— Ajoelhe e limpe isso agora!
Valéria Monteiro apontou para o chão de mármore, onde uma poça de champanhe se espalhava perto dos meus sapatos.
O que ninguém parecia querer admitir era que ela mesma havia derramado a bebida.
Eu estava recolhendo as taças quando Valéria inclinou a sua de propósito.
O líquido escorreu até meus pés.
Depois, ela pegou um guardanapo branco da mesa e o jogou no chão.
— Está esperando o quê, Isabela? Que eu faça o seu trabalho?
Alguns convidados riram discretamente.
Outros desviaram os olhos.
Senti meu rosto esquentar.
Meu nome é Isabela Santos. Tenho 24 anos e trabalho há quatro anos na mansão de Rodrigo Azevedo, no Morumbi, em São Paulo.
Naquela noite, a casa estava cheia de convidados.
Valéria, noiva de Rodrigo, havia organizado uma recepção para comemorar a proximidade do casamento.
Ela usava um vestido vermelho de tecido brilhante, joias caras e um anel de diamante que fazia questão de mostrar sempre que podia.
Rodrigo estava em outro evento naquela noite.
Por isso, Valéria parecia particularmente à vontade para dar ordens.
Desde que começara a frequentar a mansão, seu comportamento mudava completamente quando ele saía.
Na presença dele, era gentil.
Agradecia aos funcionários, sorria para os convidados e falava sobre a importância de tratar todos com respeito.
Assim que ficávamos sozinhos, parecia outra pessoa.
Naquela noite, entretanto, havia algo diferente.
Valéria não estava apenas sendo exigente.
Estava tentando me humilhar diante de todos.
— Eu mandei você se ajoelhar — repetiu.
Abaixei os olhos para a poça.
— Dona Valéria, eu posso buscar um pano adequado. Assim não estrago o piso.
Ela soltou uma risada.
— Agora a empregada resolveu me ensinar a cuidar da minha casa?
Não respondi.
— Olhe para mim quando estou falando com você!
Levantei a cabeça.
— Desculpe, senhora.
— Quando eu me casar com Rodrigo, muita coisa vai mudar aqui. E pode começar por funcionários que não sabem obedecer.
Uma mulher próxima da escadaria levou a taça aos lábios e fingiu não ouvir.
Um homem mais velho observou a cena por alguns segundos antes de se virar para conversar com outra pessoa.
Ninguém disse uma palavra.
Eu conhecia aquela casa.
Sabia onde Rodrigo guardava os livros, como gostava que o café fosse servido e por qual corredor preferia caminhar quando voltava cansado.
Nunca o vi exigir que um funcionário se ajoelhasse diante dele.
Mas Valéria agia como se o casamento lhe desse o direito de transformar todos em seus subordinados pessoais.
— Pegue o guardanapo — ordenou.
Respirei fundo.
Eu precisava daquele emprego.
Não queria criar uma discussão diante de tantas pessoas.
Então me inclinei para recolher o tecido que ela havia jogado.
— Isso. Assim está melhor — disse Valéria.
Ouvi outra risada.
Minhas mãos começaram a tremer.
O tecido branco já estava molhado quando Valéria se aproximou ainda mais.
— Sabe qual é o seu problema, Isabela? Você se acostumou a ser tratada bem demais nesta casa.
Continuei em silêncio.
— Rodrigo tem um coração enorme. Mas alguém precisa ensinar limites aos empregados.
A palavra limites ficou ecoando na minha cabeça.
Ela estava falando comigo como se eu não fosse uma pessoa.
E o pior era perceber que dezenas de convidados assistiam àquilo sem demonstrar qualquer indignação.
— Talvez eu devesse procurar outro emprego — murmurei, mais para mim mesma.
Valéria ouviu.
— Como é?
Endireitei as costas.
— Eu só quero terminar meu serviço, senhora.
Ela sorriu.
— Você vai terminar quando eu disser que terminou.
Então apontou novamente para o chão.
— De joelhos. Quero esse mármore limpo.
Eu estava prestes a responder quando ouvi um som vindo do corredor principal.
Toc.
Depois outro.
Toc.
Era um som seco e ritmado, quase abafado pela música que vinha do salão.
Eu conhecia aquele som.
Uma bengala apoiando-se no mármore.
Levantei lentamente a cabeça.
Rodrigo Azevedo apareceu na entrada do saguão.
Usava um terno azul-escuro e segurava uma bengala de madeira com cabo prateado.
Ele deveria voltar muito mais tarde.
Mas estava ali.
E, pela expressão em seu rosto, tinha acabado de presenciar a cena.
Valéria ainda não havia percebido.
— Isabela! — gritou. — Estou falando com você!
Foi então que Rodrigo respondeu:
— Eu também estou, Valéria.
O salão pareceu congelar.
Ela virou a cabeça.
Seu sorriso desapareceu por uma fração de segundo.
Logo depois, tentou recuperá-lo.
— Rodrigo! Meu amor! Você voltou cedo!
Deu dois passos em sua direção, abrindo os braços.
Ele não correspondeu ao gesto.
Seus olhos estavam fixos no guardanapo molhado que eu segurava.
Depois, na poça de champanhe.
Por fim, em mim.
— Isabela, levante-se.
Fiquei sem saber o que fazer.
— Senhor Rodrigo, eu…
— Por favor, levante-se.
Sua voz era calma.
Mas havia uma firmeza nela que eu raramente tinha ouvido.
Obedeci.
Valéria soltou uma risada nervosa.
— Amor, você não está entendendo. Houve um pequeno problema com o serviço. Eu só estava tentando ensinar a ela…
Rodrigo ergueu uma das mãos.
Valéria se calou.
Ele caminhou até ficar entre nós, apoiando o peso na bengala.
Olhou diretamente para a própria noiva.
— Foi assim que você tratou a Isabela enquanto eu estava fora?
— Rodrigo, não faça uma cena na frente dos convidados.
— Eu estou fazendo uma cena?
Valéria olhou rapidamente ao redor.
As pessoas que antes fingiam não ouvir agora acompanhavam cada palavra.
— Ela foi desrespeitosa comigo — respondeu, tentando recuperar a confiança. — Você precisa entender que, depois do casamento, eu também vou ter autoridade nesta casa.
Rodrigo permaneceu imóvel.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então ele baixou os olhos.
Não para o vestido dela.
Nem para o chão molhado.
Mas para o anel de diamante em sua mão esquerda.
Valéria acompanhou aquele olhar.
Instintivamente, fechou os dedos sobre a joia.
— Rodrigo…?
Ele ergueu o rosto.
Sua expressão não demonstrava raiva descontrolada.
Parecia muito pior.
Era a expressão de alguém que havia tomado uma decisão.
— Valéria, pode tirar esse anel.
Vi a cor desaparecer do rosto dela.
Seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu.
Ao redor, os convidados se entreolharam.
E eu fiquei parada, ainda segurando o guardanapo molhado, sem acreditar no que acabara de ouvir.
Por que Rodrigo havia decidido dizer aquilo diante de todos? E o que Valéria faria agora?













