A palavra “Marina” ficou entre nós como se tivesse peso.
Lívia não me deu tempo de perguntar mais.
— Caio está no camarim do noivo — disse. — Rafael também. Minha mãe ficou com os convidados. Eu preciso saber se minha tia mexeu nas minhas coisas.
Ela parecia menos interessada em escândalo do que em ordem. Era como se tivesse decidido que, se aquela noite ia desmoronar, pelo menos desmoronaria em fatos.
Voltei com ela até o corredor lateral. Paulo tentou me impedir de passar.
— Ana, eu pedi para você esperar.
Lívia respondeu antes de mim.
— Ela vem comigo.
O gerente abriu caminho.
Na sala de monitoramento, Marcelo tinha separado três trechos. No primeiro, Sônia aparecia entrando no camarim da noiva vinte e sete minutos antes do brinde. Nada incomum. Ela carregava uma caixa de lenços e saía menos de dois minutos depois.
No segundo, voltava sozinha.
Dessa vez, não carregava nada ao entrar.
Ao sair, a mão direita estava fechada.
A imagem não permitia ver o objeto.
Sônia, chamada até ali, cruzou os braços.
— Eu peguei um grampo de cabelo.
Lívia olhou para ela.
— Do meu camarim?
— Você tinha uma caixa cheia.
— Então abre sua bolsa.
A frase fez Sônia empalidecer.
Eu conhecia aquele segundo de silêncio. Era o mesmo que eu tinha sentido quando ela apontou para meu bolso. Só que, dessa vez, ninguém segurava o avental dela. Ninguém a tocou.
Marcelo colocou a bolsa sobre a mesa.
— A senhora autoriza?
Sônia demorou, mas respondeu:
— Autorizo.
Ela mesma abriu o zíper.
Havia carteira, maquiagem, remédios, um carregador, chaves e um pequeno porta-joias de veludo azul.
Lívia puxou o ar.
Sônia fechou os olhos.
— Eu ia devolver.
O anel da avó estava dentro.
Lívia não chorou. Isso foi o que mais me marcou. Pegou a joia, conferiu a pedra, passou o polegar sobre a lateral e perguntou:
— Por quê?
Sônia sentou.
— Eu vi uma garçonete entrando no camarim.
Olhou para mim sem dizer meu nome.
— Era a equipe recolhendo as bandejas — respondi.
— Eu não sabia. Eu fiquei com medo de alguém pegar o anel.
— Então você pegou.
— Para guardar.
— E quando eu perguntei onde estava?
Sônia apertou a alça da bolsa.
— Eu entrei em pânico.
— E resolveu apontar para a primeira pessoa de uniforme?
— Eu achei que ela podia ter visto alguma coisa.
— Você mandou ela esvaziar os bolsos na frente dos meus convidados.
Sônia levantou o rosto.
— Eu estava tentando proteger você.
Lívia riu uma vez.
— Você sempre chama de proteção quando decide por mim.
A frase parecia antiga. Não nasceu naquela noite.
Paulo pigarreou.
— Bom, pelo menos a joia apareceu.
Virei para ele.
— “Pelo menos”?
Ele percebeu tarde demais o que tinha dito.
— Eu quis dizer que essa parte está resolvida.
— Para ela, talvez. Para mim, não.
Marcelo concordou.
— O registro do incidente precisa mencionar que o objeto foi encontrado com a convidada que iniciou a acusação.
Sônia se levantou.
— Eu não roubei nada.
— Eu não disse que roubou — respondeu Marcelo. — Disse que estava com a senhora.
Pela primeira vez, eu senti que alguém estava descrevendo a cena sem tentar suavizá-la.
Lívia guardou o anel da avó no bolso interno de uma nécessaire e entregou à mãe, que tinha acabado de entrar. Teresa, mãe da noiva, olhou para a irmã como se não a reconhecesse.
— Você fez isso?
— Eu ia devolver.
— Depois de acusar uma funcionária?
Sônia virou o rosto.
Mas ainda faltava o terceiro trecho.
Marcelo apertou o play.
A câmera mostrava a lateral do salão pouco antes de Sônia me parar. Rafael estava falando com um fotógrafo. Algo pequeno caiu do bolso interno do paletó quando ele tirou o celular.
Sônia viu.
Olhou ao redor.
Pegou o objeto do chão.
Mesmo sem zoom, dava para perceber que era um anel.
Ela examinou por alguns segundos. Depois levantou os olhos para Rafael.
O rosto dela mudou.
Em seguida, envolveu o anel num guardanapo e voltou para a mesa.
Lívia não piscou.
— Você leu a gravação.
Sônia não respondeu.
— Você viu o nome dele e o de Marina antes de me acusar.
— Eu só queria evitar uma cena.
— Então criou outra.
— Eu precisava pensar.
— E achou que humilhar a Ana compraria tempo?
Sônia olhou para mim.
Dessa vez havia vergonha no rosto dela. Mas vergonha não é desculpa.
— Eu achei que, se todo mundo estivesse olhando para outra coisa…
Ela parou.
Lívia terminou:
— Ninguém ia perguntar o que você encontrou.
O silêncio voltou.
Eu entendi, enfim, o desenho inteiro daquela primeira cena. Sônia não tinha escondido o anel estranho porque achava que era da noiva. Ela sabia que não era. Quando percebeu que a joia da avó também estava “sumida” por causa dela própria, transformou minha presença em saída. Se eu fosse suspeita, ela ganharia alguns minutos para decidir o que fazer com os dois problemas.
Só não esperava que eu olhasse para a mão dela.
Teresa pediu que Sônia saísse da sala.
— Depois nós conversamos.
— Teresa…
— Depois.
Sônia passou por mim antes de ir.
— Ana, eu…
Ergui a mão.
— Agora não.
Ela assentiu.
Lívia ficou encostada na mesa, segurando o outro anel.
— Falta Rafael.
Caio apareceu na porta nesse momento.
Não parecia um padrinho de casamento. Parecia alguém que tinha acabado de entender que o silêncio dele também tinha data de validade.
— Lívia — disse.
Ela ergueu o anel.
— Você falou que já viu isso no dedo de Marina.
Caio olhou para Rafael, que vinha logo atrás.
Rafael disse:
— Não responde.
Foi a pior coisa que poderia ter dito.
Lívia virou para Caio.
— Eu não estou perguntando para ele.
Caio passou a mão na nuca.
— Foi em Tiradentes.
Rafael fechou os olhos.
— Cala a boca.
— Quando? — perguntou Lívia.
Caio demorou.
— Fevereiro do ano passado.
A mesma data gravada no anel.
Lívia perdeu a cor.
— Eu e Rafael já estávamos juntos.
Caio baixou os olhos.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— O que aconteceu em Tiradentes?
Caio abriu a boca, mas Rafael avançou.
— Foi uma despedida. Só isso.
Caio olhou para o irmão.
— Não foi só isso.
E, naquele instante, percebi que o anel desaparecido da avó tinha sido o problema mais simples daquela noite.













