Margarida passou a noite revendo os documentos que Beatriz guardara depois do incêndio.
Na manhã seguinte, encontrou numa das pastas um termo de autorização para atendimento neonatal, assinado antes de a fumaça tomar o hospital.
Não era o papel que Tomás mostrara.
Era uma autorização rotineira, referente a exames da recém-nascida.
Levou a cópia para Renata.
A advogada colocou os dois documentos lado a lado e pediu que ninguém tirasse conclusões apenas pela aparência.
As assinaturas tinham traços muito semelhantes, inclusive uma pequena irregularidade no último sobrenome.
O fato merecia exame pericial, não uma declaração improvisada de falsidade.
— Eu lembro de assinar esse termo de atendimento — disse Margarida, apontando para a primeira folha.
— A enfermeira estava na minha frente.
Na hora da outra suposta assinatura, eu mal conseguia respirar depois de ter sido retirada do quarto.
Renata registrou a lembrança e solicitou os prontuários disponíveis, especialmente os horários de atendimento e medicação.
Explicou que a autenticidade do formulário de transferência teria de ser analisada com cuidado, a partir do original e da documentação correspondente.
Emília recebeu uma cópia dessa informação, mas pediu um dia para pensar antes de participar de outra reunião.
Tinha passado a vida imaginando o rosto da mulher que a deixara.
Agora corria o risco de descobrir que ninguém a abandonara por vontade própria e, ao mesmo tempo, que alguém fabricara uma escolha em nome de sua mãe biológica.
Dalva a encontrou sentada no chão da sala, com o medalhão aberto sobre os joelhos.
— Você não precisa decidir em quem confia de uma vez só — disse.
— Mas eu queria que alguma coisa fosse simples.
Um exame, uma resposta, um nome.
— Ser filha nunca foi simples assim.
Você sabe disso desde que começou a me perguntar sobre o convento.
Emília sorriu sem alegria.
Lembrou-se das noites em que Dalva costurava seu uniforme escolar, respondia à mesma pergunta repetida e admitia não conhecer uma explicação melhor.
Pela primeira vez, entendeu quanto a honestidade custara à mãe que a criara.
Dois dias depois, Helena prestou esclarecimentos formais sobre o que lembrava e apresentou a declaração que Tomás tentara fazê-la assinar recentemente.
Entregou também um caderno com pagamentos e instruções de encaminhamento que ela conservara indevidamente por medo de ser envolvida nas irregularidades do hospital.
A autoridade responsável avaliaria a origem e a pertinência de cada documento.
Ao revisar o caderno, Renata identificou referências a alterações de identificação em outros prontuários.
Não havia base para afirmar que todas aquelas crianças tinham sofrido o mesmo destino de Emília.
Havia, porém, informação suficiente para pedir uma apuração mais ampla, sem expor famílias que nada sabiam do caso.
Foi então que Davi entregou uma última parte da caixa recebida de Helena.
Nela havia um envelope fechado com o nome de Tomás e uma data de muitos anos depois do incêndio.
Davi explicou que não o abrira porque não se sentia autorizado a fazê-lo.
Helena, consultada por Renata, reconheceu o conteúdo e concordou em mostrá-lo às pessoas envolvidas.
Dentro estavam duas fotografias de Emília já adolescente, tiradas em uma apresentação escolar aberta às famílias.
Havia também uma ficha de levantamento particular com o nome Dalva, o bairro onde moravam na época e a observação de que a jovem fora adotada após acolhimento em Santa Ana.
Emília examinou a primeira imagem.
Tinha dezesseis anos naquela época.
Reconheceu o vestido azul que Dalva comprara com dinheiro economizado por meses.
A fotografia mostrava uma alegria comum, de quem havia conseguido terminar o ano letivo.
— Quem pediu esse levantamento? — perguntou.
Helena respondeu que Tomás o encomendara a um investigador particular.
O irmão lhe enviara uma cópia para confirmar se a adolescente era a mesma menina deixada no convento.
Segundo Helena, ela reconhecera o medalhão que Emília usava naquela época e dissera a Tomás que acreditava ser sua sobrinha.
Margarida ficou imóvel.
Mesmo que a maternidade só tivesse sido demonstrada agora, Tomás possuía indícios fortes havia anos.
E nunca os compartilhara.
Renata alertou que a ficha precisava ser verificada e que o responsável pelo levantamento deveria ser ouvido.
Emília, entretanto, já sabia que aquelas fotos eram reais.
Podia apontar o lugar onde Dalva estivera sentada e a colega que aparecia ao fundo.
Tomás aceitou uma nova conversa com Margarida na presença dos advogados.
Emília decidiu comparecer, mas desta vez não ficou em silêncio esperando que alguém a defendesse.
— Você recebeu uma fotografia minha quando eu tinha dezesseis anos? — perguntou.
Tomás olhou para Renata, depois para a ficha sobre a mesa.
— Eu queria ter certeza de que vocês não estavam perseguindo a pessoa errada.
— E depois?
— Depois percebi que contar aquilo destruiria a vida da Margarida.
Margarida ergueu o rosto.
— Não use meu nome para justificar o que você fez.
Tomás tentou explicar que havia documentos inconsistentes no hospital antes do incêndio, que uma investigação poderia prejudicar funcionários e que a família já estava devastada.
Admitiu ter mandado Helena retirar a criança do circuito de registros do hospital e mantê-la longe dos questionamentos enquanto ele decidia o que fazer.
Disse que depois ficara tarde demais para corrigir tudo sem confessar a mentira.
— Tarde demais para quem? — perguntou Emília.
Ele não respondeu.
— Para a menina que cresceu sem saber se tinha sido amada?
Ou para o homem que não queria perder a posição que tinha?
Tomás baixou a cabeça.
Não pediu perdão.
Disse que nem tudo acontecera como Helena relatava, mas já não conseguia sustentar que nunca soubera de uma criança viva.
Margarida retirou do dedo a aliança e a colocou na própria bolsa.
Não fez discurso sobre vinte e dois anos de casamento.
Apenas pediu que qualquer contato futuro passasse pelos advogados enquanto ela decidia formalizar a separação.
Quando se levantaram, Emília percebeu que Tomás ainda olhava para as fotos da adolescente.
Pela primeira vez, perguntou o que mais ele guardara sobre sua vida.
— Se sabia onde eu estava, por que nunca me procurou?
A resposta dele veio quase num sussurro.
— Porque eu tinha medo do que você perguntaria.
Emília saiu sem olhar para trás.
Do lado de fora, Dalva e Margarida a aguardavam em lados diferentes do corredor.
Nenhuma das duas correu para abraçá-la.
As duas lhe deram espaço para escolher a quem se aproximar primeiro.
E aquela escolha, que parecia pequena, foi a primeira que ninguém tentou tomar por ela.
Mas ainda faltava descobrir como viver com a verdade depois que o segredo deixasse de ser segredo.
Para acompanhar a decisão de Emília e suas consequências, continue na Parte 7.













