Na manhã seguinte, preparei meu café com pão amanhecido e abri a fotografia do controle de entregas no celular. Não havia prova de desvio naquele papel. Havia apenas um motivo suficientemente sério para fazer perguntas.
Deixei Isabela na escola e segui para a Associação do Jardim das Palmeiras, três ruas além da praça. O prédio era pequeno, com uma sala de reuniões, um ventilador barulhento e caixas de papelão empilhadas contra a parede.
Uma mulher de óculos, chamada Lourdes, organizava listas numa prancheta. Expliquei que conhecera dona Celina e que ela não recebia as cestas registradas em seu nome.
Lourdes fechou a prancheta.
— A senhora Celina reclamou pessoalmente?
— Pediu que eu esclarecesse. Tenho a foto do controle, mas prefiro que a senhora fale com ela antes de qualquer decisão.
Essa resposta pareceu abrir uma porta. Lourdes puxou uma cadeira e explicou que a associação distribuía alimentos doados por moradores e comerciantes. Cada família cadastrada tinha direito a uma cesta conforme a disponibilidade, nunca uma promessa para sempre. Quem não podia ir ao local indicava alguém de confiança para retirar.
— Dona Celina indicou Fábio há alguns meses — disse ela. — Ele vinha toda segunda-feira. Não tivemos notícia de mudança.
— Ela afirma que pediu para ele parar.
— Pediu para ele ou para nós?
Percebi a diferença. Celina havia discutido com o sobrinho, mas não sabia que precisaria avisar a associação diretamente. Lourdes não fingiu que o problema era só dela.
— Nós também deveríamos conferir de tempos em tempos se a pessoa continua autorizada — reconheceu.
Ela me mostrou o livro de retiradas sem permitir que eu fotografasse os dados de outras famílias. Nas quatro segundas-feiras, Fábio aparecia com sua assinatura. Em duas, retirara também cestas destinadas a outros moradores, todos com autorizações registradas.
— A senhora consegue telefonar para Celina agora? — pedi.
Lourdes ligou no viva-voz, com minha autorização para me identificar. Celina reconheceu a voz dela e repetiu o que nos contara. Disse que não autorizava mais Fábio a retirar nada e queria receber alimentos sem depender dele.
— Pode ficar anotado? — perguntou a idosa.
— Está anotado, dona Celina. Vamos organizar uma entrega por duas pessoas da equipe. E vou conferir o que aconteceu com as cestas anteriores.
Ao desligar, Lourdes passou a régua sob as quatro linhas do caderno.
— Antes de falar com Fábio, quero saber se isso se repete com outros beneficiários. Se houve erro, vamos corrigir. Se alguém levou sem entregar, precisaremos tratar disso com seriedade.
Ela me pediu dois dias. Eu não tinha condições de esperar dois dias para resolver a fome daquela mulher.
— A associação tem alguma cesta disponível hoje?
— Temos alguns itens avulsos, mas não uma cesta inteira. Posso separar arroz, feijão e leite em pó conforme o estoque.
— Eu posso levar depois do meu serviço — ofereci.
Lourdes anotou o horário e deixou claro que a entrega seria da associação, não um favor que Celina precisaria retribuir. Gostei da maneira como ela disse isso.
Quando saí, passei numa mercearia para comprar um pacote pequeno de café. Na entrada, havia duas cestas prontas à venda, amarradas com barbante laranja. Entre arroz, macarrão e óleo, vi uma etiqueta dobrada com um desenho que me pareceu conhecido: a pequena palmeira usada no cartaz da associação.
Cheguei mais perto. A etiqueta trazia um código escrito à mão: JP-42. Não toquei nela.
— Essas cestas são montadas aqui? — perguntei ao dono, seu Osvaldo.
— Algumas, sim. Outras eu compro prontas quando aparece oportunidade.
— De quem?
Ele me olhou por cima do balcão.
— Por que quer saber?
Eu não queria acusar um homem dentro de sua própria loja. Respondi que ajudava uma associação do bairro e reconhecera uma marca. Osvaldo virou a etiqueta para dentro da embalagem.
— Se tem algum problema, procure quem me vendeu. Eu paguei pelo que está aí.
Saí sem insistir. Fotografei o cartaz de preços exposto na calçada, não o interior do estabelecimento, e enviei uma mensagem a Lourdes descrevendo o que vira. Ela respondeu pouco depois: as cestas da associação recebiam justamente etiquetas laranjas com código de lote para facilitar a conferência.
— JP-42 foi distribuído nas últimas semanas — escreveu. — Mas preciso checar as fichas antes de concluir qualquer coisa.
O conserto de uma tomada me ocupou o resto da tarde. Enquanto trocava os fios com a energia desligada, pensei em quantas vezes já vendera algo de casa para pagar uma conta. Eu sabia que a necessidade podia levar uma pessoa a decisões vergonhosas. Também sabia que, fosse qual fosse a dificuldade de Fábio, Celina continuava sem comer.
No fim do dia, levei os alimentos separados por Lourdes com Anselmo. Celina recebeu a sacola e perguntou imediatamente se tínhamos descoberto alguma coisa.
— Descobrimos que seu nome ainda estava autorizado para retirada por outra pessoa — respondi. — Isso já foi corrigido. Sobre o resto, estamos conferindo.
Ela passou a ponta dos dedos na embalagem de feijão, sem abri-la.
— Não façam uma guerra com a minha família.
Anselmo sentou perto da porta.
— Celina, ninguém está querendo uma guerra. Mas a senhora não pode ficar sem almoço para evitar uma conversa.
Antes que ela respondesse, meu telefone vibrou. Era uma mensagem de uma vizinha, com uma captura de tela do grupo do bairro. Alguém havia publicado uma fotografia de Isabela na praça, segurando a marmita azul diante de Anselmo.
A legenda dizia: “Essa menina anda recolhendo comida e dinheiro em nome de idosos. Alguém sabe para onde está indo?”
Não havia pedido de dinheiro, nem prova de nada. Havia só a imagem da minha filha e uma suspeita escrita para que centenas de pessoas a repetissem.
Eu reconheci a blusa do uniforme e a maneira como Isabela segurava a alça da mochila, sempre apertada demais quando estava nervosa. Aquela imagem tinha sido feita sem que ela soubesse. Não importava quem a publicara primeiro: dali em diante, alguém poderia apontar para minha filha na rua e exigir explicações sobre uma história que ela não tinha obrigação de contar. Liguei para a vizinha que me enviara a captura e pedi que não a repassasse. Ela concordou e informou o nome do administrador do grupo.
Olhei para Celina, que ainda segurava o feijão. Agora não bastava descobrir quem pegara as cestas. Eu precisava impedir que a verdade fosse enterrada sob uma mentira sobre uma criança.
Para descobrir quem lançou a acusação contra Isabela e o que isso tinha a ver com as cestas, leia a Parte 4.













