O homem na rodoviária tinha a última página do caderno que eu perdera aos onze anos.
Vi primeiro o papel. Estava dentro de uma capa plástica, na mão de um homem de barba curta e camisa azul, parado perto do portão de embarque. No canto da folha havia uma casa desenhada com telhado azul, duas janelas amarelas e um cachorro tão torto que parecia um ponto de interrogação.
Eu tinha feito aquele desenho em novembro de 2008, na noite em que a chuva nos obrigou a sair de casa, em Itajaí.
— Ana? — ele perguntou.
Reconheci a voz das mensagens que trocávamos havia meses. Mas, ao ouvi-la diante de mim, levei alguns segundos para conseguir responder.
— Rafael.
Meu irmão tinha trinta e quatro anos. Eu, vinte e nove. Quando nos separamos, ele tinha dezesseis e eu ainda dormia com a luz do corredor acesa. Agora havia fios grisalhos perto de suas têmporas. Ele tentou sorrir, e aquele jeito de apertar os lábios me devolveu uma lembrança que fotografia nenhuma tinha conseguido recuperar.
Nós nos abraçamos de maneira desajeitada, com medo de que um gesto errado quebrasse alguma coisa. Depois ele me mostrou a folha.
— Acho que é sua.
Tirei a capa das mãos dele sem pensar. Reconheci até a estrela vermelha que Rafael acrescentara ao telhado para me irritar. Eu tinha ficado furiosa com aquilo e, meia hora depois, pedira que ele desenhasse outra.
A última vez que vi o caderno verde foi num ginásio improvisado como abrigo, durante as enchentes de 2008. Lembro de colchões no chão, cobertores úmidos e uma mulher distribuindo copos de água. Lembro de Rafael dizendo que voltaria. Depois, só recordo a mão da tia Vera me conduzindo para fora.
Durante anos, a explicação foi sempre a mesma: Rafael tinha ido embora com nosso pai e nunca mais procurara a família.
Eu acreditei nisso até começar a procurar por conta própria.
Em janeiro, uma associação que reunia registros antigos dos abrigos ajudou a cruzar meu pedido de busca com o de um homem chamado Rafael Moreira. Conversamos primeiro por telefone. Ele sabia o nome da professora que me ensinara a ler e o apelido que eu tinha dado à nossa cachorra. Eu sabia da cicatriz que ele escondia no joelho esquerdo. Não bastava para explicar dezoito anos, mas bastava para combinarmos um encontro.
— Onde você encontrou isto? — perguntei, levantando a folha.
— Numa caixa de documentos do tio Celso. Ele me criou depois da enchente. Minha prima me entregou a caixa no mês passado.
Celso era irmão do nosso pai. Eu sabia seu primeiro nome, mas não sabia que Rafael tinha passado a adolescência em Blumenau. Ele, por sua vez, acreditava que eu tinha saído de Santa Catarina com nossa mãe.
— Eu fui para Joinville com a tia Vera — expliquei. — Minha mãe ficou no abrigo. Pelo menos foi o que me disseram.
Rafael olhou para o chão.
— Me disseram que você tinha ido com ela. Eu voltei ao ginásio para procurar vocês, Ana. Mais de uma vez.
Senti uma vontade infantil de perguntar por que ele não tinha me encontrado. Controlei a pergunta. Eu também passara anos procurando por ele, e nenhuma tentativa tinha sido suficiente.
Sentamos num banco de metal, afastados da fila dos ônibus. As pessoas passavam levando malas, crianças, sacolas de comida. Para elas, éramos apenas dois adultos examinando uma folha velha.
— Você lembra do dia em que desenhou isso? — ele perguntou.
— Lembro que você disse que minha casa parecia uma caixa de sapatos.
Rafael soltou uma risada breve, que terminou antes de se transformar em alegria.
— Eu disse que o cachorro parecia uma vírgula.
— Um ponto de interrogação.
Ele assentiu. Por um momento, reconheci o menino que reclamava quando eu pegava seus lápis.
Passei o dedo pela borda irregular da página. Ela não tinha sido arrancada com cuidado. Havia uma pequena parte do espiral ainda presa ao papel.
— Achei que o caderno tivesse ficado debaixo d’água.
— Estava junto de uma pasta de documentos dos abrigos. Não sei como foi parar com o tio Celso.
Então ele hesitou, como se a próxima frase lhe custasse mais do que todos os quilômetros percorridos.
— Tem uma coisa no verso. Eu só vi quando tirei a folha do envelope.
Virei o papel.
Havia quatro linhas escritas com caneta azul. A tinta estava desbotada, mas as letras continuavam firmes. Reconheci a forma inclinada do M e a maneira como a pessoa cortava o t. Minha mãe escrevia assim nas etiquetas dos meus cadernos.
Li a primeira linha e senti o rosto esquentar.
“Vera, leve a Ana para Joinville antes do amanhecer.”
A segunda era pior.
“Não diga ao Rafael para onde. Vou buscar meu filho depois de conversar com o pai dele.”
No fim, uma assinatura: Marta.
Li outra vez, procurando alguma palavra que mudasse o sentido. Rafael ficou quieto. Ele não precisava me perguntar se eu conhecia aquela letra.
— Você sabia disso? — perguntei.
— Não. Até o mês passado, eu acreditava que você tinha ido embora sem se despedir.
Minha tia sempre dissera que ninguém conseguira localizar Rafael depois da enchente. Minha mãe repetira que ele escolhera ficar com nosso pai. Mas a folha sugeria outra coisa: ao menos naquele momento, havia existido uma ordem para que ele não soubesse para onde eu seria levada.
Pensei em todas as noites em que me culpei por não ter corrido atrás dele no ginásio.
Segurei a página contra o peito. Eu finalmente tinha meu irmão à minha frente. E, pela primeira vez, desconfiava que nossa separação não tinha acontecido apenas por causa da enchente.
— Rafael — falei, com a voz quase falhando —, se a mamãe pretendia buscar você, por que passamos dezoito anos sem nos encontrar?













