— Cadê o seu marido, Sofia? Inventou um casamento?
Lucas apontou para a aliança no dedo dela e começou a rir.
A pergunta foi alta o suficiente para interromper duas conversas próximas. Alguns convidados viraram a cabeça. Outros fingiram não ouvir, mas continuaram olhando.
Sofia permaneceu imóvel, segurando uma pasta com seus projetos de arquitetura.
Ela não esperava reencontrar o ex-noivo naquela noite. Muito menos ser humilhada por ele diante de pessoas que poderiam decidir o futuro de sua carreira.
A gala acontecia em um elegante centro de eventos em São Paulo. Arquitetos, empresários e investidores circulavam entre maquetes, apresentações de projetos e pequenas mesas de coquetel.
Sofia havia passado semanas preparando os desenhos que carregava nas mãos.
Aquela era uma oportunidade profissional importante.
E Lucas sabia disso.
— Estou falando sério — insistiu ele, ainda sorrindo. — Você aparece com uma aliança, diz que está casada, mas ninguém nunca viu esse marido.
Bianca, que estava ao lado dele, soltou uma risada.
— Lucas, para! — disse, sem fazer qualquer esforço para esconder a diversão. — Vai ver ele é muito tímido.
Os dois riram.
Sofia sentiu o rosto esquentar, mas não abaixou a cabeça.
Conhecia Lucas o suficiente para saber que uma resposta atravessada seria exatamente o que ele queria.
Durante o relacionamento, ela havia aprendido a reconhecer aquele sorriso: primeiro vinha uma provocação aparentemente inocente, depois outra um pouco mais cruel. Quando alguém demonstrava incômodo, Lucas dizia que era apenas uma brincadeira.
Naquela noite, porém, ele estava fazendo isso diante de desconhecidos.
E diante de pessoas com quem Sofia ainda precisava conversar sobre seus projetos.
— Você terminou de falar? — perguntou ela, mantendo a voz firme.
Lucas pareceu se divertir ainda mais.
— Nossa, ficou ofendida?
Ele apontou novamente para a mão esquerda dela.
A aliança era discreta, uma faixa dourada sem pedras chamativas. Sofia nunca havia sentido necessidade de usá-la para provar alguma coisa a ninguém.
Mas Lucas continuava olhando para aquele pequeno anel como se tivesse encontrado uma maneira de ridicularizá-la.
— Só achei curioso — disse ele. — Um casamento inteiro e ninguém conhece o noivo.
Bianca inclinou a cabeça.
— Talvez ele esteja viajando.
— Ou talvez nem exista — completou Lucas.
Mais algumas pessoas riram.
Uma mulher que examinava uma das maquetes se virou. Dois investidores interromperam a conversa que mantinham perto de uma mesa.
Sofia percebeu os olhares.
Sua vontade era simplesmente ir embora.
Não porque tivesse vergonha de estar casada, mas porque não queria transformar um evento profissional em uma discussão sobre sua vida pessoal.
Ela apertou a pasta contra o corpo.
Dentro estavam os desenhos de um projeto no qual havia trabalhado durante meses. Plantas, perspectivas, detalhes técnicos. Um trabalho que merecia ser avaliado pelo que era, e não pelo comportamento infantil de alguém do seu passado.
— Minha vida pessoal não é assunto seu, Lucas.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Claro que não. Só estou perguntando onde está o homem misterioso.
Sofia respirou fundo.
Por um instante, lembrou-se de como se sentia quando ainda estavam noivos. Lucas tinha uma habilidade especial para fazer os outros rirem e, ao mesmo tempo, deixar alguém desconfortável.
Na época, ela demorava a perceber quando a piada tinha ultrapassado o limite.
Agora percebia imediatamente.
— Eu vim apresentar meu trabalho — respondeu. — Não discutir meu casamento com você.
Lucas abriu os braços, como se estivesse diante de uma plateia.
— Está vendo, Bianca? Ela não responde.
Bianca levou a taça aos lábios para esconder outra risada.
Sofia olhou ao redor.
Havia curiosidade nos rostos próximos. Algumas pessoas pareciam constrangidas. Outras aguardavam uma resposta que encerrasse aquela situação.
Mas ninguém interferiu.
Lucas aproveitou o silêncio.
— Quer saber? Eu até gostaria de conhecer esse marido. Deve ser um sujeito incrível para ninguém nunca ter ouvido falar dele.
Sofia baixou os olhos por um segundo.
Viu a aliança refletindo a luz dourada do salão.
Pensou nas razões pelas quais a usava. Na tranquilidade que sentia quando olhava para ela. Na vida que havia construído desde que seu relacionamento com Lucas chegara ao fim.
Nada daquilo precisava da aprovação do ex-noivo.
— Lucas, chega.
Dessa vez, sua voz saiu mais firme.
Ele riu novamente.
— Calma, Sofia. É só uma pergunta.
Foi então que alguém se aproximou por trás dele.
Um homem alto, de postura tranquila, vestindo um terno preto impecável.
Mateo.
Ele havia acompanhado parte da situação a poucos passos de distância.
Não parecia apressado.
Não levantava a voz.
Apenas caminhou até parar atrás de Lucas.
Sofia o reconheceu imediatamente.
Por um instante, seus olhos se encontraram.
Ela não precisou dizer nada.
Lucas, ocupado demais com a própria provocação, não percebeu a presença dele.
— Então? — insistiu, olhando para Sofia. — Cadê seu marido?
Mateo parou.
Sua voz saiu grave e perfeitamente audível.
— Bem aqui.
O sorriso de Lucas permaneceu no rosto por uma fração de segundo.
Então ele se virou.
E viu Mateo.
O homem de terno preto não desviou o olhar.
Deu um passo para o lado de Sofia e segurou delicadamente a mão esquerda dela, aquela em que brilhava a aliança.
O gesto foi simples.
Não houve ameaça.
Não houve discussão.
Mas foi suficiente para silenciar as pessoas mais próximas.
Bianca parou de rir.
Sofia percebeu que Lucas havia reconhecido Mateo.
Não apenas como um estranho interrompendo uma conversa.
Havia algo diferente naquela expressão.
O rosto dele perdeu a cor. Os olhos, antes cheios de arrogância, se arregalaram ligeiramente.
Sua mão, que poucos segundos antes apontava para a aliança de Sofia, ficou suspensa no ar.
Depois desceu devagar.
Lucas abriu a boca, como se fosse dizer alguma coisa.
Mas nenhuma palavra saiu.
Sofia olhou para o ex-noivo e depois para Mateo.
O que Lucas sabia sobre seu marido?
Por que aquele homem, que até segundos antes parecia tão seguro de si, agora estava completamente apavorado?
Mateo continuava ao lado dela, segurando sua mão.
E Lucas não conseguia tirar os olhos dele.













