O nome na tela era Marina Duarte.
Minha irmã mais nova.
Havia três anos que eu não ouvia a voz dela, e quase o mesmo tempo que seu número estava bloqueado no meu celular.
Por um segundo, o barulho da rua desapareceu.
Voltei a uma tarde na oficina de meu pai, quando Marina saiu carregando uma mochila e ouviu, sem se defender, que não era mais bem-vinda ali.
— Por que ela está ligando? — repeti.
Felipe apertou os lábios.
— Camila, você não sabe o que está pensando.
— Então me explica.
Ele estendeu a mão novamente.
— Me dá isso antes que ela invente outra história.
Eu me afastei.
Não sabia se temia mais o que minha irmã diria ou a facilidade com que Felipe já estava tentando desacreditá-la.
Toquei no ícone verde e coloquei a ligação no viva-voz.
— Alô?
Houve um soluço do outro lado.
Depois, uma voz conhecida, rouca de tanto insistir.
— Camila? É você mesmo?
Minha garganta se fechou.
Eu havia imaginado dezenas de reencontros com Marina, quase todos terminando numa discussão.
Nenhum incluía meu vestido de noiva e um telefone escondido.
— Sou eu. Por que está ligando para este número?
— Porque é o único em que ele me atende.
Felipe deu um passo em nossa direção.
— Marina, desliga agora.
— Não — respondi, antes que minha irmã pudesse falar. — Você vai ficar onde está.
Do outro lado, ouvi Marina inspirar profundamente.
— Camila, não entre nesse carro. O Marcos recebeu outra rota.
Olhei para o motorista.
Ele apertava a chave entre os dedos com tanta força que os nós estavam brancos.
— Que rota? — perguntei.
— Um galpão na estrada velha, antes da recepção. Felipe precisa entregar o Opala para um homem chamado Sérgio.
Meu pai segurou a maçaneta da porta, mas desta vez não a fechou.
— Marina, você consegue chegar aqui? — perguntou.
A pausa que se seguiu pareceu durar mais do que a cerimônia inteira.
— Pai?
Era a primeira vez que ela o chamava assim diante de mim em três anos.
Ele olhou para o chão por um instante.
— Consegue ou não?
— Estou a cinco minutos da igreja. Tenho os papéis.
Felipe soltou uma risada curta, sem alegria.
— Papéis? Aquela menina passou anos tentando se vingar de mim.
— Marina não é uma menina — falei. — E você ainda não explicou o que significa entregar o carro.
Foi Marcos quem respondeu, quase num sussurro.
— Eu só ia dirigir até o lugar combinado.
Felipe virou o rosto para ele.
— Cala a boca.
Meu pai não levantou a voz.
— A chave, Marcos.
O motorista hesitou, depois a colocou na palma da mão dele.
Felipe avançou, mas Lúcia entrou entre os dois.
— Ninguém vai sair daqui com esse carro — ela disse.
Pedi a Marina que não desligasse.
Eu precisava ouvir sua respiração para acreditar que aquela conversa estava acontecendo.
— Quem é Sérgio? — perguntei.
— Um homem que cobra uma dívida de Felipe. Ele aceitou ficar com o Opala como garantia, pelo menos até receber o restante.
Olhei para a pintura azul do carro, para os frisos cromados que meu pai tinha passado meses restaurando.
O automóvel pertencera ao meu avô.
Depois da morte dele, ficara parado quase uma década sob uma capa, até meu pai decidir recuperá-lo para o casamento.
Felipe elogiara a ideia mais do que qualquer outra pessoa.
Eu me lembrava disso agora.
— O carro nem é dele — murmurei.
— Eu sei — respondeu Marina.
Uma buzina soou ao fundo da ligação.
Ela estava realmente na rua, vindo até nós.
— E por que você não me procurou? — perguntei, sentindo uma raiva antiga despertar.
— Procurei. Você bloqueou meu número, meus e-mails voltavam sem resposta, e as mensagens que deixei com Felipe nunca chegaram.
Essa última frase me atingiu.
Por anos, meu marido dissera que Marina só queria dinheiro.
Sempre que eu perguntava por ela, ele respondia que era melhor deixar o passado quieto.
— Meu pai sabia disso? — perguntei.
Antônio colocou a chave no bolso.
— Recebi uma mensagem dela pouco antes de você sair da igreja. Dizia para eu não deixar você entrar no Opala.
— E acreditou?
— Não sabia se devia acreditar. Mas tinha visto Marcos se abaixar junto ao banco quando fui buscar o lenço que deixei no carro. Depois ele ficou me impedindo de chegar perto.
Meu pai me olhou diretamente.
— Eu não ia entregar você a uma situação que não entendia.
Quis abraçá-lo e gritar com ele ao mesmo tempo.
Se Marina estava dizendo a verdade, talvez meu pai tivesse impedido algo muito pior.
Mas ele também sabia que aquela família já havia errado ao decidir depressa quem merecia confiança.
Lembrei que, na semana anterior, Felipe insistira para que eu não levasse meu telefone na saída da igreja.
Dissera que seria bonito passar o trajeto inteiro olhando a cidade, sem mensagens nem notificações.
Na época achei romântico.
Agora me perguntei se ele queria apenas que eu estivesse incomunicável quando Marcos mudasse o caminho.
A lembrança me causou vergonha, não por ter acreditado numa gentileza, mas por ter transformado tantas pequenas decisões dele em provas de amor.
Eu nunca exigira explicações sobre os horários em que sumia, as ligações que atendia na varanda ou as vezes em que recusava visitar a oficina do meu pai.
Felipe puxou o próprio celular do paletó.
— Vou ligar para meu advogado. Isso é uma acusação absurda.
— Ligue — respondi. — Mas o meu pai vai guardar este aparelho e o Marcos vai ficar aqui até a gente entender o que aconteceu.
Lúcia pediu que duas pessoas próximas se afastassem e avisou ao fotógrafo para não registrar a discussão.
O gesto me deu um pouco de ar.
Eu ainda era uma mulher num vestido de noiva cercada de olhares, não um espetáculo disponível para qualquer um.
Marina disse que estacionaria na esquina.
Antes de desligar, falou algo quase inaudível.
— Camila, eu não voltei por causa do carro.
— Então por quê?
— Porque encontrei o comprovante que Felipe mostrou quando disse que eu roubei o dinheiro do pai.
Olhei para meu marido.
Ele havia parado de tocar na tela do celular.
— E daí? — perguntei.
A voz de Marina tremeu.
— O comprovante tem um nome que você precisa ver. Não é o meu.
Não soube responder.
Três anos antes, eu vira aquele mesmo papel sobre a mesa da oficina e aceitara que minha irmã tinha destruído nossa família.
Agora, com minha aliança ainda nova no dedo, comecei a entender que talvez eu tivesse me casado com o homem que ajudara a nos separar.
Para descobrir de quem era a conta que aparecia no comprovante, continue na Parte 3.













