Ficamos olhando para a mensagem de Vera até a tela escurecer.
Rafael foi o primeiro a romper o silêncio.
Disse que não queria chegar à casa da tia como uma acusação ambulante, porque já havia passado anos demais ouvindo versões definitivas de pessoas que não estavam presentes.
— Vamos perguntar — propôs.
— Mas, se ela mentir, eu não vou fingir que não percebi.
Combinamos de ir a Joinville na manhã seguinte.
Rafael ficaria numa pousada, e eu avisaria a Marta que precisava conversar pessoalmente.
Não mencionei a folha por telefone, porque queria que ela tivesse a oportunidade de reagir ao documento, não a uma história contada às pressas.
Naquela noite, dormi pouco.
Pensei na maneira como nossa mãe dobrava toalhas, alinhando as pontas com cuidado, e em como desviava os olhos sempre que eu perguntava por Rafael.
Eu costumava interpretar aquele silêncio como tristeza.
Agora me perguntava quanto dele era culpa e quanto era medo.
Marta abriu a porta de casa antes de eu tocar a campainha pela segunda vez.
Tinha sessenta anos e prendia os cabelos com uma presilha clara.
Quando percebeu que havia um homem ao meu lado, apertou a maçaneta, mas não reconheceu Rafael imediatamente.
— Mãe — eu disse —, esse é o Rafael.
Ela levou a mão à boca.
O irmão que eu conhecia por fotografias era, para ela, um filho envelhecido sem que pudesse acompanhar um único aniversário.
Rafael não avançou.
Esperou que ela dissesse seu nome.
— Meu filho — Marta sussurrou.
Ele assentiu, mas permaneceu do lado de fora.
Não era uma punição calculada.
Era a única distância que ainda conseguia suportar.
Entramos na sala e nos sentamos à mesa.
Coloquei a folha dentro da capa plástica, diante dela, com a face do desenho voltada para cima.
Marta sorriu por reflexo quando reconheceu o cachorro torto.
Então virei o papel.
Sua mão parou a poucos centímetros da assinatura.
Ela demorou a respirar normalmente.
— Eu escrevi isso — disse.
— Foi na noite em que o ginásio ficou cheio demais.
Pedi que nos contasse tudo, começando antes de Vera levar a menina de onze anos para Joinville.
Marta apoiou os cotovelos na mesa.
Não tentou fingir que não lembrava.
Eduardo, nosso pai, já ameaçava separar a família antes da enchente.
Havia meses discutia com ela sobre dinheiro e sobre sua intenção de sair de casa com os filhos.
Depois que a água invadiu a rua, ele insistiu que Rafael precisava acompanhá-lo para ajudar a retirar algumas ferramentas de uma oficina emprestada.
Marta se recusou a deixar Ana esperando no abrigo durante a discussão.
— Eu pedi à Vera que levasse você para um lugar seco — explicou, olhando para mim.
— Não disse ao Rafael porque seu pai estava por perto e queria saber para onde eu mandaria vocês.
Pensei que seria por uma noite.
— Então por que escreveu que voltaria para buscar seu filho? — perguntei.
— Porque era isso que eu ia fazer.
Seu pai prometeu me encontrar perto do portão dos fundos.
Quando voltei, ele e Rafael não estavam mais lá.
Rafael baixou os olhos.
Lembrou que Eduardo o levara até o carro dizendo que Marta autorizara a viagem para Blumenau.
Ele havia pedido para esperar pela mãe, mas o pai insistira que a encontrariam depois.
Nenhum de nós possuía um relato completo daqueles minutos.
Marta abriu uma gaveta e retirou uma pasta transparente.
Mostrou-nos cópias de recados deixados em abrigos e um comprovante de atendimento de uma assistência social, datado de março de 2009.
Não era a prova de que fizera tudo o que podia, mas desmentia a ideia de que jamais procurara Rafael.
— Eu procurei por você — disse a ele.
— Não sei o que disseram que eu fiz, mas procurei.
Rafael examinou os documentos com atenção.
Havia um número de protocolo e uma anotação sobre endereço desconhecido.
Faltavam páginas, e a funcionária que recebera o pedido não estava identificada na cópia.
Ele não fingiu que aquela busca de alguns meses explicava os anos seguintes.
— Por que parou? — perguntou.
Marta fechou as mãos.
Disse que Eduardo telefonara uma vez, em 2010, afirmando que Rafael não queria contato e que, se ela insistisse, estaria prejudicando o futuro do rapaz.
Algumas semanas depois, chegou um bilhete com o nome do filho e a frase «Quero ficar onde estou. Não me procure».
Ela o guardara por vergonha.
— Eu nunca escrevi isso — Rafael disse.
Nossa mãe retirou o bilhete da pasta.
As letras estavam firmes demais, o nome completo escrito como numa ficha.
Rafael mostrou a assinatura da carteira de identidade e apontou a diferença na forma da letra R.
Era um indício, não uma perícia, mas suficiente para tornar aquela mensagem profundamente suspeita.
— Você acreditou que eu deixaria a Ana para trás sem falar com ela? — ele perguntou.
A pergunta fez Marta chorar.
Ela respondeu que acreditara no pai porque já estava acostumada a ouvi-lo decidir o que os outros sentiam.
Admitiu que, depois de alguns anos, o medo de descobrir uma rejeição verdadeira se misturara ao alívio covarde de não precisar enfrentar Eduardo outra vez.
— Isso foi uma escolha minha — acrescentou.
— E vocês pagaram por ela.
Pela primeira vez naquele dia, Rafael olhou para ela sem procurar uma resposta pronta.
A dor não desapareceu, mas a confissão tornara a conversa menos parecida com as histórias impecáveis que recebêramos quando éramos crianças.
Perguntei se sabia de uma carta enviada em 2010 para o endereço de Vera.
Marta afirmou que jamais a tinha visto.
Quando mostrei a fotografia do envelope, sua expressão mudou.
— Esse endereço era onde eu dormi durante meses — disse.
— A Vera recebia nossa correspondência.
Ela me garantia que não chegava nada do Rafael.
Telefonei novamente para a tia.
Desta vez, ela atendeu.
Ao ouvir o nome de Rafael, pediu que não fôssemos à sua casa e começou a chorar antes de terminar a frase.
Eu lhe disse que já estávamos em Joinville.
— Se quer conversar, venha à casa da mamãe — respondi.
— Nós três vamos ouvir a mesma explicação.
Houve um silêncio comprido.
Depois Vera concordou, mas pediu uma hora para procurar uma coisa.
Enquanto esperávamos, Rafael saiu para o quintal.
Fui atrás dele.
Encontramo-nos diante da horta que Marta cuidava, com folhas de couve molhadas pela rega daquela manhã.
— Eu imaginava esse encontro desde os dezesseis anos — ele disse.
— Em todas as versões, ela me abraçava ou me mandava embora.
Nunca imaginei que ela fosse dizer que acreditou numa carta falsa.
— Você acha que consegue ficar? — perguntei.
— Hoje, sim.
Amanhã eu não sei.
Voltei à cozinha e vi nossa mãe colocar uma quarta xícara na mesa, num gesto quase automático.
Quando a campainha tocou, Marta não se levantou.
Vera entrou segurando uma pasta azul e, antes mesmo de tirar o casaco, disse algo que fez Rafael parar junto à porta.
— A carta dele chegou — confessou.
— E eu não devolvi porque o endereço estava errado.
Eu mesma mandei voltar.
Eu tinha esperado que a tia reconhecesse o envelope.
Não estava preparada para ouvi-la assumir que escolhera impedir uma resposta.
A razão daquela escolha só apareceria quando abríssemos a pasta azul; continue na Parte 4.













