— Posso ver a sua marca de nascença?
Emília parou com o prato suspenso sobre a mesa. A pergunta tinha vindo de uma cliente que, até aquele instante, parecia prestar atenção apenas ao jantar. Agora, a mulher estava de pé, segurando o antebraço da jovem com uma urgência que fez o homem ao lado dela erguer os olhos.
O restaurante, nos Jardins, em São Paulo, continuava cheio de conversas baixas e talheres. Mas, para os três, tudo pareceu ficar em silêncio.
— Minha marca? — Emília perguntou.
A mulher apontou, sem conseguir disfarçar o tremor, para o dorso da mão da garçonete. Ali havia uma mancha de nascença com o desenho quase perfeito de um coração.
— Essa. Você sempre teve?
— Desde bebê — respondeu Emília, puxando o braço devagar. — Por quê?
Margarida Azevedo não respondeu.
Havia vinte e dois anos que ela tentava aprender a viver com uma ausência. Na noite do incêndio no hospital, disseram que sua filha recém-nascida tinha morrido. As enfermeiras foram firmes. A bebê não havia sobrevivido. Mas ninguém lhe mostrou o corpo.
Por muito tempo, Margarida se agarrou a essa última parte. Depois, passou a ter vergonha da própria esperança. O mundo continuou; a menina não voltou. E, mesmo assim, Margarida nunca conseguiu esquecer a pequena marca no dorso da mão da filha.
Agora ela estava ali, diante dela, na mão de uma jovem que trabalhava servindo mesas.
Margarida observou o rosto de Emília, tentando encontrar ali algo que tivesse guardado na memória. Mas o tempo podia mudar qualquer rosto. A marca era diferente: estava no mesmo lugar e tinha o mesmo formato. Não bastava para provar nada, ela sabia. Ainda assim, depois de tantos anos ouvindo que precisava aceitar o impossível, era a primeira vez que uma pessoa real estava diante dela com algo que sua filha também tivera.
— Senhora? — Emília insistiu. — Está se sentindo bem?
Margarida levou uma das mãos à boca. Suas pernas cederam, e ela se ajoelhou no piso do restaurante.
— Margarida! — chamou Tomás, inclinando-se sobre a mesa. — O que está fazendo?
Ela mal ouviu. Com dedos trêmulos, abriu a bolsa e procurou uma peça que guardava havia mais de duas décadas: um medalhão antigo de prata, pequeno o bastante para caber na palma da mão.
Ergueu-o na direção de Emília.
— Você já viu um igual a este?
A expressão educada da garçonete desapareceu. Os olhos passaram do metal envelhecido para o rosto de Margarida, depois voltaram ao medalhão.
— Onde a senhora conseguiu isso?
— Responda, por favor.
Emília olhou para Tomás, como se esperasse que ele explicasse o que estava acontecendo. Ele permanecia imóvel, com os lábios apertados.
Então a jovem levou os dedos à gola do uniforme. Abriu com cuidado o primeiro botão e puxou para fora a corrente que escondia sob a roupa.
Pendurado nela havia outro medalhão de prata. Igual ao de Margarida.
Por um instante, as duas mulheres ficaram apenas olhando para as peças. Emília ainda segurava a corrente com uma mão; a outra continuava próxima à gola aberta do uniforme. Margarida, ajoelhada, estendeu o próprio medalhão sem se aproximar mais, como se um gesto brusco pudesse fazer aquela resposta desaparecer.
Não eram medalhões parecidos, do tipo que alguém poderia comprar por acaso numa loja. Formavam um par. Margarida sabia disso porque os dois tinham sido feitos juntos: um para ela, outro para a filha que acabara de nascer.
O segundo fora colocado no pescoço da bebê naquele mesmo dia.
— Como a senhora sabe desse medalhão? — perguntou Emília, a voz agora muito baixa.
Margarida começou a chorar. O passado, que durante vinte e dois anos parecera uma porta trancada, acabava de se abrir diante de seus olhos. Ela queria tocar o rosto da jovem, fazer perguntas, acreditar. Mas ainda tinha medo de transformar uma coincidência em certeza.
Tomás se levantou de repente.
— Margarida, isso não prova nada.
Ela ergueu a cabeça. Conhecia o marido o bastante para perceber a diferença entre surpresa e medo.
— Então por que você está com medo?
O rosto dele se fechou.
Emília deu um passo para trás e apertou o medalhão contra o peito.
— Minha mãe de criação sempre disse que um desconhecido me deixou num convento — contou. — Nunca soube quem era aquela pessoa.
Margarida se apoiou na beirada da mesa para se levantar.
— Qual convento?
— Santa Ana.
A resposta a atingiu com mais força do que o medalhão. Vinte e dois anos antes, a irmã de Tomás trabalhava justamente no Convento de Santa Ana.
Margarida virou-se lentamente para o marido.
— Você sabia onde ela estava.
Tomás não respondeu à acusação. Em vez disso, estendeu a mão e segurou o braço de Emília.
— Nós precisamos ir embora.
— Me solta! — disse a jovem, afastando-se.
O gerente do restaurante se aproximou. Estava pálido, olhando alternadamente para a garçonete e para a porta de vidro.
— Emília, tem um homem lá fora perguntando por você.
A jovem virou o rosto para a janela.
Junto ao meio-fio havia um carro preto. Ao lado dele, um homem segurava uma fotografia antiga: Margarida, muitos anos mais jovem, com uma recém-nascida nos braços.













