Lívia pediu que todos saíssem da sala de monitoramento, menos Rafael, Caio, a mãe dela e Marcelo.
Eu fui junto com Paulo até o corredor, certa de que minha participação tinha terminado.
Não tinha.
— Ana — chamou Lívia.
Voltei.
Ela apontou para uma cadeira perto da porta.
— Fica, por favor.
Rafael soltou uma risada curta.
— Sério? Agora a garçonete vai participar da nossa conversa?
Lívia olhou para ele.
— A garçonete foi a única pessoa que não mentiu para mim desde que isso começou.
Eu queria desaparecer dali, mas sabia que, se saísse, a história poderia voltar a ser contada por quem tinha mais poder.
Fiquei.
Caio começou pelo começo.
Disse que Marina tinha sido namorada de Rafael durante quase quatro anos. A família conhecia. Eles moraram juntos por um período e terminaram, segundo Rafael, meses antes de ele conhecer Lívia.
Rafael interrompeu.
— E foi isso.
Caio não olhou para ele.
— Foi o que você contou para todo mundo.
Lívia cruzou os braços.
— Continua.
Em janeiro do ano anterior, quase dois anos depois do início do namoro de Lívia e Rafael, Marina reapareceu. Não por acaso. Rafael tinha procurado por ela.
— Eu estava confuso — disse ele.
— Confuso não manda mensagem para ex escondido — respondeu Lívia.
Caio explicou que Rafael disse estar “precisando encerrar coisas antigas”. Em fevereiro, chamou o irmão para viajar com ele até Tiradentes. Caio acreditava que seria uma conversa final. Quando chegou à pousada, encontrou Marina, duas amigas dela e um casal conhecido dos dois.
Não era uma despedida.
Era uma cerimônia pequena, simbólica, sem validade civil.
Rafael e Marina trocaram anéis.
Lívia segurou o objeto com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Você colocou isso no dedo dela?
Rafael não respondeu.
— Responde.
— Coloquei.
Teresa levou a mão à boca.
Caio continuou:
— Eu fui embora antes do jantar.
— Mas não me contou — disse Lívia.
Ele fechou os olhos.
— Não.
— Por quê?
— Porque ele jurou que ia resolver tudo quando voltasse.
Rafael finalmente falou.
— E eu resolvi.
— Como? — perguntou Lívia.
— Terminei com ela.
— Depois de fazer uma cerimônia escondida enquanto estava comigo?
— Eu estava perdido.
Lívia soltou o anel sobre a mesa.
— Você gosta muito dessa palavra.
Rafael se aproximou.
— Eu escolhi você.
— Não. Você escondeu uma escolha de mim.
Rafael começou a explicar que Marina representava uma vida antiga, uma versão dele que ele não conseguia abandonar. Disse que a viagem tinha sido um erro, que a cerimônia aconteceu num momento de fraqueza, que depois percebeu que queria seguir com Lívia.
Ela perguntou quando terminou com Marina.
Ele respondeu:
— Logo depois.
Caio mexeu o peso do corpo de um pé para o outro.
Lívia percebeu.
— Caio?
— Não foi logo depois.
Rafael virou.
— Chega.
— Você pediu para eu falar a verdade.
— Eu não pedi nada.
— Não para mim. Para ela. Quando você pediu ela em casamento, pediu que ela acreditasse em você.
Caio contou que viu Marina novamente em agosto daquele mesmo ano, saindo do apartamento de Rafael. Eles disseram que estavam apenas conversando. Em novembro, Marina ligou para Caio chorando e pediu que ele convencesse o irmão a parar de procurá-la.
— Foi a última vez que falei com ela — disse.
Lívia ficou quieta por vários segundos.
— Então não era uma despedida. Durou meses.
Rafael passou a mão pelo cabelo.
— Eu não dormi com ela depois de fevereiro.
— E isso deveria me tranquilizar?
— Eu estou tentando te dizer que acabou.
— Quando acabou?
Ele não conseguiu responder com uma data.
Foi aí que Lívia deixou de procurar explicação. Eu vi no rosto dela. Até então, cada pergunta era uma tentativa de construir alguma versão do mundo onde aquela noite ainda pudesse continuar. Quando percebeu que cada resposta abria outra mentira, parou de negociar.
— Como esse anel veio parar no seu bolso hoje?
Rafael olhou para o chão.
Caio respondeu:
— Chegou no hotel de manhã.
Rafael levantou a cabeça.
— Você não sabe disso.
— Eu entreguei o envelope para você.
Lívia virou para Caio.
Ele contou que a recepção do hotel onde os padrinhos estavam se arrumando recebeu um envelope pequeno no nome de Rafael. Não havia remetente escrito por fora. Caio levou até o quarto. Rafael abriu e encontrou o anel.
— Tinha bilhete? — perguntou Lívia.
Rafael demorou.
— Não.
Caio disse:
— Tinha.
Rafael bateu a mão na mesa.
— Você nem leu.
— Eu vi você amassando.
Lívia fechou os olhos.
— Onde está?
Rafael respirou fundo.
— Joguei fora.
Marcelo, que até ali permanecia discreto, perguntou:
— No hotel ou aqui?
Rafael o encarou.
— Qual a diferença?
— Se foi aqui, talvez esteja no lixo do camarim.
Paulo, do lado de fora, ouviu e chamou uma funcionária da limpeza. Em menos de dez minutos, encontraram um pedaço de papel amassado no cesto do camarim masculino, junto a embalagens de água e lenços usados na preparação.
Ninguém tocou antes de Marcelo fotografar.
O bilhete tinha poucas palavras.
“Você disse que não queria carregar duas vidas. Então pare de carregar a minha.”
Não havia assinatura.
Não precisava.
Lívia leu duas vezes.
Rafael tentou novamente.
— Ela fez isso para acabar com nosso casamento.
— Não — disse Lívia. — Ela devolveu uma coisa que era sua.
— Você não sabe o que aconteceu entre nós.
— Eu sei o que aconteceu entre nós.
A frase saiu baixa.
Foi ali que a discussão deixou de ser sobre Marina.
Lívia perguntou quantas vezes Rafael tinha mentido para ela sobre viagens, reuniões, fins de semana e telefonemas. Ele respondeu que não lembrava. Ela perguntou se alguma vez teria contado por vontade própria. Ele disse que pretendia fazer isso “quando fosse a hora”.
— Qual hora? — perguntou. — Depois que eu assinasse os papéis? Depois da lua de mel? Depois de um filho?
Rafael ficou em silêncio.
Teresa começou a chorar.
Caio parecia menor a cada minuto.
Eu pensei em Sônia e no modo como ela tinha tentado empurrar tudo para dentro dos meus bolsos. Um objeto sumiu e a primeira hipótese dela foi que alguém como eu devia ter pegado. Um segredo apareceu e a primeira reação dela foi esconder. No fundo, os dois gestos vinham do mesmo lugar: a ideia de que a verdade podia ser administrada se as pessoas certas controlassem quem tinha permissão para falar.
Lívia pegou o celular.
— O que você vai fazer? — perguntou Rafael.
Ela olhou para ele.
— Primeiro, vou impedir que mais cento e cinquenta pessoas fiquem esperando uma festa que não vai acontecer.
— Lívia, não faz isso no impulso.
Ela quase sorriu.
— Impulso foi você ter duas histórias ao mesmo tempo.
Abriu a porta.
Do outro lado, dava para ouvir os convidados falando baixo.
Rafael segurou a maçaneta antes que ela saísse.
— Se você atravessar essa porta e cancelar tudo, acabou.
Lívia fitou a mão dele.
— Você ainda acha que é você quem decide quando acaba?
Ele soltou a maçaneta.
Ela saiu.
E eu fui atrás.













