Dominic não dormiu naquela noite.
Na biblioteca da mansão, releu os depoimentos que sua advogada conseguira consultar e voltou dezenas de vezes à mesma frase escrita no caderno de Samuel.
O portão fora verificado antes da busca.
Não era uma prova definitiva, mas bastava para mostrar que a história oficial tinha pontos cegos.
Na manhã seguinte, Claire encontrou Bruno deitado diante da escada que levava ao antigo quarto de Emily.
Dominic estava no patamar, com a mão sobre a maçaneta.
— Eu não entro aqui desde o último aniversário dela — confessou.
— Não precisamos fazer isso hoje.
— Preciso entender por que ela queria me contar alguma coisa e eu não estava ouvindo.
O quarto conservava as cortinas claras, os livros de aventuras e um pequeno cavalo de madeira sobre a cômoda.
Não parecia um lugar abandonado, mas um lugar que alguém havia proibido o tempo de modificar.
Dominic contou que estivera fora de Chicago no dia da tempestade.
Passara a noite tentando voltar de uma viagem, recebendo notícias desencontradas pelo telefone.
Vincent fora a primeira pessoa a lhe dizer que o corpo da irmã tinha sido encontrado no lago.
— Ele também me disse que Samuel não havia fechado o portão — acrescentou.
Claire não respondeu.
Sabia o que aquela frase custara à própria família.
A mãe de Dominic, Laura, morrera alguns anos antes de Emily.
Era dela a estufa de orquídeas e o costume de deixar cartas nos aniversários dos filhos, uma por ano, mesmo quando não podia acompanhá-los.
Depois da morte de Laura, Emily guardara os envelopes numa caixa azul.
Dominic se lembrava de tê-la visto levando aquela caixa ao jardim, como se as cartas merecessem ficar perto das flores.
Procuraram primeiro no armário e debaixo da cama.
Encontraram cartões da escola, um cachecol e fotografias de Bruno ainda filhote.
Nenhuma carta.
Dominic parecia prestes a desistir quando Claire percebeu uma marca retangular de poeira na prateleira mais baixa.
Era o lugar de uma caixa retirada havia muito tempo.
— Vincent fechou a estufa depois do funeral — lembrou Dominic. — Disse que precisava recolher os objetos de minha mãe.
A advogada, Nora Whitfield, chegou uma hora depois.
Ela insistiu que ninguém invadisse ou modificasse a construção antes de uma inspeção documentada.
Conseguiu falar com um investigador que havia participado da análise do caso e explicou a importância do novo relato de Vincent, ouvido também por Claire.
As autoridades concordaram em avaliar formalmente a informação e registrar o estado do local.
Na presença de um técnico e de um policial, a fechadura foi examinada.
A tranca podia ser acionada por fora; por dentro, a maçaneta girava sem liberar a porta principal.
O técnico advertiu que nove anos de abandono impediam saber exatamente quando a peça falhara.
Mesmo assim, o mecanismo contrariava a ideia de que Emily pudesse simplesmente ter saído por ali.
Bruno acompanhava tudo com uma concentração cansada.
Quando abriram a estufa, ele não correu para dentro.
Foi devagar até uma bancada quebrada e se deitou junto ao antigo espaço onde ficavam as orquídeas de Laura.
Claire acariciou seu pescoço.
— Você não precisa encontrar nada — murmurou. — Já nos mostrou para onde olhar.
Dominic reconheceu sobre uma prateleira uma placa de cerâmica pintada pela irmã.
Estava rachada, mas ainda se via a palavra “Mamãe” entre flores azuis.
Ele teve vontade de levá-la consigo.
O policial pediu que aguardasse o fim da inspeção, e Dominic obedeceu.
Era um gesto pequeno, porém Claire percebeu o quanto lhe custava não agir como dono de tudo à sua volta.
No escritório de Vincent, que ficava numa ala da mansão, Daniel encontrou uma lista de objetos recolhidos da estufa após a morte de Emily.
Não a abriu sozinho.
Entregou a folha às autoridades, informando onde fora guardada.
Entre vasos, ferramentas e fotografias havia uma linha escrita à mão: “caixa azul — correspondência”.
Ao lado, apareciam as iniciais V. C.
Dominic leu a anotação duas vezes.
— Ele pegou as cartas.
— A lista mostra que alguém registrou a caixa com as iniciais dele — corrigiu Nora. — Precisamos saber para onde foi.
Claire concordou.
Depois de tantos anos vendo o pai acusado com base em certezas frágeis, não queria repetir o mesmo erro contra outra pessoa.
À tarde, Samuel aceitou prestar novo depoimento.
Sentou-se diante de dois investigadores, com uma garrafa de água que Claire lhe entregara.
Contou novamente sobre Bruno, a tranca, a menina ainda respirando e o pedido de chamar ajuda.
Dessa vez ninguém o interrompeu.
Quando lhe perguntaram se podia identificar o homem que estava junto de Emily, respondeu sem hesitar.
— Vincent Caruso.
Um dos investigadores explicou que seria necessário conferir o depoimento com registros antigos e ouvir outras testemunhas.
Samuel concordou.
Não estava pedindo que acreditassem nele por pena, apenas que investigassem o que dissera desde o início.
Na saída, Dominic o esperava no corredor.
— Eu tinha vinte e cinco anos — disse Dominic. — Achei que proteger a memória dela era aceitar o que meu pai e Vincent contavam. Eu deveria ter feito perguntas.
— Perguntas não a teriam trazido de volta — respondeu Samuel. — Mas talvez tivessem poupado Claire.
Dominic baixou a cabeça.
Era a primeira vez que Samuel lhe falava da filha sem medo do sobrenome Moretti.
Ao entardecer, Nora telefonou com uma notícia sobre o laudo original.
O primeiro relatório médico registrava sinais de exposição prolongada ao frio e observações que não constavam do resumo usado no julgamento.
Não excluía afogamento, alertou ela; contudo, tornava necessário reexaminar a sequência entre a estufa e o lago.
Dominic ficou em silêncio antes de perguntar:
— Por que o tribunal só viu o resumo?
— Essa é outra questão que teremos de investigar.
A resposta veio acompanhada de um segundo detalhe.
Um antigo registro de retirada da correspondência da propriedade indicava que Vincent levara uma caixa azul para fora da mansão dois dias após o funeral.
Não havia registro de devolução.
Claire pensou na menina tentando proteger uma carta da mãe durante a tempestade.
Se Vincent levara aquelas palavras embora, ainda podia estar guardando mais do que lembranças.
O que ele tentara esconder dentro da caixa azul? Descubra na Parte 4.













