Na manhã seguinte, Davi acordou antes de mim.
Encontrei-o na sala, ainda de pijama, olhando para a gravata-borboleta azul que deixara sobre o encosto do sofá.
Ele a pegou quando me viu, como se tivesse sido apanhado fazendo algo errado.
— Pode deixar aí, filho.
— Eu não queria que você ficasse triste de novo.
Sentei-me perto dele.
Eu tinha respostas para a atitude de André, mas nenhuma resposta simples para o medo que agora aparecia nas palavras do meu filho.
— A tristeza é minha para cuidar. Você não precisa esconder as coisas para me proteger.
Davi permaneceu calado.
Pedi que me contasse se alguma situação anterior ao casamento havia parecido estranha.
Não perguntei se André o maltratara; não queria colocar palavras em sua boca.
— Na prova das roupas, a vó Neide falou que eu não precisava combinar com os homens — contou. — Disse que eu podia usar o laço azul, porque assim ficava diferente.
Lembrei da loja, do vendedor tirando medidas e de André dizendo que era bom Davi ter um estilo próprio.
Na época, eu achara o comentário delicado.
Agora já não tinha tanta certeza.
— Aconteceu mais alguma coisa?
— Na quinta, o André falou que ia ter uma foto com os Siqueira. Disse que eu podia ficar com a Rafaela enquanto tiravam.
Senti o rosto esquentar.
Quinta-feira.
Dois dias antes do casamento, depois de enviar a mensagem a Luiza, André ainda encontrara tempo para preparar o menino para a exclusão.
— Por que você não me contou?
Davi mexeu no tecido da gravata.
— Porque você estava feliz. E ele falou que não era para eu estragar a surpresa das fotos.
Tive vontade de sair naquele instante e exigir uma explicação.
Mas, se eu fizesse isso antes de ouvir meu filho até o fim, repetiria o erro de transformar o que ele sentia em uma disputa entre adultos.
— Você fez muito bem em me contar agora — respondi.
Ele não pareceu convencido.
— O casamento acabou porque eu não sou Siqueira?
Segurei suas mãos.
— O que aconteceu foi uma escolha do André. Nada disso foi causado por você.
Não prometi que tudo ficaria igual.
Já tinha prometido uma fotografia no dia anterior e aquela certeza havia ferido nós dois.
Preferi dizer apenas aquilo que sabia.
Nós continuaríamos juntos, em casa, e eu cuidaria das decisões que cabiam a uma adulta.
Depois do café, Rafaela chegou com pão de queijo e uma sacola contendo alguns objetos que eu deixara no salão.
Davi pediu para jogar bola no pátio interno do prédio.
Ela ficou observando enquanto eu atendia uma ligação de Luiza.
A fotógrafa perguntou se eu estava bem.
Disse que havia separado as imagens originais do momento em que Davi saiu do enquadramento, com a sequência e os horários preservados.
A conversa de terça-feira também permanecia no aplicativo.
Ela me enviaria os arquivos diretamente, sem publicar nada.
— Eu devia ter te procurado quando ele mandou a mensagem — disse.
— O que você respondeu?
— Pedi confirmação, porque achei muito estranho deixar uma criança fora de toda foto oficial. Ele confirmou e disse que vocês tinham combinado.
Foi a primeira vez que ouvi essa parte.
André não apenas escondera o pedido; usara meu nome para torná-lo aceitável.
— Você tem essa resposta salva?
— Tenho. Está na mesma conversa.
Agradeci, sem exigir que Luiza se envolvesse além do que estivesse disposta.
Quando desliguei, encontrei um álbum compartilhado no grupo da família do casamento.
Neide havia enviado a imagem de André e eu diante das flores brancas.
O espaço à minha esquerda estava vazio.
A legenda dizia: “Começa uma nova família Siqueira.”
Algumas pessoas reagiram com corações.
Outras perguntaram por Davi.
Uma tia de André escreveu apenas: “E o menino?”
Neide não respondeu.
Desativei as notificações.
Eu não queria transformar o grupo num tribunal nem expor Davi aos comentários de gente que sequer havia presenciado a cena.
Guardei uma cópia da publicação porque ela mostrava como André e a mãe pretendiam contar a história.
Mais tarde, quando o apartamento ficou tranquilo, liguei para minha irmã, Patrícia, que morava em Contagem.
Expliquei o essencial e pedi que me ajudasse a procurar uma advogada de família.
Ela quis vir imediatamente, mas eu disse que precisava passar a tarde com Davi.
— Você não está exagerando — falou, antes de desligar. — E não precisa decidir tudo hoje.
A frase me fez chorar pela primeira vez.
Não porque tivesse me convencido a desistir do casamento.
Mas porque, durante a cerimônia, até meus próprios olhos haviam parecido pouco confiáveis diante da tranquilidade com que André me chamava de exagerada.
À noite, ele ligou oito vezes.
Na nona, atendi enquanto Davi tomava banho.
— A gente vai jogar três anos fora por uma foto? — perguntou.
— Você continua chamando de foto o que fez com ele.
— Eu fui insensível. Peço desculpas. Mas minha mãe ficou nervosa com toda aquela confusão.
— Sua mãe não enviou a mensagem para Luiza usando meu consentimento.
André ficou em silêncio.
Ouvi um ruído de trânsito do outro lado.
— Ela disse que você entenderia — respondeu enfim.
— E você decidiu acreditar nela ou apenas gostou da solução?
— Não começa com interrogatório.
Pedi que não ligasse diretamente para Davi.
Ele tentou argumentar que tinha sido uma presença importante na vida do menino.
Isso era verdade, e justamente por isso a ferida era mais profunda.
Expliquei que qualquer contato teria de acontecer com minha concordância e no momento apropriado para Davi, não para aliviar André.
Antes de encerrar, perguntei se pretendia continuar dizendo à família que eu concordara com a exclusão.
— Helena, foi uma orientação para organizar um álbum, não um plano contra o garoto.
— Então por que pediu que eu não soubesse?
Ele não respondeu.
Na segunda-feira, entreguei a Davi sua mochila para a escola e o abracei por mais tempo que de costume.
A professora já sabia apenas que havia ocorrido uma mudança familiar e que ele poderia precisar de acolhimento.
Eu evitara revelar detalhes privados sem necessidade.
Ao voltar para casa, encontrei uma mensagem de Neide.
Não havia pedido de desculpas.
Ela dizia que André sempre fora muito generoso com Davi e que agora eu precisava “ensinar ao menino o lugar dele”.
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Até então, eu me perguntara se André tinha cedido a uma exigência desagradável da mãe.
A mensagem indicava algo pior: Neide não via a exclusão como um erro.
Considerava que meu filho devia aprender a aceitá-la.
E eu precisava descobrir se André pensava exatamente da mesma maneira.
O que ele realmente esperava da vida de Davi dentro daquela família? A resposta começa na Parte 4.













