A mensagem continuava na tela quando ouvi André chamar meu nome atrás de nós.
Luiza bloqueou o celular por instinto, mas eu lhe pedi que não apagasse nada.
Ela assentiu, com os olhos úmidos, e disse que me enviaria uma cópia da conversa depois de organizar os arquivos.
Eu não lhe pedi que escolhesse um lado.
A escolha já tinha sido feita por André quatro dias antes.
— O que vocês estão olhando? — ele perguntou.
— Uma orientação que você deu à fotógrafa na terça-feira.
André parou.
Sua expressão não foi de surpresa por ter sido acusado injustamente.
Foi a de alguém tentando calcular quanto da própria mentira havia sido descoberto.
— Helena, não vamos discutir isso aqui.
— Você achou que aqui era o lugar certo para excluir o Davi.
Neide aproximou-se outra vez.
Olhou para o celular nas mãos de Luiza e apertou os lábios.
— Conversa de fornecedor não é assunto para convidados — disse.
— Também não era assunto para uma criança de dez anos — respondi.
Davi puxou de leve meu vestido.
Só então percebi que ele continuava ouvindo tudo.
Eu tinha passado os últimos minutos tentando defender meu filho em voz alta, quando talvez ele precisasse, acima de qualquer explicação, que eu o tirasse dali.
— Vamos buscar nossas coisas — falei.
André deu um passo à frente.
— Você não vai embora da nossa festa por causa de uma fotografia.
— Não é por causa da fotografia.
— Então por quê?
Olhei para Luiza, que segurava a câmera contra o peito, e depois para o menino que esperava uma resposta que pudesse compreender.
— Porque você combinou uma coisa escondido de mim e deixou meu filho pagar por isso.
Não esperei que André respondesse.
Entrei no salão com Davi, evitando a mesa principal, onde ainda havia taças de espumante intactas e pequenos cartões com nossos nomes.
Pedi à minha amiga Rafaela que viesse até a sala reservada para os noivos.
Ela apareceu poucos minutos depois, com os saltos nas mãos e uma preocupação imediata no rosto.
— O que aconteceu?
— Preciso que você fique com o Davi enquanto troco de roupa.
— Helena, eu posso esperar aqui com você — Davi disse.
— Eu sei, filho. Mas a Rafa vai te ajudar a pegar sua mochila.
Ele concordou, embora demorasse a soltar minha mão.
Quando ficaram sozinhos no corredor, fechei a porta e tirei o véu diante do espelho.
O penteado que eu fizera pela manhã parecia pertencer a outra pessoa.
Naquela hora, não queria decidir o resto da minha vida.
Precisava apenas decidir onde passaria aquela noite.
Meu apartamento no bairro Floresta ainda estava alugado em meu nome.
Eu planejara entregar as chaves depois da lua de mel, quando terminasse de levar as caixas para a casa de André.
Por uma cautela que ele havia chamado de teimosia, eu não encerrara o contrato antes do casamento.
Agora agradeci por ter um endereço onde Davi conhecia cada interruptor.
Meu celular vibrou sobre a penteadeira.
Era uma mensagem de André: “Você está me expondo para a minha família.”
Li duas vezes.
Nenhuma palavra perguntava se Davi estava bem.
Abri a mala pequena com a roupa da viagem, troquei o vestido por uma calça confortável e guardei as alianças no compartimento lateral da bolsa.
Não fiz um gesto teatral.
Naquele momento, simplesmente não conseguia olhar para o brilho delas.
Rafaela voltou com Davi e sua mochila.
Trazia também a caixinha de lembranças que ele havia escolhido para alguns convidados.
— André está perguntando por você — disse em voz baixa.
— Pode dizer que estamos saindo.
Ela respirou fundo.
— Quer que eu acompanhe vocês?
— Quero.
Saímos por uma porta lateral do salão.
Não porque eu devesse esconder uma decisão legítima, mas porque Davi já tinha enfrentado olhares demais naquele pátio.
Mesmo assim, André nos alcançou perto do estacionamento.
— Helena, espera. Eu estava tentando evitar uma discussão com a minha mãe.
— E decidiu evitar essa discussão transformando o Davi no problema.
— Você sabe como a Neide é com as tradições.
— Eu sei como você foi.
Ele olhou para Rafaela, desconfortável com a testemunha.
— Podemos conversar em casa, sem plateia?
— Eu vou para o meu apartamento.
— Nosso casamento começou hoje.
— Eu estava lá — respondi. — O Davi também.
Meu filho ficou perto do carro, os olhos fixos no chão.
André se agachou um pouco, tentando recuperar a voz carinhosa dos domingos de futebol.
— Campeão, depois a gente resolve isso, certo?
Davi não respondeu.
Eu me coloquei entre os dois sem encostar em ninguém.
— Hoje você não precisa resolver nada com ele, filho.
André se endireitou, ofendido.
— Vai impedir que eu fale com ele?
— Vou impedir que ele tenha de te consolar.
Fomos embora.
Rafaela dirigiu atrás de nós até a porta do apartamento, ajudou com as malas e se ofereceu para voltar na manhã seguinte.
Antes de sair, perguntou se eu queria que ela avisasse os convidados.
Pedi apenas que dissesse que eu e Davi estávamos seguros.
Não queria transformar a dor dele em notícia de festa.
O apartamento tinha cheiro de roupa limpa e o mesmo abajur amarelo que Davi acendia quando era menor.
Ele tirou os sapatos, colocou a mochila junto ao sofá e perguntou se ainda podia comer o brigadeiro que havia guardado do casamento.
— Claro que pode.
Fizemos dois copos de leite e nos sentamos à mesa da cozinha.
Por alguns minutos, falamos da escola e do jogo de futebol que ele esperava ver no domingo.
Eu sabia que o silêncio não significava esquecimento.
Mas também sabia que não podia forçar uma conversa só porque precisava aliviar minha culpa.
Quando ele levantou para escovar os dentes, uma folha dobrada escapou do bolso interno da mochila.
Davi a recolheu depressa e ficou vermelho.
— Era para entregar ao André hoje — murmurou.
Estendi a mão, mas esperei que ele escolhesse.
Depois de alguns segundos, ele me deixou ver apenas a primeira linha escrita com capricho:
“Para o André, que agora também é minha família.”
Davi dobrou o papel novamente.
— Acho que ele não vai querer — disse.
Aquela frase me fez entender que a fotografia não tinha sido a única coisa arrancada do meu filho naquela tarde.
Era preciso descobrir quanto daquela rejeição ele já vinha percebendo antes que eu enxergasse.
Para compreender o que Davi havia guardado em silêncio, continue na Parte 3.













