Dois dias depois do encontro na estação, Margarida recebeu uma mensagem de Ana.
Ela continha apenas uma fotografia: Lucy sentada no chão da sala, desenhando um coração com duas cores diferentes.
Embaixo, Ana escrevera que a menina estava bem e que, por enquanto, preferia tratar o assunto sem criar expectativas.
Margarida releu a mensagem várias vezes. Queria perguntar se Lucy havia falado dela. Queria oferecer ajuda, mostrar mais fotografias, conhecer a voz da menina quando não estava assustada com uma estação cheia de gente.
Em vez disso, respondeu agradecendo e disse que respeitaria o tempo das duas.
Na semana seguinte, Ana a convidou para conversar com Helena Paiva, uma advogada de família indicada por pessoas de sua confiança. O encontro aconteceu no escritório de Helena, numa rua tranquila de São Paulo.
Lucy não foi. Ficou com uma tia, brincando como qualquer criança de sete anos deveria poder brincar.
— Antes de procurar alguém, precisamos distinguir lembranças de provas — explicou Helena. — O colar é uma pista importante, não uma certidão de parentesco.
Margarida colocou sobre a mesa a fotografia do aniversário de dezoito anos de Carolina.
Também levou uma antiga folha de caderno, escrita pela filha quando ainda moravam juntas. Nela, Carolina anotara ingredientes para um bolo e fizera pequenos desenhos nas margens.
Ana tirou da pasta a cópia da mensagem que acompanhara Lucy.
O laço da letra L era semelhante. A inclinação também. Margarida sentiu a certeza crescer, mas Helena não deixou que aquela comparação fosse tratada como conclusão.
— Podemos registrar essa semelhança. Para confirmar a origem da Lucy, o caminho adequado é consultar as informações do processo, pelos meios legais e com proteção à intimidade dela.
Ana concordou.
— Eu sou a mãe dela. Quero que ela tenha acesso à própria história, mas não quero transformar a curiosidade dos adultos numa invasão.
— É a atitude certa — disse Helena.
Margarida se surpreendeu ao perceber que não estava sendo afastada. Estava aprendendo que havia uma diferença entre encontrar uma pista e adquirir o direito de exigir respostas imediatas.
Na saída, Ana fez um convite inesperado.
— Posso perguntar uma coisa difícil?
— Pode.
— O que aconteceu entre a senhora e Carolina antes de ela desaparecer?
Margarida parou na calçada. Durante sete anos, descrevera aquela época como uma série de desentendimentos. Era uma palavra confortável, que não obrigava ninguém a explicar o que havia sido dito.
— Minha filha estava envolvida com um homem chamado Tiago — começou. — Eu não gostava dele.
— Por quê?
— No começo, achava que ele era arrogante. Depois percebi que controlava com quem ela falava, aonde ia, até a roupa que usava. Mas eu prestava mais atenção nas brigas que Carolina arrumava comigo do que no medo que ela demonstrava.
Ana permaneceu em silêncio.
— Um dia, ela apareceu em casa querendo ficar por algum tempo. Disse que Tiago tinha começado a segui-la. Eu respondi que ela precisava resolver a própria vida e parar de voltar para casa apenas quando as coisas davam errado.
Margarida levou a mão ao pescoço, onde costumava sentir a metade do coração.
— Ela perguntou se eu acreditava nela. Eu disse que estava cansada de ser colocada no meio dos problemas do casal.
Ana fechou os olhos por um instante.
— E depois?
— Carolina saiu. Nós ainda trocamos poucas mensagens, cada vez mais curtas. Até que parou de responder. Não fui eu quem descobriu que estava grávida. Se Lucy for minha neta, houve meses inteiros da vida dela que eu desconheci.
Era a primeira vez que Margarida narrava aquela conversa sem tentar se defender.
Não sabia se sua reação tinha sido o motivo principal do afastamento. Sabia apenas que, quando Carolina pediu abrigo, ela ofereceu uma lição.
Nas semanas seguintes, Ana apresentou, com orientação de Helena, o pedido adequado para consultar dados sobre a origem da filha. O procedimento exigiu espera e análise. Nenhuma porta se abriu apenas porque Margarida estava ansiosa.
Enquanto isso, as duas mulheres mantiveram um contato discreto.
Certa tarde, encontraram-se num parque com Lucy. A menina correu até um banco e mostrou a Margarida uma folha que parecia ter formato de estrela.
— Você também gosta de guardar coisas pequenas? — perguntou.
Margarida sorriu.
— Minha filha guardava bilhetes de ônibus e tampinhas de caneta. Dizia que as lembranças cabiam em qualquer bolso.
— Eu guardo pedrinhas.
— Então talvez você tenha uma coleção melhor que a dela.
Lucy riu. Ana observou de longe, sem interferir e sem abandonar a atenção.
Naquele encontro, ninguém mencionou parentesco. Margarida descobriu que Lucy não gostava de barulho de liquidificador e adorava desenhar portas coloridas. Coisas mínimas, que não cabiam num processo judicial, mas ajudavam a menina a deixar de ser apenas uma possibilidade.
Depois daquele passeio, Margarida passou a anotar num caderno perguntas que desejava fazer e que ainda não lhe cabia dirigir a Lucy. Quando tinha vontade de ligar para Ana sem motivo, relia a primeira página: conhecer uma criança exigia mais paciência do que solucionar um mistério.
Foi quase um mês depois que Helena telefonou.
— Ana recebeu uma resposta sobre os registros de origem. Ela quer que a senhora esteja presente quando conversarmos, mas alguns documentos só poderão ser vistos e compartilhados nos limites autorizados.
Margarida foi ao escritório com as pernas trêmulas.
Helena explicou que o registro acessível à responsável legal identificava a mulher que dera à luz Lucy. A informação estava protegida; não poderia ser transformada em notícia pública, nem usada para perseguir alguém que escolhesse manter distância.
Ana segurou a mão de Margarida antes de dizer o nome.
— Carolina Duarte.
Margarida levou alguns segundos para respirar.
O nome por si só encerrava uma dúvida enorme. A menina que lhe devolvera o colar era filha de Carolina. Mas o documento continha uma data que tornava tudo ainda mais difícil.
Não se tratava apenas do registro de nascimento. Constava que Carolina comparecera pessoalmente, assistida pelas pessoas responsáveis pelo procedimento, para confirmar uma decisão sobre a criança meses depois de ter cortado contato com Margarida.
Naquele dia, Carolina estava viva.
E, enquanto a mãe a procurava em delegacias e hospitais, ela estivera diante de uma autoridade, pronunciando o nome da própria filha.
Por que Carolina tinha escolhido continuar ausente? A resposta exigiria entender o que acontecera naquela audiência.
Para acompanhar a decisão que separou mãe, filha e avó, leia a Parte 4.













