Por alguns segundos, nenhuma de nós moveu a mão.
O papel continuava aberto entre a máquina de cartão e o caderno amarelo, como se a frase pudesse mudar caso esperássemos o suficiente.
— Quem guardou isso? — perguntei outra vez.
Noemi puxou a cadeira e finalmente se sentou.
— Uma senhora chamada Tereza Duarte. Ela conheceu sua mãe em Ponta Grossa e guardou o caderno durante anos.
— Por que ela entregou a você só agora?
— Porque eu só a encontrei agora. Minha mãe de criação me deu o nome dela depois de muita conversa. Tereza disse que Joana havia pedido que o caderno ficasse guardado até uma de nós aparecer procurando respostas.
A expressão “mãe de criação” me fez olhar novamente para o rosto de Noemi.
Ela percebeu e respondeu à pergunta que eu ainda não tinha coragem de fazer.
— Fui adotada quando era bebê. Sempre soube disso. Meus pais nunca esconderam a adoção, mas escondiam quase tudo sobre a mulher que me teve.
— Sua mãe de criação está viva?
— Está. Marta Valente. Meu pai, Renato, morreu há seis anos. Eu amo os dois. Não vim aqui procurando alguém para ocupar o lugar deles.
Aquela última frase me atingiu mais do que uma acusação.
Noemi não estava pedindo que eu apagasse a vida que ela já possuía; queria apenas saber por que lhe faltava uma parte.
— E como chegou ao meu nome aos dezoito anos?
— Minha mãe me mostrou uma cópia antiga de um papel da adoção. Havia o nome de Joana. Depois encontrei uma referência à filha mais velha dela. Pesquisei até descobrir que você tinha morado em Curitiba.
Olhei para a data no alto da folha dobrada.
Era de 1995.
Eu tinha onze anos naquele período e lembrava de ter passado algumas semanas na casa de tia Lúcia enquanto minha mãe viajava.
Ela dissera que precisava ajudar uma parente doente.
Eu reclamara da saudade, e Joana me trouxera um chaveiro barato quando voltou.
Até aquele instante, nunca pensei em perguntar em qual cidade realmente estivera.
— Você nasceu em 1995? — perguntei.
— Em setembro. Tenho trinta e um anos.
A distância entre nós deixou de ser abstrata.
Eu já sabia escrever meu nome naquele caderno quando Noemi nasceu, mas não sabia que ela havia respirado pela primeira vez.
— Minha mãe costumava me dizer que algumas decisões não podiam ser desfeitas — falei. — Nunca explicou de quais decisões estava falando.
Noemi não tentou transformar aquela lembrança em resposta.
Em vez disso, deslizou uma fotografia pequena sobre o balcão.
Mostrava uma mulher jovem segurando um bebê num quarto simples; a imagem estava amarelada e o rosto da mulher aparecia de perfil.
— Essa foto estava entre os documentos da minha adoção. Marta diz que é Joana.
Aproximei a fotografia da luz.
Reconheci a curva do nariz e o brinco redondo que minha mãe usava quando eu era criança.
A mulher do retrato parecia exausta, mas olhava para o bebê com atenção.
Não bastava para explicar sua escolha.
Bastava para tornar impossível continuar chamando tudo aquilo de engano.
— Posso fotografar? — pedi.
— Pode. Só não queria entregar a original antes de conversarmos.
Respeitei o limite.
Tirei uma foto com o celular, devolvi o retrato e fui buscar água para nós duas.
Enquanto enchia os copos, percebi que tinha começado a pensar em Noemi não como uma visitante, mas como alguém cuja versão dos fatos eu precisava proteger.
— Você ainda tem a carta que me escreveu?
— Guardei uma cópia. E guardei a resposta.
Virei-me tão depressa que um pouco de água caiu na pia.
— Houve uma resposta?
— Houve. Chegou algumas semanas depois. Era curta e dizia que você não queria contato.
— Mas eu não escrevi nada.
— Hoje acredito nisso. Antes de vir, passei duas noites tentando decidir se estava sendo ingênua.
Perguntei se podia ver a resposta, mas Noemi explicou que a havia deixado em casa.
Tinha receio de perder mais uma lembrança durante a viagem.
Prometeu trazer uma cópia no dia seguinte.
Não insisti.
Naquela época, eu voltava à casa de Joana quase todos os domingos, e ela sempre fazia questão de me entregar pessoalmente contas, convites e propaganda que chegavam no meu nome.
Havia uma confiança tão antiga naquele gesto que eu nunca conferia datas nem carimbos.
Agora me perguntava se, entre aquelas correspondências inofensivas, uma carta importante tinha sido separada antes de chegar às minhas mãos.
A pergunta me deixou envergonhada, como se desconfiar de uma mulher morta fosse desrespeitar todos os cuidados que ela me dedicara.
Mas não conseguia voltar à inocência da manhã anterior.
Queria saber, e queria ouvir a resposta mesmo que doesse.
Contei a ela que Joana mantivera seus papéis em caixas etiquetadas até os últimos meses da doença.
Eu tinha examinado tudo depois da morte, menos uma mala antiga que entregara a tia Lúcia porque continha roupas e coisas de família.
— Talvez haja alguma coisa com ela — eu disse.
Noemi passou o dedo pela borda do copo.
— Se encontrarmos uma explicação, ela não vai devolver os anos que perdemos.
— Não. Mas talvez impeça que a gente perca mais anos por causa de uma mentira.
Ela ergueu os olhos pela primeira vez sem medo de me encarar.
Disse que precisava voltar a Ponta Grossa naquela noite, pois trabalhava numa clínica odontológica e tinha atendimento cedo.
Trocamos números de telefone, combinamos um encontro para o sábado e guardamos cada objeto com cuidado.
O caderno continuaria com ela, por enquanto.
Antes de sair, Noemi parou junto à porta.
— Eu ensaiei tantas vezes o que diria se você me rejeitasse. Não ensaiei nada para o caso de você também ter sido enganada.
— Eu também não sei o que fazer com isso — respondi. — Mas não vou fingir que você não veio.
Quando a porta se fechou, tirei o aviso de intervalo e fiquei atrás do balcão, olhando o espaço vazio onde o caderno estivera.
Minha mãe tinha me ensinado a conservar livros porque as páginas guardavam o que as pessoas esqueciam.
Pela primeira vez, temi que ela tivesse usado o mesmo cuidado para esconder alguma coisa.
À noite, Noemi me mandou uma fotografia da resposta recebida aos dezoito anos.
O texto era datilografado e terminava com o meu nome.
Mas, no verso, havia uma anotação a caneta, numa letra que eu conhecia melhor do que a minha.
Eu reconheci a escrita de Joana antes mesmo de entender o que ela havia anotado.
Precisava descobrir por que minha mãe estivera com uma carta que supostamente viera de mim.
Para acompanhar o que a anotação revelaria, continue na Parte 3.













