Eu não voltei para a mesa de jantar.
Pedi a Marcos que me enviasse uma cópia da mensagem e disse a Ricardo que precisava sair dali.
A mala continuava junto à porta, com uma das rodinhas presa na soleira.
— Eu posso levar você — ofereceu meu marido.
— Hoje não — respondi.
— Vou chamar um carro.
Cláudia tentou começar outra discussão, mas Marcos a interrompeu com uma serenidade quase desconcertante.
— Teresa será informada do que ocorreu.
— É melhor que nenhum de vocês mexa em documentos ou mensagens relacionados a esse assunto.
Saí antes que minha sogra encontrasse outra maneira de me ferir.
Do lado de fora, a noite estava úmida, e os faróis dos carros desenhavam reflexos compridos na rua.
Quando o motorista chegou, coloquei a mala no porta-malas e mandei uma mensagem para minha amiga Lívia.
Ela morava num apartamento pequeno na Vila Mariana, com uma sala que funcionava também como quarto de hóspedes.
Respondeu que a porta estaria aberta e que eu não precisaria explicar nada antes de dormir.
Só chorei quando vi aquelas palavras na tela.
Lívia me recebeu com um copo de água e uma toalha limpa.
Não fez perguntas sobre Ricardo nem insinuou que eu deveria voltar para casa.
Sentou-se comigo até que eu conseguisse respirar sem sentir o peito apertado.
Na manhã seguinte, encontrei onze mensagens do meu marido.
Havia pedidos de desculpas, a promessa de conversar com a mãe e uma pergunta repetida: onde você está?
Não respondi à última.
Eu ainda não sabia se queria que ele viesse atrás de mim.
Escrevi apenas que estava segura e que qualquer conversa precisava acontecer longe da mãe dele.
Depois pedi a Marcos, por e-mail, os documentos que pudesse compartilhar comigo e a possibilidade de falar com Teresa.
Não queria que o advogado decidisse quem estava certo no meu casamento.
Queria uma informação que fosse minha, sem passar pelo filtro de Ricardo.
Teresa me ligou no começo da tarde.
Sua voz era baixa e um pouco rouca.
Ela começou pedindo desculpas por eu ter descoberto a história do imóvel daquela maneira.
— A casa é minha, Sofia, mas eu a emprestei para vocês construírem a vida de vocês — explicou.
— Nunca dei a Cláudia autoridade para expulsar ninguém.
Perguntei por que meu nome constava no contrato se eu não o assinara.
Teresa esclareceu que o acordo de empréstimo fora feito com Ricardo, mas descrevia expressamente a finalidade de servir de residência ao casal.
Não significava que eu fosse proprietária nem eliminava a necessidade de avaliar o contrato antes de qualquer mudança.
— Eu achava que você conhecia os termos — disse ela.
— Foi um erro meu não conversar diretamente com você.
Contei sobre o formulário enviado a Cláudia.
Teresa ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse que uma imagem de assinatura, sozinha, não provava a origem de uma mensagem.
Era por isso que ela pedira a Marcos que verificasse tudo pessoalmente.
— Eu não preciso que a senhora me dê uma casa — falei.
— Preciso que ninguém fale por mim outra vez.
— Isso eu compreendo.
No fim da ligação, Teresa fez um convite.
Queria encontrar Ricardo, Cláudia e eu no escritório de Marcos dois dias depois, para esclarecer o que havia acontecido.
A participação seria voluntária, e eu poderia ir acompanhada de alguém de minha confiança.
Passei a tarde colocando em ordem o que sabia.
Guardei a cópia do formulário original, o comprovante de envio pelo celular e as mensagens que recebera de Ricardo.
Também anotei, para não esquecer, as palavras exatas que Cláudia havia usado naquela noite.
Lívia me observou espalhar papéis pela mesa da cozinha.
— Você está tentando provar que não merece ser tratada daquele jeito?
A pergunta me paralisou.
Eu passara anos explicando minha educação, minhas intenções, minhas escolhas e até minhas expressões faciais.
Como se, com argumentos suficientes, fosse possível convencer Cláudia de que eu tinha o direito de existir naquela família.
— Acho que estou tentando parar de duvidar do que aconteceu — respondi.
Lívia colocou a mão sobre a minha.
— Então comece pelo que você viu com os próprios olhos.
Naquela noite, Ricardo ligou.
Atendi porque não queria que ele pensasse que um pedido de desculpas por mensagem encerraria o assunto.
— Eu devia ter impedido minha mãe — disse ele.
— Devia, sim.
Houve uma pausa.
— Ela vinha insistindo que você precisava passar uns dias fora.
— Eu achei que, se não discutisse, tudo ficaria mais fácil.
Perguntei se ele sabia que a mãe planejava levar minha mala até a porta.
Ele respondeu que não.
Mas admitiu ter permitido que Cláudia organizasse o jantar com a intenção de falar sobre uma separação temporária.
— Separação temporária decidida por quem? — perguntei.
— Pela sua mãe?
— Eu não concordei com ela de verdade.
— Também não discordou — respondi.
Foi difícil pronunciar aquilo sem levantar a voz.
Ricardo tinha uma maneira de pedir desculpas que me convidava a cuidar imediatamente da culpa dele.
Dessa vez, deixei que a responsabilidade permanecesse onde estava.
— Há quatro dias alguém escreveu em meu nome dizendo que nosso casamento tinha acabado — continuei.
— Você recebeu cópia?
Ele disse que Cláudia lhe mostrara uma impressão, afirmando que eu estava preparando a saída.
Perguntei por que não havia falado comigo.
— Porque acreditei que você estava magoada e não queria conversar.
— Mas você conversava comigo todos os dias, Ricardo.
— Dormíamos na mesma casa.
A linha ficou silenciosa.
Eu ouvia a respiração dele e o barulho distante de uma televisão.
Era estranho descobrir que a proximidade física podia esconder uma distância tão grande.
No dia seguinte, Marcos me telefonou para confirmar o encontro.
Informou que pedira a preservação dos registros da mensagem recebida e de seus anexos, mas não prometeu descobrir automaticamente quem a enviara.
Disse também que Teresa preferia ouvir cada pessoa antes de decidir sobre a continuidade do comodato.
Aceitei comparecer.
Pedi a Lívia que me acompanhasse até a porta do escritório e aguardasse por perto.
Não precisava de uma testemunha para a minha dor; precisava saber que poderia sair quando quisesse.
Poucas horas antes da reunião, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
Não havia assinatura.
Apenas uma frase: Se você insistir em falar sobre o e-mail, Ricardo vai descobrir outras coisas.
Mostrei a tela a Lívia.
Dessa vez, não senti vergonha nem vontade de apagar a mensagem.
Senti que o silêncio que eu aceitara durante anos estava sendo usado contra mim.
Quem tentava me assustar, e que outras coisas Ricardo ainda não sabia?
Acompanhe o encontro decisivo na Parte 4.













