Na fotografia enviada por Marina, a anotação de Celso ocupava apenas duas linhas.
Eu a ampliei até as letras se tornarem quadrados na tela.
A data era de julho de 2011, quase três anos depois da noite em que eu perdera meu caderno verde.
— A mamãe ligou para quem? — perguntei.
Marta pegou os óculos e releu o registro.
Lembrou que uma antiga vizinha lhe dera um número de telefone relacionado à família de Celso.
Ela havia ligado na esperança de ouvir notícias do filho, mas um homem atendera sem se identificar.
Quando perguntou por Rafael, a voz respondera que ele não queria contato.
— Eu achei que fosse o seu pai — disse ela.
— Reconheci o jeito de falar, mas ele desligou tão depressa que fiquei em dúvida.
A anotação de Celso indicava uma coisa diferente do que supúnhamos.
Ele escrevera que Eduardo atendera e que ele próprio, Celso, não passara o recado.
Marta tinha tentado procurar; seu pedido chegara ao lugar certo e fora interrompido por dois irmãos adultos.
Rafael caminhou até a janela.
Disse que, em 2011, trabalhava numa oficina de bicicletas e podia atender seu próprio telefone.
Eduardo não precisava falar por ele.
Celso também sabia disso.
— Eu esperava que um dia me dissessem que houve um engano — falou.
— Mas isso não foi só um engano.
Marina nos telefonou depois de reler as outras páginas.
Contou que o pai mencionara, perto do fim da vida, uma decisão da qual se arrependia.
Ela achara que fosse sobre dinheiro ou negócios da família.
Agora não sabia mais o que pensar.
Não tentou justificar o silêncio dele.
Concordamos em compartilhar cópias dos documentos, inclusive a pasta que Marta havia conservado.
Não para montar um julgamento particular contra os mortos, mas para separar o que podíamos demonstrar do que seria apenas nossa interpretação.
Naquela semana, a associação que nos conectara ajudou a localizar a referência de um atendimento antigo de Marta, sem prometer recuperar cada papel perdido na enchente.
O número de protocolo correspondia ao pedido de março de 2009.
Havia registro de que ela informara o nome de Rafael e uma possível ligação com parentes em Blumenau.
Não provava que uma busca eficiente tivesse sido realizada.
Provava, no entanto, que ela não ficara inteiramente imóvel desde o começo.
Rafael leu a informação em silêncio.
Depois pediu que a mãe se sentasse com ele outra vez.
A conversa não parecia mais uma discussão sobre quem merecia ser inocentado.
Era sobre o que cada um podia admitir sem diminuir a dor do outro.
— Quando eu fazia aniversário — contou ele —, o tio Celso comprava meu bolo preferido.
Mas eu esperava até tarde porque imaginava que você ia telefonar.
Quando ninguém ligava, eu fingia que nem tinha pensado nisso.
Marta começou a pedir desculpas, mas ele levantou a mão.
Queria terminar.
— Eu não quero que você diga que me procurou e pronto.
Quero saber por que, depois de tantas tentativas interrompidas, acreditou que eu não merecia mais uma.
Minha mãe respondeu que não tinha uma justificativa suficiente.
Havia medo de Eduardo, sim, mas também vergonha, cansaço e uma crença dolorosa de que ela mesma perdera o direito de ser procurada pelo filho.
Reconheceu que esse sentimento era dela, não dele.
Não devia ter decidido em nome de Rafael.
— Eu precisava de você — ele disse.
— Não precisava de uma mãe perfeita.
Eu nunca tinha ouvido meu irmão falar daquela maneira.
Na infância, ele escondia o joelho machucado para não me assustar, mesmo quando a cicatriz ardia.
Agora estava dizendo em voz alta algo que devia ter aprendido a pedir aos dezesseis anos.
No dia seguinte, fui sozinha à casa de Vera.
Ela me recebeu sem tentar tocar meu braço.
Havia separado uma fotografia nossa antes da enchente, tirada na frente da casa de Itajaí, e pretendia me entregar como lembrança.
Eu aceitei vê-la, mas não quis levá-la.
— Ainda não consigo olhar para isso na sua sala — expliquei.
A tia assentiu.
Perguntei por que continuara dizendo que Rafael escolhera ficar longe, mesmo depois de 2017, quando Eduardo já estava morto.
Ela respirou fundo e repetiu que tivera vergonha.
Depois acrescentou algo que não havia dito na casa de Marta.
— Eu achava que, se você encontrasse seu irmão, ia perguntar a ele por que eu não procurei mais.
E aí você ia me enxergar de outro jeito.
— Estou enxergando — respondi.
— E não vou fingir que é a mesma coisa de antes.
Não fiz promessas sobre perdoá-la.
Pedi que, caso encontrasse mais documentos, os entregasse diretamente a nós dois, sem selecionar o que julgava apropriado.
Vera concordou e anotou nossos telefones.
Era pouco, mas pela primeira vez havia uma regra clara entre nós.
Naquela tarde, Rafael e eu saímos para caminhar.
Ele falou da vida em Blumenau, de Marina, do trabalho que aprendera com Celso e do sentimento de ter sido criado por um homem generoso que também o decepcionara profundamente.
Eu contei do ensino médio, das primeiras tentativas de procurar seu nome e da vez em que abandonei uma busca porque encontrara um Rafael Moreira que não era ele.
Rimos da coincidência por alguns segundos.
Depois o silêncio voltou, mas já não parecia uma parede.
Havia uma pessoa real do outro lado, e não apenas um menino congelado nas fotografias.
— Eu gostaria de voltar a Itajaí — falei.
— Não para procurar uma explicação na enchente.
Para ver o lugar onde a gente se perdeu e sair de lá juntos.
Rafael disse que também pensara nisso.
Sugeriu que levássemos a página do caderno, mas eu tive medo de danificar o único original.
Decidimos fazer uma cópia e deixar a folha protegida.
Antes da viagem, Marta pediu autorização para nos acompanhar.
Meu primeiro impulso foi dizer que sim, por pena de sua expressão.
Rafael me olhou, esperando que eu falasse por nós dois como fazia quando tínhamos onze e dezesseis anos.
Dessa vez, perguntei o que ele queria.
— Ainda não — respondeu.
— Preciso que essa primeira volta seja nossa.
Transmiti a decisão à nossa mãe.
Ela chorou em silêncio, mas não insistiu nem tentou transformar a recusa em prova de falta de amor.
Disse que estaria em Joinville quando quiséssemos conversar outra vez.
Na noite anterior à viagem, Rafael me mandou a fotografia de uma folha em branco.
No alto, escreveu com a mesma letra adulta que eu vira na carta: «A casa continua com telhado azul?».
Eu respondi desenhando duas janelas amarelas no aplicativo do telefone.
Quando acordei, havia outra mensagem dele.
Era curta e me deixou sentada na cama, relendo cada palavra.
«Ana, quero te pedir uma coisa antes de voltarmos àquele ginásio: não vamos deixar que mais ninguém decida o que um de nós sente pelo outro.»
Eu sabia que precisávamos transformar aquela promessa em escolhas de verdade, começando pelo que faríamos em Itajaí.
Acompanhe nossa volta ao lugar da separação na Parte 6.













