Emília reconheceu primeiro a imagem da mulher, não a do bebê.
Na fotografia, Margarida parecia cansada e feliz ao mesmo tempo, com o rosto encostado na testa da criança.
A jovem não conseguia decidir se queria correr até a calçada ou desaparecer pela porta da cozinha.
— Ele disse o nome? — perguntou ao gerente.
— Davi Albuquerque.
Falou que precisava entregar uma coisa pessoalmente e que não queria assustar você.
Tomás soltou uma risada curta, sem humor.
— Esse homem não tem o direito de se aproximar da minha família.
A frase fez Emília erguer a cabeça.
— Sua família?
O senhor acabou de me puxar pelo braço e nem sabe quem eu sou.
Margarida permaneceu perto da mesa.
Queria segurar a mão de Emília, mas percebeu que a jovem já tinha sido agarrada por duas pessoas naquela noite.
Abaixou os braços.
— Você tem razão — disse.
— Eu também a assustei.
Desculpe.
O gerente, Álvaro, ofereceu a pequena sala administrativa nos fundos.
Emília pediu que ele ficasse por perto e que ninguém a obrigasse a conversar com Tomás.
Não era mais possível continuar o serviço, mas ela não queria que sua vida fosse discutida diante dos clientes.
Davi entrou cinco minutos depois, acompanhado por Álvaro.
Era um homem de cabelos grisalhos, com uma pasta de plástico apertada contra o peito.
De perto, a foto parecia menos misteriosa: tinha marcas de dobra e um canto rasgado.
— Eu trabalhei como motorista de apoio no Hospital Santa Cecília, na noite do incêndio — explicou.
— Faz tempo que procuro a pessoa certa para mostrar isto.
Margarida reconheceu o nome do hospital e sentiu as mãos gelarem.
— Você estava lá?
— Estava no acesso de serviço.
Vi saírem funcionários, pacientes e duas incubadoras.
Não vi tudo, e não vou fingir que vi.
Mas carreguei uma bebê para fora depois que o corredor da maternidade encheu de fumaça.
Emília tocou a corrente no pescoço.
— Como sabe que era eu?
— Ainda não sei com certeza.
Vi um medalhão parecido com o seu quando entreguei a criança a uma mulher chamada Helena Azevedo.
Ela era irmã dele.
Davi olhou para Tomás, que estava encostado na parede.
O homem não fez a menor tentativa de negar o parentesco.
— Helena me disse que levaria a menina a um lugar seguro até a mãe ser localizada — continuou Davi.
— Naquela madrugada, eu acreditei.
Quando voltei ao hospital, as informações já tinham mudado.
Disseram que a criança havia morrido.
— Você está repetindo histórias antigas — interrompeu Tomás.
— Talvez — respondeu Davi.
— Por isso trouxe registros, não apenas lembranças.
Ele abriu a pasta e retirou uma cópia de uma folha datada da noite do incêndio.
Havia uma anotação de saída de emergência, o horário e a assinatura de Davi.
A linha destinada ao nome da criança estava em branco.
Na margem, com outra letra, apareciam as iniciais de Helena.
Margarida pediu para ver.
Davi deixou a folha sobre a mesa, sem entregá-la a ninguém.
— Não prova que era minha filha — murmurou ela.
— Não.
Também não prova que ela morreu.
Emília olhava para a foto antiga.
O homem disse que a encontrara numa caixa entregue por Helena, juntamente com cartas e cópias de registros.
O envelope estava identificado apenas com o nome da criança que Helena acreditava ter levado ao convento.
— Por que não veio antes? — perguntou Emília.
Davi respirou fundo.
— Porque fui covarde.
Na época, aceitei a explicação de que os documentos eram confidenciais.
Depois, procurei Helena algumas vezes, mas ela se recusava a falar.
Só há poucas semanas ela me enviou essa caixa, com um bilhete pedindo que eu encontrasse você.
— E sabia onde eu trabalhava?
— Descobri pela indicação de uma antiga funcionária do convento.
Vim hoje depois do seu expediente.
Quando vi o senhor Tomás entrar aqui, tive medo de que fosse embora com você antes que eu pudesse falar.
Tomás deu um passo na direção da pasta.
Álvaro se colocou discretamente entre os dois.
— Esta conversa termina agora — disse Tomás.
— Margarida, nós temos um advogado para lidar com acusações sem fundamento.
— Eu não vou a lugar nenhum com você — respondeu ela.
Era a primeira vez naquela noite que sua voz não tremia.
Tomás parecia querer dizer algo, mas os olhos de Margarida o impediram.
Emília finalmente perguntou sobre a fotografia.
Davi explicou que fora tirada no dia do nascimento e que Helena conservara uma cópia, sem dizer como a conseguira.
Margarida reconheceu a camisola clara que usava e a pequena pulseira do hospital no braço da bebê.
Ela tinha uma fotografia semelhante em casa, guardada numa caixa.
— Preciso ligar para a minha mãe — disse Emília.
Margarida sentiu a palavra como uma pontada, mas não a contestou.
Emília telefonou para Dalva, a mulher que a criara, e explicou apenas que tinha surgido uma informação sobre sua origem.
Dalva ouviu em silêncio e pediu que a filha voltasse para casa antes de tomar qualquer decisão.
— Vou com você até a saída — ofereceu Margarida.
— Prefiro ir sozinha.
Não sei o que está acontecendo e preciso pensar.
— Está bem.
Se quiser, posso deixar meu número com o gerente.
Emília concordou, mas não prometeu telefonar.
Antes de sair, perguntou a Davi se os originais ainda existiam.
— Existem — respondeu ele.
— Só que há uma pessoa que precisa explicar a parte da história que não está escrita nesse papel.
— Helena? — perguntou Margarida.
Davi assentiu.
Emília perguntou se Helena sabia que Dalva a havia criado.
Davi disse que, pelo que lera, a tia de Tomás conhecia apenas partes do processo de acolhimento e nunca tinha se apresentado à família adotiva.
A jovem pensou nas perguntas que fizera quando criança e na quantidade de adultos que poderiam ter respondido, mas preferiram não aparecer.
Não sabia se conseguiria ouvir Helena sem gritar.
— Ela me pediu que não revelasse seu endereço a Tomás.
E disse outra coisa: a certidão que convenceu todos vocês de que a menina morreu não foi feita por engano.
Margarida olhou para o marido.
Tomás não demonstrou surpresa.
Foi isso, mais do que qualquer palavra, que a fez decidir que não voltaria para casa com ele naquela noite.
Quem tinha ordenado aquela certidão falsa?
E por que a irmã de Tomás guardara silêncio durante vinte e dois anos?
A resposta começaria com uma mulher que ainda estava viva.
Para descobrir o que Helena escondia, continue na Parte 3.













