Na manhã seguinte, a fotografia enviada por Lídia continuava aberta no meu celular.
O nome de Mateus estava escrito com letras grandes no envelope. Abaixo, no comprovante, aparecia a assinatura de Teresa e a data de doze anos antes. Aquilo demonstrava que a correspondência chegara à casa dela; não provava, por si só, o que havia sido feito depois.
Mateus me ligou cedo.
— Minha mãe quer conversar apenas comigo — disse.
— E você vai aceitar?
— Não. Clara tem direito de ouvir tudo. E você também, se quiser estar presente.
Pensei na noite anterior. Eu não desejava entrar em outra sala como esposa obrigada a permanecer ao lado do marido. Queria poder fazer perguntas e sair quando julgasse necessário.
— Vou — respondi. — Mas não vou defender ninguém de uma verdade desagradável.
Encontramo-nos diante da casa de Teresa, num bairro tranquilo de São Paulo. Clara chegou de aplicativo, carregando a mesma bolsa do jantar. Mateus se aproximou, mas esperou que ela escolhesse se queria cumprimentá-lo. Clara estendeu a mão. Aquele gesto cauteloso me comoveu mais do que teria comovido um abraço.
Lídia abriu o portão.
— Tirei aquela fotografia porque minha irmã pediu que eu levasse uma correspondência para o quarto dela — explicou. — Vi que era para o Mateus e fotografei o comprovante antes de entregar. Ela já tinha escondido tanta coisa da família que eu quis guardar a data. Não sabia quem era a remetente.
— Por que nunca falou com ele? — perguntei.
Lídia segurou meu olhar.
— Porque tive medo de enfrentar minha irmã. Não vou fingir que isso não fez parte do problema.
Dentro de casa, Teresa estava à mesa da sala de jantar. À sua frente havia uma caixa de papelão, aberta, com envelopes amarelados e um álbum de fotografias.
— Não convidei uma comissão para me julgar — disse, ao nos ver.
— Também não viemos julgar — respondeu Clara. — Viemos ouvir o que aconteceu com a minha mãe.
Teresa demorou a erguer os olhos.
— Joana e Mateus eram muito novos. Ele tinha planos, e ela queria que tudo mudasse de uma hora para outra.
— Ela queria que eu soubesse que ia ser pai — interrompeu Mateus. — Isso não era pedir demais.
Minha sogra pareceu surpreendida pela firmeza dele.
— Quando vocês terminaram, ela estava desesperada. Eu achei que uma separação definitiva seria melhor.
Clara abriu a pasta da mãe e colocou sobre a mesa a cópia da carta de recusa.
— A senhora escreveu isso?
Teresa leu as primeiras linhas sem tocar no papel.
— Pedi ajuda para redigir. Mateus não tinha maturidade para lidar com aquilo.
— Você assinou meu nome? — perguntou ele.
O relógio da sala marcou alguns segundos que ninguém tentou preencher.
— Sim — respondeu Teresa, por fim.
Mateus fechou os olhos. Eu percebi que ele esperara por aquela palavra desde que vira a carta no jardim, mas que ouvi-la não o preparara para suas consequências.
Teresa quis explicar que, naquele tempo, tinha medo dos comentários da família e do futuro financeiro do filho. Falou sobre o que os vizinhos diriam, sobre casamento e sobre uma juventude que, segundo ela, podia ser arruinada por uma decisão precipitada. Clara ouviu sem interromper. Quando minha sogra terminou, a jovem perguntou apenas se alguém havia pensado no futuro da criança. Teresa não respondeu. Naquela ausência de resposta couberam vinte e dois anos.
— Joana acreditou que fui eu — disse.
— Eu não imaginei que guardaria aquela carta por tantos anos.
— Ela guardou porque a senhora destruiu a chance de ele responder por si mesmo — disse Clara.
Teresa desviou o rosto.
— E quando me disse que a gravidez não tinha continuado? — insistiu Mateus.
— Eu menti — respondeu ela. — Joana já tinha ido embora. Achei que você acabaria aceitando e seguindo sua vida.
Olhei para o homem com quem dividira onze anos. Ele havia acreditado numa notícia terrível sem procurar Joana. A mãe tinha provocado o silêncio, mas não podia responder por cada decisão que o filho tomara depois.
— Você tentou confirmar? — perguntei.
— Telefonei uma vez para o número antigo. Não atendeu. Depois me convenci de que minha mãe jamais inventaria uma coisa dessas.
Clara manteve os olhos fixos nele.
— Minha mãe nunca recebeu essa ligação. Mas eu não preciso que você tenha sido perfeito aos vinte e um anos. Preciso que seja honesto agora.
Mateus assentiu.
Teresa pegou outra folha da caixa. Era a carta escrita por Joana doze anos antes. Falava da filha que gostava de desenhar e trazia um pequeno retrato escolar. A mensagem terminava pedindo que Mateus ao menos soubesse o nome dela.
— Guardei — murmurou Teresa. — Pensei em entregar depois.
— Depois de quê? — perguntei. — Do aniversário de trinta anos dela? Do próximo enterro?
Minhas palavras foram duras. Não me arrependi da pergunta, mas vi Clara se encolher ao ouvir a palavra enterro e imediatamente abaixei a voz.
— Desculpe, Clara.
Ela balançou a cabeça, indicando que eu podia continuar.
— Eu precisava preservar nossa família — disse Teresa.
— A senhora preservou uma imagem — respondeu Clara. — Minha mãe pagou por isso com vinte e dois anos de perguntas sem resposta.
Lídia colocou uma das fotografias sobre a mesa. Clara, ainda criança, sorria de uniforme escolar. Mateus tocou a borda com a ponta do dedo.
— Você guardou o rosto da minha filha e deixou que eu acreditasse que ela não existia — disse ele.
Teresa começou a chorar.
Por um instante, senti a tentação de confortá-la. Era um impulso antigo: aliviar o constrangimento de quem tinha causado o dano, para que os outros não precisassem conviver com uma cena difícil. Permaneci sentada.
— Posso pedir perdão? — perguntou Teresa a Clara.
— Pode pedir — respondeu a jovem. — Mas não vou dar uma resposta hoje.
Mateus se levantou. Disse à mãe que não aceitaria mais conversas secretas sobre Clara e que qualquer contato entre as duas dependeria da vontade da filha. Não fez ameaças sobre polícia ou herança. Aquela era uma decisão sobre pessoas, não sobre bens.
Quando saímos, Clara pediu que fôssemos a uma cafeteria perto dali. Achei que desejasse descansar. Ela, porém, ficou diante de Mateus e fez uma pergunta que nenhuma carta da caixa poderia responder.
— Se eu tivesse aparecido sem exame, sem fotografia e sem testemunha, você teria me ouvido?
Mateus abriu a boca. Desta vez, a resposta não veio depressa.
A resposta dele seria sincera desta vez? Leia a Parte 5.













