Dalva abriu a porta antes que Emília terminasse de tocar a campainha.
Morava numa casa pequena, com plantas na varanda e uma mesa de jantar sempre coberta por uma toalha estampada.
A filha conhecia cada detalhe daquele lugar, mas naquela noite tudo parecia frágil.
— Senta primeiro — pediu Dalva.
— Você está branca.
Emília contou sobre a marca, os medalhões e a fotografia.
Repetiu as falas de Tomás sem suavizar a maneira como ele segurara seu braço.
Dalva não interrompeu.
Quando ouviu o nome de Santa Ana, apenas fechou os olhos.
— Eu nunca soube quem te deixou lá — afirmou.
— Isso é verdade.
Mas tem uma coisa que você precisa ver.
Ela retirou do armário uma pasta de documentos de plástico azul.
Emília já a tinha visto outras vezes: continha certidões, antigas carteiras de vacinação e papéis do processo de adoção.
Dalva nunca a escondera.
Dessa vez, porém, tirou do fundo um envelope dobrado.
— A assistente do convento me entregou isto quando você veio morar comigo — explicou.
— Disse que deveria ficar junto dos seus documentos.
Eu não entendia para que servia, então guardei.
Dentro havia uma ficha de acolhimento com a data de chegada de uma bebê sem identificação completa.
Uma observação mencionava um medalhão de prata encontrado com a criança.
O nome da pessoa que a entregara não aparecia.
Havia também uma folha carimbada meses depois, registrando que os dados de origem continuavam desconhecidos.
— Você tinha quase um ano quando veio para cá — disse Dalva.
— Foi tudo acompanhado pela Justiça.
Seu processo não foi um acordo feito escondido.
Eu te contei o que me disseram, porque era tudo o que sabia.
Emília segurou o envelope sobre os joelhos.
Quando criança, perguntara muitas vezes se a mulher que a gerara havia querido se livrar dela.
Dalva sempre respondia que ninguém podia saber o que acontecera antes do convento.
Agora Emília percebia a diferença entre não saber e mentir.
— Se ela for mesmo minha mãe biológica, você vai ficar triste?
Dalva demorou a responder.
— Talvez eu tenha medo de perder um pedaço da nossa rotina.
Mas não quero que você perca a verdade para proteger meus sentimentos.
Você é minha filha, Emília.
Não precisa escolher uma mulher para apagar a outra.
Na manhã seguinte, Margarida procurou a irmã mais velha, Beatriz.
Foi até o apartamento dela sem contar a Tomás.
Beatriz guardava parte dos documentos recolhidos durante os primeiros meses depois do incêndio, quando Margarida ainda acreditava que alguma informação poderia ter sido trocada.
Num arquivo amarelado, encontraram a comunicação de óbito da recém-nascida.
O texto dizia que o reconhecimento do corpo não havia sido possível em razão das condições do incêndio.
Havia uma assinatura de profissional responsável e, anexada ao processo administrativo, uma declaração entregue por Tomás ao setor de registros.
Margarida percebeu que, durante anos, só havia visto cópias selecionadas pelo marido.
— Eu tentei insistir — disse ela.
— Ele falava que eu estava me machucando.
Beatriz se sentou ao seu lado.
— Você insistiu mais do que qualquer pessoa deveria precisar.
A responsabilidade por responder era deles, não sua.
Margarida ligou para Emília no começo da tarde, depois de receber permissão por mensagem.
Não falou em reencontro, nem usou a palavra filha.
Perguntou se a jovem aceitaria fazer um exame genético independente, com coleta identificada e orientação de profissionais.
Emília disse que sim, desde que ambas recebessem o resultado ao mesmo tempo.
Elas marcaram uma coleta para dois dias depois.
Davi entregaria cópias da documentação a uma advogada indicada por Beatriz, Renata Vidal, para que os originais fossem preservados.
Nenhuma das duas queria que uma nova lembrança ou um laudo apressado substituísse uma prova adequada.
Enquanto isso, Tomás telefonava repetidamente.
Margarida respondeu apenas uma vez.
— Quero conversar quando você puder explicar o que sua irmã fez — disse.
— Helena sempre foi instável.
Você vai destruir o nosso casamento por causa de um homem que apareceu na rua?
— Não foi ele quem segurou uma desconhecida pelo braço.
E não foi ele quem reconheceu o nome do convento antes de mim.
Tomás ficou em silêncio.
Depois afirmou que a esposa se arrependeria de escutar aquelas pessoas.
Margarida desligou.
O encontro com Renata aconteceu no escritório discreto da advogada.
Ela examinou a ficha de acolhimento de Emília, a anotação de Davi e a comunicação de óbito sem anunciar conclusões.
Disse que o material justificava solicitar acesso aos registros oficiais e orientação para uma comunicação formal às autoridades.
Também explicou que uma prova de parentesco não esclareceria, sozinha, como a criança fora retirada do hospital.
— A gente precisa separar o que vocês lembram, o que os papéis mostram e o que ainda é hipótese — afirmou.
Emília gostou daquela frase.
Era a primeira pessoa desde o jantar no restaurante que não tentava decidir seu passado por ela.
No corredor do escritório, Margarida parou diante de uma janela.
— Se o exame confirmar, eu não vou exigir nada de você — disse.
— Só queria poder pedir desculpas por não ter encontrado o caminho.
Emília apertou a alça da bolsa.
— Eu ainda não sei o que vou sentir.
Talvez raiva.
Talvez nada por algum tempo.
— Você tem esse direito.
Elas se despediram sem abraço.
À noite, Emília voltou ao restaurante para explicar ao gerente por que precisaria trocar dois turnos.
Álvaro aceitou e contou que Tomás telefonara perguntando pelos horários dela.
Ele se recusara a fornecer informações.
Emília agradeceu.
Pela primeira vez pensou em registrar por escrito tudo o que acontecera desde a mesa do restaurante.
Não queria que outra pessoa contasse sua história antes dela.
Pouco depois, Davi ligou para Renata.
Sua voz parecia distante, abafada pelo barulho da rua.
— Helena concordou em conversar — informou.
— Mas Tomás esteve na casa dela hoje.
Ela disse que ele levou um documento para ela assinar.
— Que documento? — perguntou a advogada.
Davi fez uma pausa.
— Uma declaração dizendo que nunca levou criança nenhuma para o convento.
E que, se ela não assinar, ele vai contar uma versão em que toda a culpa é dela.
O papel era uma ameaça nova, feita no presente, não uma lembrança da noite do incêndio.
Para saber por que Helena ainda temia o próprio irmão, continue na Parte 4.













