A primeira coisa que Roberto fez foi pedir que a música parasse.
Não gritou com Helena, nem tomou a carta das minhas mãos.
Apenas olhou para os convidados e disse que a recepção seria encerrada mais cedo por um assunto de família.
Algumas pessoas baixaram os olhos, constrangidas.
Outras continuaram olhando para nós, como se esperassem a próxima revelação.
— Por favor, respeitem nossa privacidade — acrescentou Roberto.
O responsável pelo evento conduziu os convidados à saída.
Eu me ofereci para ajudar, mas Roberto pediu que ficasse.
Helena permaneceu junto à escadaria, segurando a bolsa com tanta força que as unhas marcavam o couro.
Naquele instante, não parecia a mulher capaz de organizar uma festa com mais de cem convidados.
Parecia alguém tentando calcular quantos pedaços da própria mentira ainda poderia salvar.
Quando o salão ficou vazio, entreguei a carta a Roberto.
Ele se sentou à mesa de apoio, com a fotografia apoiada sobre os joelhos.
Desdobrou a folha cuidadosamente.
Seus olhos percorreram a primeira linha e pararam num nome.
— Marina Duarte — murmurou.
Helena fechou os olhos.
Roberto ergueu a cabeça para ela.
— Você se lembra da Marina?
— Lembro.
Ele voltou à carta.
Era datada de setembro de 2003 e havia sido enviada de Santos.
Marina escrevia que Sofia, sua filha, tinha seis anos, gostava de desenhar casas e começava a perguntar por que as outras crianças tinham um pai nas reuniões da escola.
Dizia que não queria dinheiro, discussão ou uma disputa.
Queria apenas que Roberto soubesse da existência da menina e pudesse escolher como responder.
Li aquelas frases junto com ele somente quando me pediu que acompanhasse a leitura.
Minha mão ficou gelada ao perceber que o envelope havia passado mais de duas décadas fechado dentro daquela casa.
Roberto tocou a fotografia com a ponta do dedo.
No verso, estava escrito: “Sofia, seis anos”.
— Eu conheci Marina antes de me casar com você — disse ele a Helena.
— Eu sei.
— Quando nos separamos, ela não me disse que estava grávida.
Helena assentiu, sem coragem de encará-lo.
— Você recebeu isto em 2003?
— Recebi.
O silêncio se prolongou até eu ouvir um funcionário fechando a porta da varanda.
Quis sair para lhes dar alguma intimidade, mas Roberto me deteve com um gesto discreto.
— Clara encontrou a carta.
— Quero que ela escute o que aconteceu, porque você tentou fazer parecer que estava inventando tudo.
Helena apertou os lábios.
— Eu entrei em pânico.
— Pensei que você fosse procurar Marina, que nossa vida acabaria.
— Nossa vida? — repetiu Roberto.
— Uma criança estava crescendo sem saber que eu existia.
— Você não entende o que eu senti.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Talvez eu nunca entenda.
— Mas quero saber o que você fez.
Helena se virou para a janela.
A rua ainda estava cheia de carros deixando a festa.
De repente, tudo o que acontecia lá fora parecia distante demais do que se decidia naquela sala.
— Eu não entreguei a carta — confessou ela.
— Isso eu já sei.
— Também pedi que ninguém do escritório aceitasse ligações de uma mulher chamada Marina.
— Disse que era um assunto antigo e inconveniente.
Roberto levou as mãos ao rosto.
Ele havia administrado empresas, enfrentado crises e assinado contratos complexos.
Agora não conseguia formular a pergunta mais simples da noite.
— Ela tentou me procurar outras vezes?
Helena não respondeu imediatamente.
— Sim.
Fiquei olhando para a fotografia.
Sofia teria agora vinte e nove anos.
Pensei em todas as vezes que uma criança poderia ter parado diante de um portão escolar esperando alguém que nunca chegaria.
Não sabia se aquilo havia acontecido com ela, mas a possibilidade bastou para me tirar o ar.
Roberto percebeu o meu desconforto.
Antes de me liberar, virou a fotografia para a luz e observou a data no verso.
— Em 2003, eu estava viajando a trabalho quase toda semana — disse.
— Voltava para casa e perguntava se havia alguma novidade.
— Você sempre respondia que não, Helena.
Ela não contestou.
Eu conhecia aquele costume: no fim de cada viagem, ele deixava a correspondência com a esposa para que ela separasse os convites e as cartas pessoais.
Não era prova de desatenção.
Era um gesto de confiança que, naquela casa, se transformara numa porta fechada.
A expressão dele mudou quando pareceu reconhecer isso.
— Você pode ir descansar, Clara.
— Não precisa carregar isso sozinha.
Eu hesitei.
— Senhor, não sei se fiz a coisa certa expondo a carta diante de todos.
— Tentei falar com o senhor antes.
— Eu sei.
— Você tentou, e nós não deixamos espaço para ouvir.
Helena voltou-se para mim.
— Você invadiu documentos particulares.
— Poderia perder o emprego por isso.
Não neguei que havia pegado um envelope que não era meu.
Era algo pelo qual precisaria responder.
Mas me incomodou que, mesmo depois daquela confissão, Helena ainda procurasse uma maneira de transformar a verdade numa falta minha.
— Eu assumo o que fiz — respondi.
— Só não vou fingir que a carta não existia.
Roberto pediu a Helena que não ameaçasse ninguém naquela noite.
Depois, perguntou se ela tinha algum endereço atual de Marina ou de Sofia.
— Não — disse Helena, depressa demais.
Ele observou a esposa por alguns segundos.
— Há mais alguma coisa que você escondeu?
Helena levou a mão à bolsa.
Então a retirou, vazia.
— Não quero conversar sobre isso na frente dela.
— Há mais alguma coisa? — insistiu Roberto.
Foi só então que Helena falou tão baixo que precisei me aproximar para ouvir.
— Eu respondi à Marina uma vez.
Roberto ficou rígido.
— Respondeu o quê?
Helena começou a chorar, mas desta vez ele não interrompeu a pergunta para consolá-la.
— Escrevi como se a decisão fosse sua.
— Disse que você não queria conhecer a criança.
Olhei para a fotografia novamente.
O que antes parecia apenas uma omissão agora tinha outro tamanho.
Não bastava ter escondido uma filha do pai.
Helena também fizera uma mãe acreditar que havia sido rejeitada, usando o nome de um homem que nunca recebera sua mensagem.
Roberto pousou a carta sobre a mesa com extremo cuidado.
— Onde está essa resposta?
Helena apertou os olhos por um momento.
— Guardei uma cópia.
— E não foi a única coisa que guardei.
Naquela noite, compreendi que a carta encontrada no escritório era apenas a parte visível de uma história muito maior.
O que mais Helena havia colocado entre um pai e sua filha?
Para descobrir quais outras mensagens desapareceram naquela casa, continue na Parte 3.













