Anselmo fechou a sacola com cuidado, como se aquele pote amarelo carregasse alguma coisa que pudesse quebrar.
— Se o senhor quiser conhecer dona Celina, é melhor conversar com ela, não sobre ela — disse.
Eu havia levantado a voz diante da minha filha e de um desconhecido. Não queria repetir o erro diante de uma senhora que nem sequer sabia que estávamos discutindo sua comida.
— Tem razão. Mas Isabela precisa ir para a escola agora.
Ela olhou para mim, surpresa por eu ainda me lembrar do horário.
Combinamos que Anselmo levaria a porção naquele momento e que, depois da aula, nós dois o encontraríamos na praça. Antes de sair, Anselmo prometeu lavar a marmita azul e devolvê-la no dia seguinte.
— A gente pode conversar em casa? — ela perguntou.
— Pode. E dessa vez eu vou escutar até o fim.
Voltei pelo mesmo caminho com o peso de um almoço menor e uma pergunta que não me deixava em paz: havia quantas pessoas esperando ajuda a duas ruas da minha casa sem que eu percebesse?
Trabalhava fazendo pequenos consertos e instalações em residências. Alguns dias voltava com dinheiro no bolso; em outros, só com um telefone que não tocara. Naquela manhã, ainda tinha um reparo de torneira agendado. Fui, terminei e recebi o combinado. Separei o valor do gás antes de pensar em qualquer outra coisa.
Quando Isabela chegou da escola, colocou a mochila na cadeira e abriu sua marmita vermelha para me mostrar que estava vazia.
— Eu comi tudo, pai. Não quero que o senhor ache que estou passando fome escondida.
A sinceridade dela me envergonhou mais do que a mentira por omissão.
— Eu acredito. Só preciso que você entenda que perguntar primeiro também é uma forma de cuidar de nós.
— Eu entendo. Mas, se eu tivesse perguntado, o senhor teria deixado?
Demorei a responder.
— Ontem, provavelmente não. Hoje, eu quero saber antes de decidir.
Anselmo nos esperava perto do banco, com uma sacola dobrada sobre os joelhos. Caminhou devagar pelas ruas estreitas até uma casa térrea de muro verde, cujo portão mal fechava. Bateu três vezes numa porta lateral.
— Celina? Sou eu. Vim com visitas, mas só entramos se a senhora quiser.
Uma voz fraca respondeu do interior:
— Se vieram comigo, podem entrar.
A mulher que encontramos tinha setenta e oito anos, cabelos brancos presos com um grampo e um andador apoiado na parede. Estava sentada perto da janela, com um prato vazio à frente. Não tentou esconder o prato quando nos viu, mas acompanhou meu olhar até ele.
— Já comi, seu Marcos. Anselmo falou do senhor — disse, antes que eu me apresentasse.
Sobre a mesa, reconheci o pote amarelo, agora lavado e secando sobre um pano. O cheiro de feijão ainda pairava no cômodo. Havia uma panela pequena, três copos diferentes e uma garrafa de água. Tudo estava limpo. Quase tudo estava vazio.
— Eu vim pedir desculpas — falei. — Achei que o senhor Anselmo estivesse aceitando comida da minha filha sem saber do nosso aperto.
— E estava preocupado com razão — ela respondeu. — Criança não devia carregar culpa de adulto. Nem o seu almoço.
Isabela aproximou a cadeira, mas esperou que Celina a convidasse para sentar.
— Eu quis ajudar. Não achei que ia virar uma briga.
— Quando a gente esconde uma coisa boa, ela também pode machucar alguém — disse Celina. — Aprendi isso tarde demais.
A frase ficou entre nós. Anselmo desviou o rosto para a janela.
Perguntei se ela tinha parentes por perto. Celina hesitou antes de responder que um sobrinho, Fábio, morava no bairro e passava ali de vez em quando. Já a filha, Simone, vivia no interior do Ceará e telefonava quando conseguia. Não havia indício de que soubessem da situação daquela semana.
— Eles sabem que a senhora está ficando sem comida?
— Sabe como é. A gente vai dizendo que está tudo bem. Depois fica difícil explicar que não está.
No canto do armário, uma folha presa por ímã chamou minha atenção. Tinha o símbolo de uma associação comunitária e, em letras grandes, a expressão ENTREGA CONFIRMADA. Abaixo estavam quatro datas, todas de segundas-feiras daquele mês.
— A senhora recebe cesta de alimentos daqui? — perguntei, apontando para a folha.
Celina passou a mão pelo braço do andador.
— Deveria receber. Me inscrevi quando quebrei a bacia e precisei diminuir as saídas. Mas faz quase um mês que não chega nada.
— E isso aqui diz que foi entregue.
— Eu sei ler, meu filho — ela respondeu, sem agressividade. — Só não sei para quem entregaram.
Anselmo confirmou que ouvira Celina comentar a falta das cestas, mas achara que a associação havia suspendido a distribuição. Ela me mostrou então o papel inteiro: não era recibo assinado por ela, e sim uma cópia de controle que uma voluntária deixara sob a porta.
Na última linha havia um nome escrito à caneta: Fábio Ribeiro. Ao lado, a indicação RETIRADA POR RESPONSÁVEL.
— Seu sobrinho buscava as cestas para a senhora? — perguntei.
Celina apertou as mãos no colo.
— Antes, sim. Mas eu pedi para ele parar. Tivemos um desentendimento e ele disse que eu não precisava mais da ajuda dele.
— Quando foi isso?
— Antes dessas quatro datas.
A sala ficou silenciosa. Eu não sabia se o formulário estava errado, se alguém usara o nome dela ou se havia uma explicação simples que ainda não tínhamos ouvido.
Isabela olhou primeiro para o papel, depois para a mulher.
— Dona Celina, a senhora está com fome agora?
Celina demorou tanto que achei que não responderia.
— Hoje não, menina. Hoje eu almocei.
Foi a palavra “hoje”, e não a folha pendurada no armário, que me fez entender a urgência.
Antes de sair, pedi autorização para fotografar apenas o controle de entregas, sem registrar o rosto nem a casa dela. Celina assentiu. Depois segurou meu braço.
— Se procurar essa associação, não vá acusando ninguém por minha causa. Quero saber onde foi parar a comida, mas não quero que inventem que fiquei louca.
Prometi começar perguntando, não denunciando. Na rua, Isabela andou em silêncio até que me alcançou diante do portão.
— Pai, e se as cestas estiverem chegando para alguém, só não para ela?
Eu tinha ido conhecer uma mulher que esperava um almoço. Voltava com quatro datas e um nome escrito onde deveria estar a garantia de que ela não precisaria esperar.
Para descobrir quem retirou as cestas destinadas a Celina e por que ela nunca as recebeu, continue na Parte 3.













