A água escorreu pelo rosto do meu marido diante de toda a família.
Mateus ficou imóvel, com a camisa encharcada, enquanto eu apertava o copo vazio entre os dedos.
— Você teve coragem de trazer ela aqui?!
Ninguém respondeu. Até as conversas nas mesas próximas pareceram diminuir.
Naquele momento, eu tinha certeza de que meu marido estava me traindo.
O que eu ainda não sabia era que a mulher ao lado dele estava prestes a destruir essa certeza.
Meu nome é Alessandra, tenho trinta e seis anos e sou casada com Mateus há onze.
Até três semanas antes daquela noite, eu nunca havia tido um motivo sério para desconfiar dele.
Nosso casamento não era perfeito. Tínhamos discussões, preocupações e dias em que mal conseguíamos conversar. Mas sempre acreditei que, quando alguma coisa importante acontecesse, Mateus seria honesto comigo.
Então ele começou a mudar.
Primeiro vieram os atrasos.
Meu marido, que costumava me avisar quando precisava ficar no escritório, passou a chegar em casa cada vez mais tarde.
Quando eu perguntava o motivo, recebia praticamente a mesma resposta:
— Tive uns problemas no trabalho.
Depois, foi o celular.
Mateus nunca tinha sido especialmente cuidadoso com o aparelho. Deixava sobre a mesa, no sofá e até esquecido em algum canto da casa.
De repente, passou a levá-lo para todos os lugares.
Até quando ia tomar banho.
Na primeira vez que vi o nome Clara aparecer na tela, não pensei em nada grave.
Poderia ser uma colega, uma cliente ou alguém com quem ele estivesse resolvendo alguma questão profissional.
Mas percebi a maneira como Mateus pegou o telefone imediatamente.
— Quem é Clara? — perguntei.
Ele nem levantou os olhos.
— É uma questão do trabalho.
Quis acreditar.
Alguns dias depois, vi o mesmo nome novamente.
Na terceira vez, não consegui guardar a pergunta.
— Essa Clara trabalha com você?
Mateus suspirou.
— Alessandra, eu já disse. É coisa do trabalho.
Não discutimos.
Na verdade, foi isso que mais me incomodou. Ele parecia determinado a encerrar qualquer conversa antes que eu pudesse fazer outra pergunta.
Comecei a reparar em coisas que antes passariam despercebidas: o telefone sempre por perto, os horários cada vez mais imprevisíveis e a distância que parecia crescer entre nós.
Eu me perguntava se estava exagerando.
Onze anos de casamento não deveriam desaparecer por causa de um nome na tela de um celular.
Mas também não conseguia ignorar a sensação de que Mateus escondia alguma coisa.
Naquela semana, chegou o aniversário da mãe dele.
A família havia organizado um jantar num restaurante em São Paulo. Era uma ocasião importante, e eu esperava que pudéssemos passar algumas horas juntos sem aquela tensão.
Mateus disse que iria diretamente do escritório.
— Você vai conseguir chegar a tempo? — perguntei.
— Vou fazer o possível.
Não gostei da resposta, mas preferi não insistir.
Cheguei ao restaurante antes dele.
A mesa estava preparada, os parentes conversavam animadamente e minha sogra parecia contente por ter a família reunida.
Tentei acompanhar as conversas.
Mas meus olhos voltavam constantemente para a entrada.
Às nove da noite, Mateus ainda não havia chegado.
Olhei para o celular.
Nenhuma mensagem.
Dez minutos depois, comecei a ficar irritada.
Não era apenas o atraso. Era o fato de que, havia semanas, eu já não conseguia distinguir quando meu marido estava realmente ocupado e quando estava evitando ficar comigo.
Às nove e vinte, a porta do restaurante finalmente se abriu.
Mateus entrou.
Por um instante, senti alívio.
Então percebi que ele não estava sozinho.
Uma mulher jovem caminhava ao lado dele. Usava roupas elegantes, tinha os cabelos castanhos bem-arrumados e parecia extremamente nervosa.
Olhou para a nossa mesa, depois para Mateus.
Eu nunca a tinha visto.
Mas, antes mesmo de ele dizer alguma coisa, senti que sabia quem era.
Clara.
Meu coração começou a bater mais depressa.
Mateus colocou a mão nas costas dela, conduzindo-a delicadamente para que passasse à sua frente.
Aquele gesto foi suficiente para me fazer perder o controle.
Não pensei em perguntar quem ela era.
Não pensei na minha sogra, nos parentes ou nas pessoas que poderiam estar olhando.
Levantei tão depressa que minha cadeira arrastou no chão.
Peguei o copo de água que estava diante de mim.
E foi assim que chegamos àquela cena: meu marido encharcado, um copo vazio na minha mão e toda a família em silêncio.
— Alessandra, me deixa explicar! — Mateus disse, limpando o rosto.
Apontei para a mulher.
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
Clara baixou os olhos.
Meu estômago se contraiu.
— Você acha que eu não percebi? Há semanas vejo o nome dela no seu celular!
Mateus deu um passo na minha direção.
— Não é o que você está pensando.
Soltei uma risada sem humor.
Era a última frase que eu queria ouvir.
— Então me explica, Mateus. Agora.
Ele abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.
Foi quando Clara se aproximou.
Meu marido virou a cabeça depressa.
— Clara, espera.
Ela não parou.
Pela primeira vez, olhei realmente para o rosto daquela mulher.
Não havia provocação em seus olhos.
Ela não parecia satisfeita, nem irritada por ter sido confrontada diante de desconhecidos.
Parecia assustada.
E, de alguma maneira, aquilo me deixou ainda mais inquieta.
— Alessandra, preciso te contar uma coisa — disse ela.
Mateus ficou pálido.
— Clara, não.
Sua voz tinha mudado.
Até aquele instante, ele parecia constrangido e desesperado para se explicar.
Agora, parecia genuinamente apavorado.
Clara respirou fundo.
Olhou diretamente para mim e disse:
— Eu não sou amante dele.
Senti como se alguém tivesse retirado o chão debaixo dos meus pés.
Olhei para Mateus.
Esperei que ele dissesse alguma coisa.
Que confirmasse as palavras dela. Que explicasse por que havia escondido seu nome durante semanas. Que me desse uma única razão para acreditar nele.
Mas meu marido permaneceu imóvel.
Seu rosto havia perdido completamente a cor.
Naquele segundo, compreendi que talvez tivesse passado três semanas fazendo a pergunta errada.
Porque, se Clara realmente não era amante de Mateus, então ele estava mentindo por um motivo que eu ainda desconhecia.
E, pela expressão de terror no rosto dele, comecei a suspeitar que a verdade poderia ser muito pior do que uma traição.













