Na manhã seguinte, acordei antes do despertador.
Minha mãe já estava na cozinha, preparando café, quando me viu entrar.
Ela percebeu meus olhos inchados, mas esperou que eu me sentasse.
— Aconteceu alguma coisa naquela casa?
Contei sobre o champanhe, o guardanapo e a chegada inesperada de Rodrigo.
Quando mencionei o pedido de demissão, ela deixou a colher sobre a mesa.
— Você guardou uma cópia?
— O senhor Rodrigo me enviou o arquivo.
— Então não apague. E não vá conversar sozinha com aquela mulher.
Minha mãe costurava para vizinhas desde que eu era criança.
Sabia, melhor do que ninguém, quanto custava perder um trabalho sem ter outro esperando.
Eu contribuía com as contas de casa e ainda pagava um curso noturno de administração.
Não bastava alguém dizer que eu tinha razão.
Eu precisava saber que meu salário e meu nome não seriam usados contra mim.
Às dez horas, voltei à mansão para a conversa marcada.
Rodrigo estava no escritório com Renata Farias, responsável pelas questões administrativas da casa.
Havia duas cadeiras preparadas, e ele perguntou se eu queria que dona Marta participasse.
Preferi começar sozinha.
Renata abriu a cópia do pedido de demissão.
— A mensagem veio do endereço da empresa que organizou a recepção — explicou. — A pessoa que enviou afirmou agir a pedido de Valéria.
— Isso não é uma autorização minha — respondi.
— Não — disse Renata. — E não deveria ter sido tratado como tal. O processo foi interrompido assim que o senhor Rodrigo perguntou por você.
Senti um pouco de alívio, mas havia outra pergunta.
— De onde tiraram minha assinatura?
Renata colocou ao lado do arquivo a foto de uma lista antiga de entrega de uniformes.
Eu reconheci minha letra imediatamente.
O traço do S, a curva do último sobrenome e até uma pequena mancha de tinta eram idênticos.
Na falsa carta, a mancha aparecia no mesmo lugar.
— Alguém recortou a imagem daqui — falei.
Lembrei de Valéria perto da despensa, na semana anterior, fotografando algumas folhas presas a uma prancheta.
Ela dissera que precisava conferir quantos uniformes seriam necessários para o casamento.
Eu mesma lhe mostrara a lista.
Na época, pareceu uma tarefa inofensiva.
Rodrigo passou a mão pelo rosto.
— Você me avisou mais de uma vez que ela era diferente quando eu saía?
Pensei antes de responder.
— Nunca contei tudo. Falei de mudanças nos horários e de ordens dadas em seu nome. O senhor perguntou se estava tudo bem e eu disse que sim.
— Eu deveria ter feito outras perguntas.
— Talvez. Mas eu também tinha medo de parecer uma funcionária criando problemas com sua noiva.
Renata registrou minha declaração e me entregou uma cópia, com meu consentimento.
Depois, explicou que buscaria os documentos originais e preservaria as mensagens recebidas, sem pedir a ninguém que enfrentasse Valéria sozinho.
Rodrigo sugeriu que eu tirasse alguns dias de folga remunerada.
— Prefiro trabalhar amanhã — respondi. — Hoje só preciso ir embora mais cedo.
Ele aceitou.
Não tentou transformar meu pedido numa lição de gratidão.
Eu já estava perto da saída quando o celular começou a vibrar sem parar.
Uma colega me enviara um vídeo publicado numa página de notícias sobre gente rica de São Paulo.
A gravação mostrava apenas Rodrigo exigindo que Valéria retirasse o anel.
A legenda dizia que o empresário havia humilhado a noiva por causa de uma empregada.
Não apareciam a poça, o guardanapo nem as ordens que tinham provocado tudo.
Nos comentários, algumas pessoas me chamavam de oportunista.
Outras imaginavam um relacionamento entre mim e Rodrigo.
Meu rosto surgia por menos de dois segundos, mas era suficiente para quem já me conhecia.
Sentei num banco perto do jardim e liguei para minha mãe.
— Não leia nada disso — ela pediu.
— Estão inventando uma história sobre mim.
— Eu sei. Mas você não precisa responder a cada desconhecido.
Desliguei e permaneci ali, olhando para o portão.
Na noite anterior, ficara paralisada porque todos me viam.
Agora, milhares podiam me julgar sem sequer saber o que havia acontecido.
A diferença era que ninguém estava diante de mim para ouvir uma resposta.
Uma mensagem nova apareceu no celular.
Era de Cecília, uma convidada que eu conhecia apenas de vista.
Ela escreveu que estava perto da escadaria quando Valéria derramou o champanhe.
“Eu gravei alguns segundos antes de guardar o telefone. Não tive coragem de falar ontem. Se você quiser, envio o vídeo diretamente a você, sem publicar.”
Pedi que enviasse.
O arquivo mostrava Valéria inclinando a taça, olhando para meus sapatos e deixando o líquido cair.
Não era uma imagem perfeita.
Mas mostrava o gesto que todos pareciam ter esquecido.
Agradeci a Cecília e pedi autorização para entregar uma cópia a Renata.
Ela concordou.
Também se desculpou pelo silêncio da noite anterior.
— Eu fiquei com medo de estragar a festa — admitiu por telefone.
— A festa já estava estragada para mim — respondi.
Não disse isso para feri-la.
Era apenas a verdade que eu tinha engolido na hora.
No fim da tarde, Renata me chamou novamente ao escritório.
Trouxe uma pasta com documentos da organização do casamento.
Nela havia um plano de substituição de funcionários após a cerimônia, proposto pela mesma empresa que encaminhara minha falsa demissão.
Os nomes de dona Marta e de outros dois colegas apareciam ao lado do meu.
— Valéria planejava tirar todos nós daqui? — perguntei.
— É uma proposta, não uma decisão executada — explicou Renata. — Mas precisamos entender como ela entrou nos documentos da casa.
A última folha trazia a assinatura de Rodrigo ao lado de uma autorização para contratar serviços.
Ele parecia tão surpreso quanto eu.
— Assinei um pacote de orçamento para a festa — disse. — Não autorizei desligamentos.
Olhei outra vez para o papel.
Minha assinatura tinha sido copiada sem permissão.
A dele, porém, parecia verdadeira.
Eu ainda não sabia o que aquele documento permitia, nem se Rodrigo havia lido suas páginas.
Só sabia que o plano de me afastar não dependia mais de uma ameaça no salão.
Estava dentro de uma pasta que ele próprio havia assinado.
Para entender o que aquela assinatura autorizava e quem teria de responder por ela, continue na Parte 4.













