Por alguns segundos, Valéria continuou olhando para Rodrigo como se esperasse que ele voltasse atrás.
Eu também esperei.
Não porque quisesse que ele desistisse, mas porque era difícil acreditar que uma ordem tão simples pudesse interromper quatro meses de preparativos para um casamento.
— Você está brincando comigo? — ela perguntou, enfim.
— Não.
A resposta foi curta.
Perto da porta, um garçom contratado para a festa abaixou a bandeja que segurava.
A música continuava tocando, mas ninguém parecia escutá-la.
— Por causa de um guardanapo? — Valéria apontou para minha mão. — Vai jogar nosso futuro fora por causa disso?
Rodrigo olhou para o tecido molhado.
— Não é o guardanapo.
— Então diga o que é.
— Você exigiu que uma pessoa se ajoelhasse para agradar você. Eu ouvi. E ouvi quando ameaçou o emprego dela.
Valéria cruzou os braços.
— Você chegou no meio da conversa.
— Cheguei cedo o suficiente.
A princípio, ninguém se moveu.
Depois, uma convidada procurou a bolsa, outra pediu o carro e um casal atravessou o salão falando baixo.
Rodrigo pediu ao responsável pela música que encerrasse a apresentação.
A festa, que minutos antes parecia interminável, começou a se desfazer diante de mim.
Valéria percebeu que perdia a plateia.
Mudou imediatamente o tom.
— Amor, eu estava nervosa. A organização ficou toda nas minhas costas. Você sabe como essas semanas foram difíceis.
Ela tentou segurar a mão livre dele.
Rodrigo a afastou sem brutalidade.
— Estar nervosa não explica o que você disse.
— Você nunca me deixa corrigir os funcionários.
— Corrigir não é humilhar.
Eu queria sair dali.
Não suportava continuar no centro de uma discussão que parecia acontecer sobre minha cabeça.
Apertei o guardanapo e procurei dona Marta, a governanta, perto da passagem para a cozinha.
Ela trabalhava naquela casa havia onze anos e me ensinara quase tudo quando fui contratada.
Seu rosto mostrava a mesma preocupação que eu sentia.
— Senhor Rodrigo, posso voltar ao serviço? — perguntei.
Ele se virou para mim.
— Você não precisa terminar essa limpeza.
— Mas alguém vai precisar.
Rodrigo respirou devagar, como se aquela resposta lhe dissesse algo desagradável sobre a maneira como a casa funcionava.
— Tem razão. Vou providenciar isso sem colocar você de volta nessa situação.
Dona Marta se aproximou e pediu a outro funcionário que buscasse o material adequado.
Eu entreguei o guardanapo, finalmente.
Meus dedos ficaram livres, mas continuaram tremendo.
Valéria aproveitou o momento para falar mais baixo.
— Rodrigo, podemos conversar a sós? Minha mãe já enviou convites. O salão está pago. Não faça uma coisa irreversível diante de pessoas que vão comentar isso amanhã.
— Você fez questão de expor a Isabela diante dessas mesmas pessoas — ele respondeu. — Não vou fingir que nada aconteceu quando elas saírem.
A frase atingiu Valéria mais do que qualquer grito.
Seu olhar passou por mim e voltou ao dele.
— Então é isso? Você acredita mais nela do que em mim?
— Estou acreditando no que vi.
Rodrigo apoiou a bengala no chão e apontou para o aparador junto à escadaria.
— Deixe o anel ali, por favor.
Valéria demorou a obedecer.
Primeiro, olhou para a joia como se o diamante pudesse protegê-la.
Depois, puxou o anel do dedo e o colocou sobre a madeira com força.
— Está satisfeito? — perguntou.
— Não. Estou triste por descobrir isso agora.
Ela pegou a bolsa e caminhou em direção à saída.
Antes de alcançar a porta, parou diante de mim.
— Parabéns, Isabela. Espero que esteja orgulhosa do que conseguiu.
Minha vontade foi pedir desculpas, um reflexo que eu conhecia bem.
Mas não havia nada pelo que me desculpar.
— Eu só pedi para usar um pano de limpeza, dona Valéria.
Foi a primeira vez naquela noite que consegui sustentar o olhar dela.
Valéria desviou o rosto e saiu.
Eu não comemorei.
Havia copos por recolher, colegas assustados e a sensação incômoda de que, mesmo fora da casa, ela ainda podia alcançar minha vida.
Rodrigo pediu a dona Marta que liberasse quem já tivesse cumprido seu horário.
Depois, perguntou se eu gostaria de conversar naquela noite ou no dia seguinte.
Escolhi o dia seguinte.
Ele concordou sem insistir.
No vestiário, sentei num banco enquanto trocava os sapatos.
Dona Marta entrou carregando minha bolsa.
— Eu devia ter falado — disse ela.
— A senhora não foi a única que ficou em silêncio.
— Não quero que pense que achei aquilo normal.
Eu sabia que ela não achara.
Também sabia que trabalhava naquela casa para sustentar o marido doente e uma neta.
O medo não desaparecia só porque alguém tinha razão.
Antes de sair, consultei o celular.
Havia três mensagens de minha mãe perguntando se eu chegaria para jantar.
Eu estudava à noite duas vezes por semana e ajudava em casa com quase tudo que sobrava do salário.
Naquela noite, estava exausta demais para explicar o ocorrido.
Respondi apenas que chegaria tarde.
Ao passar pelo corredor do escritório, encontrei Rodrigo conversando ao telefone.
Ele fez um gesto pedindo um instante.
— Isabela, desculpe incomodar agora. A administração me encaminhou uma mensagem estranha.
Senti o estômago apertar.
— Que mensagem?
— Um pedido de desligamento em seu nome, enviado hoje à tarde. Estão aguardando minha confirmação.
— Eu não pedi demissão.
Rodrigo desligou a chamada e me mostrou a tela.
O documento trazia meu nome completo, a data daquela manhã e, no rodapé, uma assinatura muito parecida com a minha.
— Também não assinei isso — falei.
Ele ampliou a imagem.
— Você reconhece quem pode ter feito?
Reconheci uma frase escrita logo acima da assinatura: “Por motivos pessoais, solicito meu desligamento imediato”.
Era exatamente a frase que Valéria havia sugerido que eu decorasse, duas semanas antes, quando disse que funcionários insatisfeitos deveriam sair sem causar problemas.
Na época, achei que fosse apenas outra ameaça.
Agora entendia que ela talvez estivesse preparando algo.
— Senhor Rodrigo, preciso saber de onde veio esse papel.
Ele assentiu.
— E você vai saber. Ninguém vai encaminhá-lo sem verificar.
Pela primeira vez naquela noite, a possibilidade de perder o emprego deixou de ser apenas uma ameaça dita diante de convidados.
Alguém já havia colocado minha saída no papel, usando uma assinatura que não era minha.
Quem tinha preparado aquele documento, e até onde Valéria estava disposta a ir? Para acompanhar a descoberta, continue na Parte 3.













