Fiquei alguns segundos sem conseguir responder à minha mãe.
Do outro lado da linha, Sônia repetiu meu nome, preocupada com meu silêncio.
«Quando ela falou com você?»
«Na terça-feira. Disse que, depois do casamento, talvez fosse bom Clara passar uma temporada aqui. Perguntou como eu me sentiria se fosse por tempo indeterminado.»
Olhei para o calendário preso à geladeira.
A terça-feira tinha sido o dia em que Renata levara Clara para experimentar o vestido da cerimônia.
Naquela noite, as duas tinham voltado com sacolas e uma fotografia sorridente.
«O que você respondeu?»
«Que minha neta é bem-vinda sempre, mas que morar longe do pai é outra coisa. Perguntei se você sabia. Ela disse que vocês ainda conversariam.»
«Por que não me contou?»
Minha mãe demorou a responder.
«Achei que fosse uma ideia ruim que ela mesma abandonaria. E não queria me meter na vida de vocês antes do casamento. Eu errei, filho.»
A sinceridade dela não desfez minha mágoa.
Eu entendia o cuidado de não interferir, mas agora conhecia o preço daquele silêncio.
«Quando uma decisão envolve Clara, você pode falar comigo. Mesmo que seja desconfortável.»
«Eu sei. Me desculpe.»
Combinamos que ela viria no dia seguinte.
Antes de desligar, pedi que não comentasse o assunto com outros parentes.
Eu precisava proteger o direito de Clara viver aquele dia sem virar objeto de investigação familiar.
Marina me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha conseguido comer.
Respondi que sim, mas não tive coragem de contar que a comida continuava sobre a mesa.
Abri a janela da cozinha.
Da sala, ouvi Clara se mexer debaixo da manta e fui até ela.
«Você está triste comigo?», perguntou, ainda sonolenta.
Sentei no tapete, ao lado do sofá.
«Não. Por que eu estaria?»
«Porque seu casamento acabou.»
Aquela associação já estava pronta na cabeça dela.
Eu tinha cancelado a cerimônia e, na imaginação de Clara, ela tinha provocado o desastre.
«Você me mostrou uma coisa importante. A decisão foi minha, de adulto. Você não estragou nada.»
«Mas a Renata ficou com raiva.»
«Ela pode ficar com raiva de mim. Não cabe a você resolver isso.»
Clara passou a ponta do dedo numa costura da almofada.
Perguntei se queria me contar como tinha encontrado a folha.
Ela disse que procurava um banheiro antes da cerimônia e tinha parado perto da coluna porque uma das tiras do sapato machucava seu pé.
Viu o papel esquecido sobre o banco e reconheceu o próprio nome nas primeiras linhas.
«Eu não queria mexer nas coisas dela», murmurou.
«Você ficou assustada ao ler sobre você. Entendo por que trouxe para mim.»
Ela respirou um pouco mais tranquila.
Não pedi que repetisse palavra por palavra o que estava escrito.
Já tinha visto suficiente.
Na manhã de domingo, minha mãe chegou com pão fresco e uma sacola de frutas.
Clara correu para abraçá-la, como sempre fazia.
Fiquei observando as duas na cozinha e senti um alívio que não esperava.
A casa ainda era reconhecível para minha filha.
Eu não precisava transformar todos os seus dias numa explicação sobre Renata.
Quando Clara foi desenhar, Sônia se aproximou.
«Eu trouxe meu celular. A Renata me mandou uma mensagem depois da nossa conversa.»
O texto não continha uma ordem, mas deixava claro que o assunto avançara além de uma sugestão.
Renata perguntava se eu conseguiria aceitar que Clara passasse os dias de semana com a avó e voltasse para casa apenas em alguns fins de semana.
Minha mãe respondera que não discutiria a rotina da neta sem falar comigo.
Depois disso, Renata não insistira por escrito.
«Ela mencionou escola?», perguntei.
«Disse que poderia ser mantida. Que eu morava perto o suficiente para levar e buscar. Fiquei pensando que talvez vocês estivessem tentando organizar horários.»
Pensei em quantas decisões aparentemente pequenas Renata tinha tomado a respeito de Clara nos últimos meses.
Às vezes sugeria que eu saísse sozinho com ela porque a menina precisava aprender a ficar com outras pessoas.
Em outras, falava sobre a importância de um casal ter espaço.
Até então, eu interpretara tudo como dificuldade de adaptação.
Agora percebia uma direção comum nesses comentários.
Ainda assim, não podia afirmar que cada conversa tivesse sido mentira.
O que eu sabia era suficiente: ela tinha imaginado retirar minha filha da minha casa.
«Você nunca concordou com isso, certo?», minha mãe perguntou.
«Nunca. Nem soube que ela tinha procurado você.»
Sônia guardou o telefone.
«Então não preciso de mais detalhes para saber onde Clara deve estar.»
Pela primeira vez desde a cerimônia, meu peito afrouxou um pouco.
Minha mãe não tentava tomar meu lugar.
Estava ali para nos ajudar a continuar nossa vida.
Renata ligou seis vezes durante a tarde.
Não atendi enquanto Clara estava por perto.
Quando minha filha saiu para brincar com Marina, respondi por mensagem que precisávamos conversar sobre os pertences dela, mas que não retomaria o casamento.
Renata pediu uma oportunidade de se explicar pessoalmente.
Disse que o bilhete fora mal interpretado e que todos estavam julgando sua intenção sem ouvi-la.
Respondi com uma pergunta simples:
«Você pretendia que Clara deixasse de morar comigo?»
A indicação de mensagem lida apareceu.
Esperei vários minutos.
«Eu queria que você pensasse no que seria melhor para nós», ela escreveu finalmente.
Não havia uma negativa naquela resposta.
Também não havia qualquer preocupação com o que Clara sentira ao descobrir o plano.
Guardei o telefone e decidi que, quando conversássemos, seria num lugar neutro, longe da minha filha.
Na segunda-feira, levei Clara à escola.
Antes de sair do carro, ela quis confirmar se eu estaria ali na hora habitual.
Olhei para o relógio e disse exatamente a que horas voltaria.
Cheguei dez minutos antes, mesmo tendo de cancelar uma reunião.
Quando ela me viu no portão, acenou com uma alegria que pareceu desproporcional para um gesto tão comum.
Eu estava começando a entender o tamanho do medo que tinha colocado sobre os ombros dela.
Naquela noite, enquanto eu fechava a cortina do quarto, Clara me chamou.
Sua voz não tinha a urgência do sábado.
Era baixa, quase cuidadosa.
«Papai, posso perguntar uma coisa sem você ficar triste?»
«Pode perguntar qualquer coisa.»
Ela segurou meu olhar.
«Se eu não tivesse achado aquele papel, você teria casado com a Renata?»
Não existia uma resposta fácil.
E eu não queria que minha filha aprendesse que o amor de um pai dependia de evitar perguntas difíceis.
Para saber como respondi à pergunta que Clara tinha todo o direito de fazer, continue na Parte 4.













