Rafael não respondeu de imediato.
Ele observou os ônibus pela janela, como se algum deles pudesse levar embora a pergunta que eu acabara de fazer.
Quando voltou a olhar para mim, seu rosto parecia mais cansado do que na hora do nosso abraço.
— Eu pensei nisso a viagem inteira — disse.
— E tenho medo de descobrir que alguém podia ter resolvido tudo muito antes.
A folha permanecia entre nós.
A estrela vermelha no telhado parecia um detalhe absurdo diante da mensagem escrita no verso.
Até aquele dia, eu havia imaginado nosso reencontro como uma conversa sobre as coisas perdidas; agora precisávamos falar sobre as pessoas que haviam decidido por nós.
Perguntei por tio Celso.
Rafael contou que ele morrera no ano anterior, depois de uma doença demorada.
Marina, filha de Celso, separara os documentos da casa e encontrara a caixa de papelão, marcada com uma fita onde se lia apenas o ano de 2008.
— Ele nunca me mostrou essa folha — Rafael explicou.
— Mas guardou a caixa em todas as mudanças.
Eu queria acreditar que aquilo significava alguma coisa boa.
Talvez Celso tivesse procurado a pessoa certa para entregar o papel e nunca tivesse conseguido.
Talvez tivesse simplesmente adiado uma conversa difícil até ser tarde demais.
— Você pode falar com a Marina agora? — perguntei.
Ele telefonou.
A voz da prima veio pelo alto-falante entre o aviso de uma plataforma e o ruído das malas arrastadas.
Marina lembrava que o pai guardava envelopes de um antigo trabalho voluntário durante a enchente, embora nunca tivesse explicado todos os papéis.
— Tem outra coisa naquela caixa — ela disse.
— Um caderno pequeno, de capa preta, com números e nomes.
Não é o caderno da Ana.
Acho que era do meu pai.
Marina fotografou duas páginas e nos enviou.
Havia nomes de famílias, horários, bairros e anotações sobre quem precisara de abrigo.
Na margem de uma das páginas, ao lado do nome de Marta, aparecia a palavra «retorno», seguida de uma data ilegível.
— O tio ajudava no ginásio? — perguntei.
— Ajudou nos primeiros dias — respondeu Rafael.
— Eu só soube disso depois.
Ele dizia que ninguém tinha um plano completo naquela semana.
Olhei novamente a mensagem de nossa mãe.
Ela não parecia uma despedida definitiva.
A expressão «vou buscar» era uma promessa, mesmo que tivesse sido feita num momento de pânico.
Isso não a tornava verdadeira, mas a impedia de ser ignorada.
Rafael me contou os dias seguintes à separação.
Nosso pai, Eduardo Moreira, o levara de carro para Blumenau, onde Celso morava.
Eduardo dizia que a enchente destruíra a casa e que Marta escolhera começar outra vida sem o filho mais velho.
Rafael se recusara a acreditar e voltara ao ginásio com um vizinho, mas o abrigo já havia transferido muitas famílias.
— O pai falava como se a decisão fosse sua — disse Rafael.
— Quando eu perguntava por você, ele dizia que mãe e filha estavam juntas, por vontade própria.
Em Joinville, a versão que eu ouvira era quase o reflexo daquela mentira.
Marta dizia que Rafael insistira em morar com o pai.
Tia Vera acrescentava que fora inútil insistir, porque ele não queria ser encontrado.
Aos onze anos, eu não tinha ferramentas para duvidar das duas.
— A mamãe está viva? — Rafael perguntou.
A pergunta me atingiu com uma simplicidade terrível.
Eu havia contado a ele, nas mensagens, que ela morava em Joinville, mas evitáramos conversar diretamente sobre o que sentíamos por ela.
Talvez ambos tivéssemos medo de perder o pouco de segurança conquistado.
— Está — respondi.
— Trabalha algumas horas num ateliê de costura do bairro e cuida de uma horta pequena.
Eu a visito aos domingos.
— Você pretende contar sobre a folha?
Peguei o telefone, mas não fiz a ligação.
Durante dezoito anos, ela e Vera tinham controlado a ordem dos fatos que chegavam até mim.
Dessa vez, eu precisava ouvir primeiro meu irmão, sem que ninguém traduzisse suas lembranças.
Saímos da rodoviária e atravessamos a rua até uma padaria.
Rafael pediu café sem açúcar, como fazia nosso pai.
Eu pedi suco e um pão de queijo que não consegui terminar.
Pela primeira vez, notei que meu irmão segurava a xícara com as duas mãos quando ficava nervoso.
— Eu tentei escrever para você — disse ele.
— Não sabia seu endereço.
No fim, fiz uma carta para a mamãe e entreguei ao tio Celso, pedindo que encontrasse um jeito de mandar.
— Quando?
— Em 2010.
Eu tinha dezoito anos.
Nunca recebi resposta.
Ele se lembrava do papel pautado, das palavras riscadas e da frase final, que eu jamais ouvira: «Se a Ana perguntar, diga que eu não esqueci dela».
Não havia cópia entre os documentos que Marina fotografara.
Naquele momento, não podíamos saber se a carta tinha sido enviada, perdida ou escondida.
Mostrei a Rafael fotografias de minha adolescência.
Numa delas, aparecia a festa de quinze anos organizada por Vera.
Na parede ao fundo havia uma moldura com três fotografias familiares, e Rafael reconheceu uma em que estava sentado na praia ao meu lado.
— Ela mantinha minha foto na sala? — perguntou.
Assenti.
A contradição me envergonhou, embora eu não tivesse feito nada para criá-la.
Vera permitira que eu crescesse olhando para o rosto do irmão que, segundo ela, não queria saber de mim.
Rafael me mostrou uma foto de Celso preparando um bolo simples no aniversário de seus vinte anos.
Havia ternura ali.
Eu não queria transformar aquele homem, que cuidara de meu irmão, num vilão antes de entender suas escolhas.
Também não queria confundir ter amado Rafael com ter lhe contado a verdade.
Na volta à rodoviária, Marina enviou outra imagem.
Era o verso de um envelope antigo, encontrado no fundo da caixa.
No campo do destinatário constava o nome de Marta e um endereço de Joinville que reconheci imediatamente: a casa onde Vera morara até 2013.
Na frente havia um carimbo de 2010.
No verso, duas palavras manuscritas: «devolvido pela família».
A caligrafia não era a de Rafael.
Mas o endereço existia, e nós sabíamos quem atendia à porta naquela época.
Tentei ligar para Vera.
A chamada caiu na caixa postal.
Enviei uma fotografia do envelope com uma pergunta: «A senhora recebeu uma carta do Rafael?».
A resposta veio poucos minutos depois, sem saudação.
«Não fale disso com a sua mãe antes de conversar comigo.»
Aquela frase não negava o envelope.
E, ao lê-la, tive a impressão dolorosa de que a última página do meu caderno não era o único papel que alguém tinha decidido guardar em silêncio.
Para descobrir por que Vera tinha medo daquela carta, continue na Parte 3.













