No domingo de manhã, Celina pediu que eu voltasse à sua casa sem Isabela. Explicou que precisava me contar algo antes de conversar novamente com Lourdes. Fui depois de deixar minha filha estudando com uma colega, na casa da mãe dessa menina.
Encontrei Anselmo lavando uma caneca na pia. Celina estava diante de uma caixa de costura, escolhendo um botão que já não combinava com nenhuma roupa.
— O senhor falou que queria a verdade — disse. — Eu também. Mas tem uma parte da história que deixei de fora.
Sentei à sua frente. Ela tirou da caixa um papel dobrado, com uma letra grande e irregular.
Era um bilhete que escrevera para Fábio meses antes, quando ele perdera uma fonte de renda e começara a cuidar sozinho de duas crianças durante a semana. Celina autorizara o sobrinho a ficar com uma de suas cestas porque os meninos estavam sem comida suficiente. A anotação dizia: “Esta semana, pode levar a minha. Eu me viro. Tia Celina.”
— Foi uma vez? — perguntei.
— Foi uma vez que eu escrevi. Outras duas eu concordei por telefone. Depois disse que não dava mais. Minha perna piorou, o dinheiro apertou e ele começou a agir como se eu nem precisasse comer.
Celina não estava desculpando o sobrinho. Estava tentando entender por que sentira vergonha de admitir que consentira com parte daquilo.
— Quando contei ao senhor que pedi para ele parar, era verdade. Só não falei que antes eu tinha deixado. Fiquei com medo de não acreditarem em mim.
— Uma autorização antiga não vale para sempre — respondi. — E a senhora tem direito de mudar de ideia.
Ela guardou o bilhete sobre a mesa, à vista de todos.
— Quero mostrar isso à Lourdes. Se eu escondo, faço a mesma coisa que ele fez comigo.
Perguntei sobre Simone, sua filha. Celina explicou que a distância entre as duas não era uma briga, mas uma sucessão de conversas interrompidas. Simone telefonava aos domingos, mandava algum dinheiro quando podia e sempre perguntava se faltava alguma coisa. Celina respondia que não, com receio de se tornar um peso. Não havia uma filha cruel naquela história. Havia duas mulheres acostumadas a esconder dificuldades uma da outra.
— Ontem eu contei para ela que estou comendo pouco — confessou Celina. — Chorou do outro lado da linha. Disse que quer vir no próximo feriado e me acompanhar numa consulta.
— A senhora quer que ela venha?
— Quero. Só não quero que venha achando que precisa me tirar daqui contra a minha vontade.
Prometi não falar por ela. Naquele momento, meu telefone tocou. Era Lourdes, dizendo que Osvaldo concordara em mostrar à associação os comprovantes, desde que não fossem publicados em grupos de mensagens.
Fui encontrá-la na sede. Sobre a mesa havia três registros de transferências feitas por Osvaldo para uma conta em nome de Fábio. Os valores eram modestos, mas coincidiam com as datas das retiradas. Havia também anotações no caderno do comerciante: “cesta pronta, etiqueta JP”.
— Ele diz que comprou achando que Fábio havia recebido as cestas como pagamento por algum serviço — contou Lourdes. — Foi descuidado, e reconheceu isso. Disse que vai retirar as duas que ainda estão à venda e entregá-las de volta.
— Não basta devolver duas e fingir que a senhora Celina não passou fome.
— Eu sei. Por isso não estamos encerrando o assunto.
Antes de voltar para casa, pedi que Lourdes explicasse a Celina como poderia receber uma cesta sem entregar a chave de casa ou dar poderes a um familiar. Ela disse que duas voluntárias fariam a visita em horário combinado, chamariam pela idosa e registrariam o recebimento com seu consentimento. Se Celina não estivesse bem para atender, voltariam em outra ocasião. Parecia um detalhe pequeno, mas era o contrário da fotografia de um muro usada como prova de uma entrega que ninguém vira.
Lourdes tinha avisado Fábio, por escrito, que os registros precisavam ser esclarecidos. Ele respondeu que não devia explicações sobre o que fazia com cestas que a tia lhe dera. Quando ouvi essa frase, me lembrei do bilhete dobrado e entendi por que Celina queria que ele fosse mostrado.
No fim da tarde, Isabela chegou preocupada. Uma colega havia perguntado se seu pai também aceitava doações. Ela respondeu que não e foi embora antes que começassem as risadas.
— Se eu parar de falar com seu Anselmo, eles param? — perguntou.
Minha primeira vontade foi dizer que sim. Faria qualquer coisa para devolver a ela a tranquilidade de sair de casa sem pensar no que os outros comentavam. Mas seria mentira. A fotografia já circulava, e a maldade das pessoas não dependia mais do que Isabela fizesse.
— Você pode continuar amiga dele — respondi. — Só não vai levar nossa comida sem conversar comigo. E não precisa enfrentar gente na internet. Isso é tarefa dos adultos.
— Então o que eu faço?
— Vai à escola, cuida das suas coisas e me avisa se alguém te incomodar. Ajudar também pode significar deixar que outra pessoa assuma uma parte.
Na segunda-feira, fomos juntos conversar com a coordenadora. Renata orientou Isabela a procurar a equipe quando ouvisse algum comentário e explicou que a escola trataria o uso indevido de sua imagem com os responsáveis, sem expor o caso nas salas.
Ao sair, minha filha me perguntou se Celina seria obrigada a perdoar Fábio caso ele devolvesse as cestas.
— Não — respondi. — Devolver o que pegou é uma obrigação. Ser perdoado é outra coisa.
Ela ficou pensando e, depois de alguns passos, disse:
— Então o senhor também não precisa fingir que não ficou bravo comigo porque eu quis ajudar?
A pergunta me atingiu. Eu continuava chateado por ela ter escondido a comida, mas aquele sentimento não anulava meu orgulho de sua compaixão.
— Não preciso fingir. Posso dizer que fiquei bravo e que também errei quando falei sem escutar. A gente pode consertar as duas coisas.
Na associação, Celina chegou com o bilhete antigo dentro de um envelope. Colocou-o sobre a mesa diante de Lourdes e Fábio.
— Eu te ajudei quando pude — disse ao sobrinho. — Agora quero que me olhe e diga o que fez depois que pedi para parar.
Fábio ficou imóvel. Pela primeira vez, não chamou a tia de esquecida. Mas a resposta que começou a dar nos obrigaria a perguntar se aquela história terminaria com a simples devolução de algumas sacolas.
Para saber o que Fábio admitiu e como Celina respondeu, continue na Parte 6.













