Renata esperava uma resposta, mas a única coisa que eu conseguia ouvir era a respiração curta de Clara ao meu lado.
Ela tinha prendido a barra do meu paletó entre os dedos, como se alguém pudesse nos separar se me soltasse.
Apertei a mão dela antes de me dirigir ao padre.
«Padre, preciso interromper a cerimônia por alguns minutos.»
O murmúrio dos convidados começou imediatamente.
Renata inclinou a cabeça, mantendo um sorriso que já não alcançava seus olhos.
«Lucas, podemos conversar depois dos votos?»
«Não. Precisamos conversar agora.»
Minha irmã, Marina, estava na primeira fileira.
Fiz um sinal para ela e pedi que ficasse com Clara perto da porta lateral.
Minha filha não quis soltar minha mão.
«Você vai voltar?»
«Vou. E nós vamos sair daqui juntos.»
Não prometi que tudo ficaria bem, porque eu ainda não sabia como explicar aquilo a uma criança.
Prometi apenas o que dependia de mim.
Marina se ajoelhou ao lado dela e esperou, sem insistir, até Clara aceitar acompanhá-la.
Pedi a Renata que viesse comigo até uma sala pequena atrás da igreja.
O padre abriu a porta e nos deixou sozinhos.
Havia duas cadeiras, uma mesa com uma garrafa de água e um ventilador desligado.
Nenhum daqueles objetos parecia combinar com o vestido elaborado que Renata usava.
Coloquei o bilhete sobre a mesa.
«Foi você quem escreveu?»
Renata olhou primeiro para a porta.
«Onde você encontrou isso?»
«Clara encontrou. Eu perguntei se foi você quem escreveu.»
«É uma anotação privada, Lucas. Você sabe como fico ansiosa antes de eventos importantes.»
«Essa anotação diz que minha filha não vai morar conosco depois do casamento.»
Ela puxou uma cadeira, mas não se sentou.
Passou os dedos pelo tecido do vestido e finalmente ergueu o rosto.
«Não era para você ler dessa maneira.»
«Existe outra maneira de ler que Clara deve sair de casa definitivamente?»
Renata respirou fundo, irritada por eu repetir as palavras.
Disse que nosso começo como casal exigiria ajustes, que Clara passava muito tempo comigo e que minha mãe poderia ajudá-la a se tornar mais independente.
Falava como se estivéssemos discutindo horários de escola, não o lugar de uma criança na própria família.
«Minha mãe recebe Clara nas férias e em alguns fins de semana», respondi.
«Ela não é uma alternativa para a filha morar longe de mim.»
«Você trabalha muito. Eu só pensei numa rotina melhor para todos.»
«Para quem, Renata? Clara não pediu essa rotina. Eu também não.»
Ela cruzou os braços.
«Você sabe que eu tentei me aproximar dela.»
Era verdade que tinham ido juntas ao cinema e escolhido flores para a cerimônia.
Eu lembrava dos sorrisos nas fotografias e das vezes em que Renata ajudara Clara a escolher um vestido.
O que não entendia era como esses gestos conviviam com o plano escrito sobre a mesa.
«Se estava com dificuldade de conviver com minha filha, precisava ter me dito antes de aceitarmos o casamento.»
«Eu achei que, depois, você entenderia.»
A frase me atingiu mais do que qualquer desculpa.
Ela havia decidido não conversar comigo porque esperava que, depois dos votos, eu me sentisse obrigado a concordar.
«Você já falou disso com alguém?»
«Não vamos transformar um pensamento num crime.»
«Não perguntei isso.»
Renata olhou para o relógio na parede.
Do lado de fora, uma porta bateu e ouvimos passos no corredor.
«Os convidados estão esperando», disse ela.
«Podemos entrar, terminar e resolver tudo em casa, como adultos.»
Lembrei de Clara escondendo o rosto atrás da coluna.
Adultos tinham criado aquele problema; era ela quem estava pagando por ele.
«Não vou me casar hoje.»
Renata ficou tão imóvel que ouvi o ventilador da sala vizinha.
«Você está cancelando nosso casamento por causa de um papel?»
«Estou cancelando porque você planejou afastar minha filha e escondeu isso de mim.»
«Lucas, pense na vergonha que vamos passar.»
«Eu estou pensando em Clara.»
Por alguns segundos, o rosto dela se contraiu.
Então veio outra tentativa.
Renata segurou meu braço e disse que rasgaria a anotação, que talvez tivesse exagerado e que me amava.
Eu não duvidava de que ela estivesse assustada.
Mas rasgar uma folha não apagaria o medo que minha filha tinha acabado de sentir.
«Não vou discutir isso na frente de Clara», falei, afastando sua mão com cuidado.
«Depois conversaremos sobre nossas coisas. Hoje, a cerimônia termina aqui.»
Voltei ao altar sem Renata.
Marina já tinha levado Clara para perto da saída, onde minha filha podia esperar sem ouvir os comentários.
Pedi ao padre o microfone e olhei para os rostos conhecidos.
Alguns convidados se levantaram, tentando entender.
«A cerimônia não vai acontecer. Peço desculpas a quem veio até aqui e agradeço o carinho de todos. É uma decisão minha, e não quero que ninguém procure culpados entre as crianças da nossa família.»
Não expliquei o bilhete.
Clara não precisava que sua dor virasse assunto de uma sala cheia.
Entreguei o microfone, procurei Marina e caminhei até minha filha.
«Vamos para casa, papai?»
«Vamos.»
No estacionamento, ela perguntou se podia tirar os sapatos apertados.
Ajudei-a a guardá-los numa sacola enquanto Marina procurava o carro.
Era uma pergunta tão comum que me deu vontade de chorar.
Pouco antes, Clara achara que estava perdendo sua casa.
Agora só queria se livrar dos sapatos.
Quando chegamos ao apartamento, preparei pão com queijo para nós dois.
Ela comeu metade, encostada ao meu braço, e adormeceu no sofá antes de terminar um desenho.
Cobri seus pés e fui até a cozinha com o bilhete guardado no bolso.
Meu telefone tocou.
Era minha mãe, Sônia, que tinha saído mais cedo da cerimônia por não se sentir bem.
Contei apenas que o casamento fora cancelado e que Clara estava segura comigo.
Houve um longo silêncio.
«Lucas», ela disse, «a Renata me procurou na semana passada. Perguntou se Clara poderia morar comigo depois que vocês casassem.»
Olhei para a porta da sala, onde minha filha dormia.
Até aquele instante, eu ainda esperava que Renata tivesse apenas escrito um pensamento cruel e isolado.
Mas o que minha mãe acabara de dizer mostrava que o bilhete era parte de um plano.
Para entender o que Renata já tinha tentado organizar sem meu conhecimento, continue na Parte 3.













