e conversar amanhã. Eu prometo que resolvo tudo.
Era quase a mesma frase que usara quando Marina foi embora.
Amanhã eu explico.
Depois a gente conversa.
Deixa isso passar.
Tirei a aliança e a coloquei na palma da minha mão.
— Você não vai usar o silêncio de todo mundo para ganhar mais um dia — respondi.
Pedi a Lúcia que avisasse à gerente que eu estava a caminho, sozinha.
Meu pai perguntou se eu tinha certeza.
Olhei para a porta aberta e para o corredor por onde deveria ter seguido feliz, sem desconfiar de nada.
— Não tenho certeza de quase nada — falei. — Mas eu mesma vou dizer que não haverá comemoração.
Os convidados ainda esperavam um discurso dos recém-casados.
Eu teria de encontrar palavras para encerrar uma festa sem transformar minha irmã numa nova notícia de família.
Para saber o que escolhi contar diante de todos e como enfrentei as consequências, continue na Parte 5.













