Eu li a carta sentada no banco do jardim, enquanto Mateus segurava o papel pelas bordas, como se tivesse medo de apagá-lo com os dedos.
A mensagem fora datada de vinte e dois anos antes, poucos meses antes do nascimento de Clara. Dizia que ele reconhecia a gravidez, mas não desejava participar da vida da criança. No fim, havia uma assinatura semelhante à dele.
— Você tem certeza de que não escreveu? — perguntei.
Mateus olhou para mim com os olhos vermelhos.
— Tenho. Eu chamava a Joana de Jô. Minha mãe insistia em dizer Joana, sempre daquele jeito formal. Esse texto parece a voz dela, não a minha.
— Parece não é prova — falei.
Ele concordou. Foi a primeira vez, naquela noite, que não tentou transformar uma suspeita numa conclusão conveniente.
Clara se sentou à nossa frente.
— Eu também não sei quem escreveu. Só sei que minha mãe guardou isso a vida inteira.
Ela contou que Joana vivera em Santos, trabalhando em diferentes lugares para criá-la. Falava pouco do pai. Quando Clara insistia, dizia apenas que as pessoas podiam fugir de suas responsabilidades, mas que uma criança não deveria se sentir responsável por aquela fuga.
— Ela não queria que eu crescesse odiando alguém que nunca tinha visto — explicou Clara. — Só depois de morrer encontrei o nome dele num envelope.
Na semana do enterro, Clara precisara organizar os poucos pertences que a mãe deixara. Contou que encontrara os envelopes dentro de uma lata de biscoitos, junto de desenhos feitos na escola e de receitas anotadas em pedaços de papel. O nome de Mateus estava escrito duas vezes. Ela não havia corrido imediatamente para procurá-lo: primeiro perguntou a uma amiga se devia abrir uma história que Joana mantivera fechada. Decidiu que procurar respostas não diminuiria o amor que tinha pela mãe. Mesmo assim, confessou que segurara o telefone por quase uma hora antes da primeira ligação.
Havia outras folhas: uma certidão de nascimento, fotografias, anotações sobre gastos da infância e um comprovante de correspondência registrada enviada anos depois. Naquele documento, o destinatário era Mateus, no endereço antigo da família em São Paulo.
— Minha mãe mandou outra carta quando eu tinha dez anos — disse. — Ela escreveu que eu gostava de desenhar e que tinha perguntado sobre meu pai. Não pediu dinheiro. Pediu apenas uma conversa.
No comprovante de entrega, havia uma assinatura que eu ainda não conseguia ler inteira. Clara tinha guardado o original em casa; ali levava uma reprodução.
— Sua mãe disse ter recebido isso? — perguntei a Mateus.
— Nunca vi. Naquele ano, eu já estava morando com você, mas ainda recebia algumas correspondências na casa dela.
Lembrei da primeira ceia de Natal que passei com Teresa. Ela falara longamente sobre como um filho devia honrar a própria mãe. Na época, eu havia achado a frase antiquada, não ameaçadora.
Agora me perguntava quantas vezes ela usara aquela ideia para decidir a vida de Mateus por ele.
— Precisamos perguntar diretamente — disse Clara.
— Eu quero fazer isso — respondeu meu marido.
— Você já queria fazer antes de me contar? — perguntei.
Ele levou a mão à nuca.
— Recebi a ligação de Clara há três semanas. Achei que fosse um golpe. Depois nos encontramos e fizemos o exame. Passei esse tempo tentando descobrir o que minha mãe sabia.
— Enquanto dizia que estava no escritório.
— Sim.
— E quando eu perguntei sobre Clara, você mentiu.
— Sim.
A sinceridade tardia não tornava aquelas mentiras menores. Mas eu precisava ouvi-lo admitir o que tinha feito sem acrescentar um motivo que me obrigasse a perdoá-lo.
— Você poderia ter dito que existia uma possibilidade — continuei. — Mesmo sem saber se ela era sua filha.
Mateus não encontrou uma defesa.
Entrei no restaurante para buscar nossas coisas. Teresa estava perto da mesa do bolo, falando com a irmã, Lídia. Pareceu surpresa quando me aproximei sozinha.
— Espero que vocês tenham resolvido esse mal-entendido — disse ela.
— Que parte foi um mal-entendido? — perguntei. — A existência de Clara ou a carta que alguém escreveu em nome do seu filho?
A expressão de Teresa se fechou.
— Você não conhece a história daquela moça.
— Então me conte.
Ela olhou para a irmã. Lídia abaixou os olhos, mas não saiu dali.
— Joana era jovem, impulsiva. Meu filho também. Fiz o que achei necessário para evitar uma tragédia.
Senti um frio no peito.
— O que a senhora fez?
— Não aqui — respondeu, quase num sussurro.
Lídia apertou o braço dela.
— Teresa, chega. Há tempo demais você diz que não é a hora.
Minha sogra puxou o braço de volta.
— Não se meta, Lídia.
A irmã respirou fundo.
— Eu vi uma carta chegar na sua casa anos depois. Tinha o nome do Mateus. Você disse que resolveria e que ninguém precisava incomodá-lo.
Teresa ficou imóvel. Pela primeira vez, achei que também ela tivesse medo de alguém naquela mesa: não de Mateus, mas da própria lembrança.
— Você abriu a correspondência dele? — perguntei.
— Eu estava protegendo meu filho — respondeu.
Aquilo não era uma negativa.
Saí com as pernas trêmulas. Clara e Mateus me esperavam ao lado do carro. Contei o que ouvira, sem exagerar nem transformar a frase de Lídia em uma confissão de tudo.
Mateus pareceu envelhecer alguns anos.
— Se ela sabia que Clara estava viva e não me contou, não sei se consigo entrar naquela casa outra vez.
Clara apertou contra o peito o envelope pardo.
— Eu passei a vida achando que você não quis me conhecer — disse. — Ainda não sei o que faço com a possibilidade de isso ser mentira.
— Você não tem que decidir nada hoje — respondi.
Naquela noite, não voltei para casa com Mateus. Pedi que ele ficasse no apartamento e fui dormir na casa de minha irmã. Precisava de distância da mentira, do copo de água e da vontade perigosa de resolver em poucas horas o que havia sido destruído durante décadas.
Antes de dormir, recebi uma mensagem de Lídia. Ela dizia que Teresa havia pedido que todos esquecessem o jantar e que procurara uma caixa de documentos no armário assim que chegara em casa.
Logo abaixo veio uma segunda mensagem: Lídia tinha guardado, anos antes, uma fotografia da correspondência recebida naquele endereço. Nela, a assinatura do comprovante aparecia com nitidez.
Não era uma assinatura desconhecida.
Era a de Teresa.
O que Teresa ainda escondia naquela caixa? Continue na Parte 4.













