— Nesse carro você não entra!
Meu pai bateu a porta do carro dos noivos um segundo antes de eu conseguir entrar.
O barulho foi tão alto que várias pessoas paradas na frente da igreja se viraram.
Fiquei olhando para ele, sem entender.
— Pai, o que você está fazendo?
Antônio Duarte nunca tinha sido um homem de fazer escândalo.
Durante toda a cerimônia, ele havia se comportado como sempre.
Me levou até o altar.
Apertou a mão de Felipe.
Sorriu para as fotografias, o que já era quase um milagre.
Mas agora estava parado ao lado do carro, com uma das mãos apoiada na porta e uma expressão que eu nunca tinha visto.
— Você não vai entrar, Camila.
— Mas por quê?
Ele não respondeu.
Atrás de mim, ouvi a voz de Lúcia, minha melhor amiga.
— Camila, aconteceu alguma coisa?
Eu gostaria de saber.
A cerimônia havia terminado fazia menos de dez minutos.
Meu marido, Felipe Azevedo, ainda cumprimentava alguns parentes na escadaria da igreja.
O Chevrolet Opala antigo, restaurado especialmente para o casamento, nos levaria ao espaço onde aconteceria a recepção.
Tudo estava organizado.
Os convidados já estavam saindo.
As fotografias tinham sido tiradas.
Eu deveria estar vivendo um dos dias mais felizes da minha vida.
Em vez disso, meu pai estava me proibindo de entrar no carro.
— Pai — falei, abaixando a voz. — Está todo mundo olhando.
Ele nem se mexeu.
— Melhor assim.
Senti um arrepio.
— Melhor por quê?
Antes que ele respondesse, Felipe percebeu a movimentação e veio até nós.
— O que está acontecendo aqui?
Meu pai olhou rapidamente para ele.
— Nada.
Felipe soltou uma risada nervosa.
— Não parece nada. Camila está pálida.
— Porque ninguém está me explicando coisa alguma! — respondi.
Lúcia se aproximou um pouco mais.
— Seu Antônio, o senhor pode pelo menos dizer por que ela não pode entrar no carro?
Meu pai abriu novamente a porta traseira.
Por um instante, achei que finalmente fosse me deixar entrar.
Mas ele nem olhou para mim.
Abaixou a cabeça e examinou a parte de baixo do banco.
Marcos, o motorista contratado para o casamento, deu um passo à frente.
— Senhor, posso ajudar?
— Não.
Marcos se aproximou mesmo assim.
— Não tem nada aí embaixo.
Meu pai parou.
Virou o rosto lentamente para o motorista.
— Eu não perguntei se tinha alguma coisa.
Marcos ficou em silêncio.
Foi naquele momento que comecei a sentir medo de verdade.
Não porque imaginasse que existia algo perigoso dentro do carro.
Mas porque o comportamento daquele homem tinha mudado completamente.
Eu o conhecera naquela manhã.
Até então, ele havia sido educado, discreto e profissional.
Agora parecia preocupado demais com o que meu pai estava fazendo.
— Pai, o que você está procurando?
Ele não respondeu.
Abaixou-se mais e esticou o braço para debaixo do banco traseiro.
Felipe perdeu a paciência.
— Antônio, já chega. Se o senhor tem algum problema comigo, a gente conversa depois. Não precisa estragar o casamento na frente de todo mundo.
Meu pai continuou procurando.
Então puxou alguma coisa.
Um celular.
Preto.
Sem capinha.
Fiquei confusa.
— Esse celular não é meu.
Meu pai ergueu os olhos.
— Eu sei.
Aquelas duas palavras me deixaram ainda mais desconcertada.
— Como você sabe?
Antes que ele respondesse, o aparelho vibrou.
A tela acendeu.
Meu pai virou o celular na minha direção.
Havia onze chamadas perdidas.
Todas do mesmo contato.
Me aproximei.
No primeiro instante, enxerguei apenas os números.
Depois vi o nome.
Senti meu estômago se contrair.
Li novamente.
Não podia ser.
Eu conhecia aquele nome.
Conhecia muito bem.
Mas não fazia sentido vê-lo naquele celular, escondido debaixo do banco do carro que levaria meu marido e eu para a nossa festa de casamento.
— Camila? — Lúcia chamou.
Eu não respondi.
Felipe estendeu a mão para pegar o aparelho.
Meu pai afastou o braço imediatamente.
— Não encosta.
— Isso é ridículo! — Felipe reclamou.
Mas havia algo diferente na voz dele.
Não parecia indignação.
Parecia nervosismo.
— De quem é esse celular? — perguntei.
— Não faço ideia — ele respondeu depressa.
Olhei diretamente para Felipe.
— Não foi isso que eu perguntei.
O celular vibrou novamente.
O mesmo contato.
Décima segunda chamada.
Marcos deu meio passo para trás.
Eu vi.
Meu pai também.
— Marcos — meu pai chamou.
O motorista levantou as duas mãos.
— Eu não sei de nada!
Meu pai o encarou.
— Eu ainda não fiz nenhuma pergunta.
Ninguém disse mais nada.
Os convidados que estavam mais longe continuavam conversando, sem entender o que acontecia.
Mas as pessoas próximas de nós já tinham parado de fingir que não estavam ouvindo.
O vento movimentou a barra do meu vestido.
Eu ainda segurava o buquê.
A aliança nova brilhava no meu dedo.
Tudo parecia absurdamente normal para um momento em que meu casamento começava a desmoronar.
Meu pai me entregou o telefone, mas continuou ao meu lado.
Olhei para a tela outra vez.
O nome ainda estava lá.
Um nome que eu jamais esperaria encontrar naquela situação.
Um nome que trouxe de volta lembranças que não tinham absolutamente nada a ver com aquele dia.
Levantei lentamente a cabeça.
Felipe estava olhando para o chão.
— Felipe.
Ele não respondeu.
— Olha pra mim.
Meu marido ergueu os olhos por um instante.
Depois desviou o olhar.
E foi aquele pequeno gesto que me assustou mais do que o telefone, as chamadas ou o comportamento do motorista.
Felipe sabia de alguma coisa.
Eu ainda não tinha como provar o quê.
Mas conhecia o homem com quem acabara de me casar.
Sabia quando estava escondendo alguma coisa.
Ergui o celular entre nós.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Felipe, por que essa pessoa está ligando pra você?













